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Roberto Pompeu de Toledo

O segredo do insucesso

Onde se encontrará a explicação
definitiva para as derrotas do Brasil
e não só nas Olimpíadas

Em meio a tanto choro, tanta zanga e tanto lamento, não se deu a devida atenção à melhor explicação para os insucessos brasileiros nas Olimpíadas de Sydney. Foi a do psicólogo da delegação brasileira, Roberto Shinyashiki, registrada pela Folha de S.Paulo. "O problema desses esportes", disse ele, "é que você tem um adversário. É o que mata". Nada mais apropriado. Serve para o esporte e para muitas outras coisas na vida. Como seríamos magníficos, invariavelmente os melhores, os mais fortes, os mais hábeis, mais inteligentes e mais belos, se não houvesse o outro, insolente e atrevido, a oferecer-se como impertinente medida de comparação. Seríamos sempre o número 1! Sozinhos, ninguém nos seguraria!

Alguns receberão a frase do psicólogo com um sorriso. O esporte, por natureza, não supõe um adversário? Sua explicação não equivaleria a dizer: "O problema da chuva é que molha"? Admita-se, para começar, que o problema da chuva é, mesmo, que molha. Como seria interessante e graciosa se se limitasse a descer tal qual cortina sobre a paisagem. Se se contentasse em produzir aquele barulhinho, tão delicioso de ouvir na cama – com a vantagem de que se poderia ouvir lá fora mesmo, sem o risco de ficar molhado. Isso em primeiro lugar. Em segundo, lembremo-nos de Jean-Paul Sartre, tão esquecido ultimamente. Numa de suas mais célebres frases, ele disse que o inferno são os outros. Não é o mesmo? Não é igual dizer que o problema são os adversários? E no entanto Sartre é um gênio, e Shinyashiki seria um simplório. Não. Fiquemos com Shinyashiki. Seu diagnóstico é definitivo: o problema do Brasil, nestas Olimpíadas, foram os adversários. De tão bom, pode ser ampliado para além do âmbito das Olimpíadas. O problema do Brasil, em geral, são os adversários. São os outros.

 

Quem quer que tenha praticado algum esporte sabe como é bom ganhar. É bom na hora e é melhor ainda depois, à noite, antes de dormir. Mais gostoso ainda do que o barulhinho de chuva é deixar-se embalar com a recordação da vitória. Reconstroem-se na mente, como num videoteipe, os melhores momentos. O drible inesquecível, o arremesso do meio da quadra, o saque que deixou o adversário estatelado. O peito pulsa em ondas de plenitude. Os lances se repetem na cabeça como disco encalhado. É o momento em que desfrutamos o nirvana do gol, a bem-aventurança da bola enterrada na cesta, a glória excelsa da cortada precisa. Felicidade igual, só a da paixão. Quando nos deitamos, neste caso, o peito incha à lembrança da pessoa amada. Um e outro caso têm em comum o fato de resultarem da conquista do outro. Mas que conquistas diferentes são essas. A conquista da paixão é quando se traz o outro para o próprio lado, é acolhê-lho no mesmo time. A conquista do esporte é quando se exclui o outro, é aplastá-lo. Donde ser possível aperfeiçoar o diagnóstico de Shinyashiki. O problema do esporte não é haver o outro. É o outro ser como é – perverso, cheio de más intenções.

O problema do adversário é ser como nós. Ele também quer ganhar.

 

Os atletas se queixam, depois de uma derrota, do esforço desperdiçado. Quatro anos de sacrifícios, de treinamento intenso – e, injustiça das injustiças, num átimo tudo vira pó. Sim, quatro anos é muito. Fez-se muito, nesse período, no afã de aperfeiçoar os músculos e as habilidades, e muitas boas coisas da vida se deixou de fazer. Não que não tenha havido resultados. Conseguiu-se melhorar, ao cabo da insana empreitada, mas... O diabo é que o adversário fez o mesmo. Também dedicou os quatro anos a melhorar. Uma saída, para o Brasil, seria fazer um apelo aos adversários, na reunião do Comitê Olímpico Internacional. Será que, enquanto continuamos, não dava para eles darem uma parada? Só pelos próximos quatro anos? Só até Atenas?

Se o leitor acha tal apelo absurdo, considere o que fazem os economistas. Eles torcem para os dois lados. É mais absurdo ainda. Torcem para que o Brasil apresente taxas contínuas de crescimento do PIB e para que os Estados Unidos façam o mesmo. Dizem que, se eles não crescerem, e assim expandirem o mercado, e incrementarem suas compras, também não cresceremos. Ora, tal raciocínio nos condena à rabeira eterna. Enquanto eles crescerem, e mesmo que também cresçamos, a diferença entre nós e eles será cada vez maior. E nosso problema é a diferença. Todo o problema é eles existirem, os Estados Unidos e os demais países desenvolvidos, como impertinentes medidas de comparação. É haver um outro, ou outros. Haver adversário, para voltar à doutrina Shinyashiki. Se estivéssemos sozinhos, seríamos campeões em tudo. Até, à falta de outro modelo, em distribuição de renda.

O Brasil devia, nas reuniões do FMI, fazer o mesmo apelo da reunião do Comitê Olímpico. Será que não dava para, enquanto continuamos, os outros darem uma parada? Só um pouco? Por uns trinta anos? Se tivessem um mínimo de compreensão, eles nos dariam essa chance de tirar a diferença.

 

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