CINEMA
Duas
Vidas (Disney's the Kid, Estados Unidos, 2000.
Estréia nesta sexta-feira em circuito nacional)
À primeira vista, Duas Vidas parece apenas mais
uma daquelas comédias ternas e edificantes que são
lançadas às dúzias. Mas não se engane:
a destreza do roteiro e o carisma irreprimível de Bruce
Willis (que só se acentua desde sua separação
de Demi Moore) tornam este filme muito mais inteligente do que
se anuncia. Willis está impecável como o consultor
de imagem Russ Duritz. Modelo de sucesso profissional e de frieza
emocional, ele não sabe o que fazer com o garoto ruivo
e rechonchudo que, certo dia, invade sua casa. Nem poderia: o
menino é o próprio Russ, aos 8 anos. A decepção
é mútua. O adulto se constrange com a vulnerabilidade
do seu "eu" mais jovem, enquanto o moleque fica perplexo ao descobrir
que, aos 40 anos, não tem namorada, cachorro ou família.
Tape os ouvidos quando a trilha ficar melosa demais e aproveite.
TELEVISÃO
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do Rio: 24 horas na TV francesa |
24
Heures à Rio, Ça Me Dit! (sábado
7, a partir das 13 horas, no TV5/NET) O canal francês
TV5 vai dedicar 24 horas de sua programação ao Rio
de Janeiro, numa transmissão simultânea para 120
países. A megaprodução é a sétima
da série Ça Me Dit!, que já mostrou
cidades como Amsterdã, Jerusalém e Paris. Para traçar
um perfil cultural do Rio, a estatal francesa vai apresentar entrevistas
e reportagens com temas brasileiros. A lista de convidados é
bastante eclética. Vai do escritor Paulo Coelho à
carnavalesca Maria Augusta Rodriguez, passando pelo cineasta Walter
Salles. Os bem-cuidados documentários franceses, gravados
nos últimos meses, falam sobre samba e futebol, sim, mas
também abordam assuntos como a expansão da Igreja
Universal. Até os telejornais, únicos programas
da grade normal que serão mantidos, terão reportagens
feitas por aqui. É para francês ver, mas merece atenção
dos brasileiros sintonizados na TV por assinatura, nem que seja
para reclamar dos clichês.
DISCO
Kid
A, Radiohead (EMI Music) O quarto álbum
do grupo britânico Radiohead é um dos grandes lançamentos
do ano. Desde 1997, afinal, os fãs da banda liderada pelo
esquisitão Thom Yorke aguardam pelo sucessor do aclamado
OK Computer. Pois prepare-se: o lirismo angustiado, as
melodias espertíssimas e os instrumentais climáticos
continuam tão bem dosados quanto naquele disco. As dez
faixas inéditas são uma síntese daquilo que
há de melhor na área do pop que aposta em letras
inteligentes e flerta com ingredientes eletrônicos. Yorke
e companhia arrasam nas baladas melancólicas, como a arrebatadora
Everything in Its Right Place, que abre o disco. Eles também
experimentam, sem jamais soar maçantes um bom exemplo
é a cacofonia jazzística da faixa The National
Anthem. Se você pretende comprar um único CD
moderninho neste ano, não titubeie.
LIVRO
O
Homem que Comeu de Tudo, de Jeffrey Steingarten (tradução
de Henrique W. Leão; Companhia das Letras; 495 páginas;
39 reais) Anos atrás, ao visitar um spa, Jeffrey
Steingarten teve de preencher um formulário com a seguinte
questão: "Você é obcecado por comida?" Impávido,
ele anotou: "De jeito nenhum. Mas eu praticamente não penso
em outra coisa". A tirada resume o espírito de seus artigos,
publicados desde 1989 pela revista Vogue. São críticas
de gastronomia divertidas e inteligentes, as melhores da imprensa
mundial. Como demonstra esta coletânea, o autor não
se limita a comentar receitas. Analisa todos os rituais, manias
e até a ciência envolvida na alimentação.
A introdução revela como ele superou suas fobias
alimentares (exceto por comida azul e sobremesas indianas). No
correr dos textos, Steingarten viaja pela Tunísia, visita
o McDonald's da esquina e organiza uma degustação
de ketchups. Um artigo impagável narra seu périplo
por laboratórios químicos, em busca da água
mineral perfeita. E assim por diante. Um livro para devorar.
CONCERTO
Sinfônica
de Chicago, sob a regência de Daniel Barenboim (quarta
no Teatro Municipal do Rio de Janeiro; de quinta a sábado
na Sala São Paulo, em São Paulo) Um dos maiores
maestros da atualidade, o argentino naturalizado israelense Daniel
Barenboim está há onze anos à frente da Sinfônica
de Chicago, também uma das mais respeitadas orquestras
do mundo. Nesse encontro de titãs, uma atração
extra: no Rio e no primeiro concerto paulista, Barenboim executará
uma de suas performances prediletas, que é reger a orquestra
e, ao mesmo tempo, atuar como solista ao piano. A peça
escolhida para a ocasião é o vigoroso Concerto
para Piano e Orquestra Nº 25 em Dó Maior, K. 503,
de Mozart. Nas récitas que serão apresentadas apenas
em São Paulo, há obras de Mahler, Debussy e Manuel
De Falla.
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Os
mais vendidos Crítica
Numa
convenção de fãs de livros de mistério
realizada em setembro nos Estados Unidos, Agatha Christie
foi eleita a melhor escritora de romances policiais do século
XX. Nada menos original e mais falso. Que a autora
inglesa (1890-1976) tinha talento para criar tramas intricadas
é inegável. Mas pouca gente na história
da literatura pisou e repisou as mesmas fórmulas
tanto quanto ela. O Visitante Inesperado (tradução
de Flávia Villas-Boas; Record; 156 páginas;
20 reais), que estréia na lista dos mais vendidos
de VEJA, é mais uma dessas repetições.
Com uma agravante: anunciado como romance inédito,
é na realidade a adaptação que seu
biógrafo, Charles Osborne, fez de uma peça
homônima escrita em 1958. O livro é um apanhado
de diálogos com um ou outro remendo narrativo. A
criatividade do narrador pode ser medida pela abertura do
livro: "Era pouco antes de meia-noite numa fria noite de
novembro". E por aí vai, com clichês de igual
quilate.
A
concepção da trama não levaria 10 de
originalidade num cursinho de redação, mas
até que poderia funcionar: um sujeito chega numa
casa escura e encontra um morto numa cadeira de rodas. Ao
lado dele, a esposa, com uma arma na mão. Ela assume
o crime e os dois planejam uma maneira de livrar sua barra.
A trama, porém, não funciona. Agatha, nesta
obra menor, cometeu um deslize fatal: resolveu falar de
amor, tema que não é exatamente a especialidade
de escritores policiais. Ao entrar nessa seara, pode decepcionar
até seus fãs irredutíveis.
Flávio
Moura
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