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Gustavo
Franco
O maior dos esqueletos
"Na
previdência do setor
público não há
informalidade nem sonegação, e tampouco
explicações satisfatórias para o absurdo
em que vivemos"
Ilustração Ale Setti
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De acordo com os resultados preliminares do censo de 2000, somos cerca
de 170 milhões de brasileiros, dos quais 8,6% são idosos.
Essa proporção dobrou de 1940 para cá, sendo de esperar
que continue a crescer nas próximas décadas. O IBGE tem
projeções de longuíssimo prazo segundo as quais,
em 2050, seremos aproximadamente 238 milhões, dos quais 52 milhões
(em torno de 22%) terão mais de 60 anos. Nessa ocasião o
crescimento populacional terá praticamente estacionado e a expectativa
de vida será de 73,6 anos (contra 68,5 hoje).
As coisas
podem acontecer mais rápido, nunca se sabe, mas, mesmo se aceitarmos
a conclusão de que a participação da população
idosa sobre o total dobrará novamente em algumas décadas,
o Brasil ainda seria uma nação relativamente jovem em meados
do século XXI, quando comparada com o resto do mundo. Para a média
dos países desenvolvidos, a população idosa atualmente
supera 20% do total, devendo chegar a 31% em 2030. Para esse universo
de países já se falava em uma "crise" em decorrência
do envelhecimento da população no começo dos anos
90. Foi essa a linguagem de um famosíssimo relatório do
Banco Mundial de 1994, que previa o colapso dos sistemas de previdência
social e saúde pública em tais países. As nações
"jovens", naquela altura, deviam prevenir-se reformando seus sistemas
antes que fosse tarde demais e as mudanças na demografia as destruíssem.
Com efeito,
tentamos mitigar o problema durante os últimos anos, mas as resistências
encontradas à idéia de reformar a previdência foram
imensas, e de natureza essencialmente política. O espírito
era "dane-se o problema, não vamos dar ao governo os elementos
para resolver o problema". Curioso será imaginar o que fará
a oposição caso ganhe as eleições e tenha
de propor mais ou menos o mesmo que combateu.
Vejamos
o tamanho do problema. O INSS tem cerca de 33 milhões de contribuintes
e cerca de 20 milhões de pensionistas. O total de benefícios
pagos em 2000 atingiu 77 bilhões de reais e o déficit foi
da ordem de 17 bilhões. Nos regimes previdenciários de funcionários
públicos, a despesa com benefícios para 2002 está
sendo estimada em 50 bilhões de reais, dos quais as contribuições
de participantes deverão cobrir cerca de 20%, deixando para o restante
da sociedade um prejuízo de 40 bilhões ou mais.
Segue-se
desses números que o nosso sistema previdenciário pode até
melhorar a vida dos idosos pobres em termos absolutos, mas, quando considerados
os funcionários públicos aposentados (e estamos falando
das três esferas de governo), o que temos é uma extraordinária
máquina de manutenção e mesmo ampliação
da desigualdade: a relação entre os rendimentos do trabalhador
no setor privado e os do funcionário do setor público muito
provavelmente piora após a aposentadoria.
É
ingênuo atribuir esse estado de coisas à informalidade ou
à sonegação. Vamos lembrar que tem gente que acredita
que para cada real pago em impostos há outro sonegado, de tal sorte
que a carga tributária no Brasil poderia ser 68% do PIB, e não
apenas 34%, imaginem só. A realidade é que a informalidade
é alta, com evidentes prejuízos para o INSS, porque os encargos
não previdenciários são muito altos, como o FGTS,
as contribuições para o sistema "S" (Senai, Sesi, Senac,
Sesc etc.) e o "Custo Justiça do Trabalho". Digamos que a "base
contributiva" da formação de poupança para fins de
previdência está sendo usada para outros fins, meritórios,
vá lá, mas outros fins.
De toda
maneira, nada disso explicaria o desequilíbrio que se observa na
previdência do setor público. Nesse terreno não há
informalidade nem sonegação, e tampouco explicações
satisfatórias para o absurdo em que vivemos. Numa conta aproximada,
se tomarmos o prejuízo nos dois sistemas e perguntarmos a um atuário
qual seria o custo de transferir essas obrigações para um
fundo de pensão, ou de quanto seria o aumento na dívida
pública necessário para honrar essas obrigações,
a resposta seria algo da ordem de um PIB inteiro (1 trilhão de
reais), quem sabe mais.
Com a palavra
os senhores candidatos.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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