Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
Entrevista: Donna Hrinak

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA on-line
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 
Acesso rápido
Páginas Amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

A dama do aço

Filha de um operário
de siderúrgica, a nova embaixadora americana diz que o protecionismo
deve ser combatido e a saída está
em negociar, sempre

Eduardo Salgado e Vilma Gryzinski

 
Antonio Milena
"No governo americano, tem gente que não gosta da nova lei agrícola, que não ajuda a promover o livre-comércio"

As relações entre o Brasil e os Estados Unidos podem não estar passando por uma fase brilhante, mas uma coisa melhorou: depois de um longo hiato de catorze meses, agora existe uma embaixadora americana em Brasília, Donna Hrinak. E uma embaixadora com vontade de trabalhar, de negociar, de aproximar posições divergentes – enfim, uma profissional da diplomacia. Donna Hrinak tem conhecimento direto e pessoal para tratar de pelo menos um dos contenciosos nas relações comerciais entre os dois países, o da proteção ao aço americano, que prejudicam as exportações brasileiras. Seu pai foi operário de siderúrgica em Pittsburgh, onde a indústria secou por causa da concorrência estrangeira. "Na minha família, as pessoas fazem críticas, sim, às salvaguardas do aço. Mas porque acham que são muito limitadas e que o governo deveria fazer mais para proteger a indústria", brinca ela. A família da embaixadora é de origem eslovaca, seu marido, mexicano, e o filho de 16 anos nasceu em São Paulo. Ela garante que existe uma lei do governo americano proibindo-a de declarar a idade, mas acaba admitindo 51 anos, bem conservados. Sua entrevista:

Veja – O Brasil, o Canadá, a Rússia e países da Europa Ocidental reclamam do protecionismo americano. Todo mundo está errado e só os Estados Unidos estão certos?
Hrinak – As coisas não são tão em preto-e-branco. As relações entre os Estados Unidos e o Brasil têm progredido. Estamos colaborando em assuntos globais também. As críticas às medidas comerciais americanas são um pouco injustas. Temos o país mais aberto do mundo. Compramos 1 trilhão de dólares por ano. Sei que essas reclamações são conseqüência das salvaguardas impostas ao aço e da nova lei agrícola. Esses temas podem ser negociados no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e nas reuniões da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Veja – Cerca de 60% das exportações brasileiras são prejudicadas por barreiras americanas.
Hrinak – Há várias estatísticas. Devemos parar de culpar um ao outro e começar a pensar como vamos negociar no futuro. Temos dois anos e meio para negociar a Alca. As tarifas médias dos Estados Unidos são muito mais baixas que as brasileiras. A participação americana no mercado mundial de soja tem diminuído 15% nos últimos dez anos. Já a brasileira aumentou exatamente na mesma proporção. Acredito muito nas negociações. O Brasil tem negociadores muito bons.

Veja – Qual é a mensagem do governo americano quando destina uma ajuda de 410 bilhões de dólares em dez anos a seus agricultores? Os fazendeiros brasileiros também deveriam exigir proteção do governo?
Hrinak – Nenhum país está controlando esse processo de globalização. Em todos os países, há grupos de pessoas que vão perder no curto prazo. Nos Estados Unidos, estamos respondendo às nossas necessidades domésticas. No governo americano, há muita gente que não gosta da nova lei agrícola. A opinião é que isso não ajuda a promover o livre-comércio no mundo. Mas não podemos parar de ajudar nossos produtores quando europeus e japoneses continuam subsidiando os deles. O Brasil e os Estados Unidos são parceiros na luta por mudanças nas regras do comércio internacional.

Veja – Em algum momento os lobbies podem deixar de ser uma atividade legítima e passar a conspirar contra os interesses maiores dos Estados Unidos?
Hrinak – Sim. Nós que apoiamos o livre-comércio temos de fazer uma aliança para combater o protecionismo que existe em todos os países. Os melhores aliados dos produtores de soja brasileiros são empresas americanas que vendem equipamentos e insumos aos agricultores daqui. Têm interesse no crescimento da produção agrícola brasileira. Temos de formar alianças.

Veja – Os empresários brasileiros precisam fazer um curso intensivo de lobby junto ao Congresso americano?
Hrinak – A Embaixada do Brasil em Washington está fazendo muito mais que antes. Mas ainda tem muito para avançar. Não existe preconceito contra o Brasil no Congresso nem no governo. O que acontece é que ninguém conhece o país. Quando falam nele, as pessoas pensam em Copa do Mundo, Carnaval. Não têm idéia do que seja o Brasil atual. Fiquei quinze anos fora daqui e senti uma diferença enorme. É palpável. É preciso projetar a imagem do Brasil nos Estados Unidos.

Veja – A impressão que se tem é que antes o país era totalmente desconhecido, o estereótipo de Brasil, capital Buenos Aires. Agora, alguns políticos americanos estão descobrindo o país e o detestando. O que é pior: ser ignorado ou odiado?
Hrinak – O conhecimento sempre ajuda. Os que não gostam do Brasil são os que não conhecem o país. Quando dou palestras, coloco o mapa do Brasil em cima do mapa dos Estados Unidos. Em seguida, digo que o território brasileiro é maior que o dos Estados Unidos sem contar o Alasca. A reação das pessoas é sempre de surpresa. Não sabem. Não fazem a menor idéia. Uma das grandes falhas dos americanos é não conhecer muito sobre os outros países. Acredito muito na Alca. Mas, para fazer essa integração, parte do meu trabalho está nos Estados Unidos. Preciso esclarecer, falar sobre a importância da região.

Veja – Como a senhora convenceria um brasileiro comum, com conhecimento vago sobre o assunto, de que a Alca vai ser benéfica para o país?
Hrinak – Diria que olhasse à sua volta e comparasse. Depois de quase uma década de privatizações e da abertura do mercado às importações, as companhias brasileiras estão produzindo mais e melhor. O consumidor pode comprar um telefone rapidamente e tem mais opções.

Veja – E quanto ao temor de que a economia brasileira seja engolida pela americana?
Hrinak – Na minha cidade, Pittsburgh, há velhas siderúrgicas já fechadas. Parte das empresas não sobreviveu à competição. Os Estados Unidos também participam desse processo de globalização. A grande maioria das pessoas vai ganhar. Mas algumas vão perder. Isso acontece também nos Estados Unidos. Não é uma conspiração americana.

Veja – Um eventual presidente Lula da Silva também poderia ser convencido?
Hrinak – Lula diz que negociaria a Alca sob algumas condições. Claro. Isso faz parte das negociações, não? Diz que irá proteger os interesses brasileiros. Óbvio. Se, para defender os interesses do Brasil, ele ficar contra a Alca, haverá uma contradição. Não acho que ele seja contra a Alca. Trinta e quatro países do continente vão defender seus interesses e negociar com algumas condições.

Veja – A economia brasileira tem conhecidas áreas de fragilidade, acentuadas agora por causa do ano eleitoral ou do fator Argentina. A senhora investiria seu dinheiro no Brasil no momento?
Hrinak – Não posso fazer isso. Sou proibida. Acho que os mercados têm demonstrado uma sofisticação surpreendente. Entenderam que o Brasil não é a Argentina. Tenho muita fé na maturidade política do Brasil. Os brasileiros elegeram Fernando Collor e menos de três anos depois o submeteram ao impeachment justamente porque as instituições democráticas estavam funcionando. Uma década depois, elas são ainda mais fortes.

Veja – O que faltou fazer nos últimos oito anos para dar mais estabilidade à economia brasileira?
Hrinak – O que as companhias americanas dizem é que o Brasil tem uma dívida interna grande e uma poupança interna insuficiente para financiar seus projetos.

Veja – Por que os Estados Unidos parecem indiferentes ao naufrágio da Argentina?
Hrinak – Muitos observadores dizem que ainda não existe vontade política na Argentina para tomar todas as medidas necessárias. Os argentinos é que devem resolver essa situação. O Brasil criou a Lei de Responsabilidade Fiscal para não incorrer no mesmo erro. Sem vontade política, nada nunca vai funcionar na Argentina. Podemos colocar um band-aid sobre o problema, mas ele vai persistir.

Veja – O que um assessor de ampla visão aconselharia o próximo presidente do Brasil a fazer como o primeiro gesto em relação aos Estados Unidos?
Hrinak – Seria talvez uma questão de postura. Acreditar que ser a favor do Brasil não significa ser contra os Estados Unidos. Procurar as áreas em que temos interesses comuns, que são em muito maior número que aquelas em que temos problemas. É importante ser nacionalista. Se os brasileiros não defenderem o Brasil, quem irá? Mas isso não quer dizer que o que é bom para os Estados Unidos é ruim para o Brasil. Nos Estados Unidos, também precisamos entender a importância da parceria com o Brasil.

Veja – O presidente Fernando Henrique Cardoso tem feito críticas à política externa americana, geralmente quando viaja para o exterior. Como elas são recebidas no Departamento de Estado?
Hrinak – O problema das críticas do presidente é que todos sabemos que se trata de um homem muito inteligente e sensato. Um pensador. Quando ele faz uma crítica, é preciso levar a sério. Não podemos dizer: não tem importância. Nós nos importamos com o que ele diz. Alguns ficam com raiva, outros magoados. Como um aliado pode dizer isso sobre a gente?

Veja – Qual comentário mais causou reação negativa?
Hrinak – Cheguei a Washington poucos dias depois do discurso do presidente na Assembléia Nacional da França (equiparando os ataques de 11 de setembro a formas de terrorismo de Estado). Lembro-me da reação dos meus colegas do Departamento de Estado, que se perguntavam: como? Fernando Henrique? Era um sentimento de consternação.

Veja – Por que o governo americano fez uma campanha tão intensa para tirar o diplomata José Maurício Bustani da direção da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq)?
Hrinak – Isso não tem nada a ver com a relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos. É um assunto da organização. Não foi uma coisa dirigida contra o Brasil.

Veja – Os Estados Unidos apoiaram o golpe fracassado contra o presidente Hugo Chávez na Venezuela?
Hrinak – Conheço bem a posição americana na Venezuela. Até o fim de fevereiro, ajudei a formular e a implementar a política americana naquele país. Essa política é não apoiar nenhum ato que afronte a Constituição. O meu lema era: não existe nem sinal verde nem sinal amarelo para nenhum golpe ou ação inconstitucional. Só sinal vermelho.

Veja – O jornal The New York Times errou quando disse o contrário?
Hrinak – Errou. Não apoiamos golpe algum. Tinha muita gente insatisfeita na Venezuela. Umas pessoas mereciam ser levadas a sério. Outras não. Sempre dizíamos: se o povo quer mudar o governo, há como fazer isso seguindo as regras da Constituição. Como fizemos com Richard Nixon nos Estados Unidos e o Brasil fez com Fernando Collor. Sempre seguindo a Constituição. Golpe não. Graças a Deus, os Estados Unidos não estão mais nesse jogo.

Veja – Muitos americanos ficaram chocados ao descobrir que os Estados Unidos não são amados em várias partes do mundo. Como a senhora explicaria a esse público que tem gente com motivos para não gostar dos Estados Unidos?
Hrinak – Deixamos a bola cair. Não havia a menor possibilidade de mudar a cabeça dos terroristas que atacaram Nova York e Washington. Mas, na noite de 11 de setembro, jovens da comunidade árabe do interior da Venezuela festejaram os atentados. Acho que podemos mudar a opinião deles. E sabemos fazer isso. Não sei por que decidimos há alguns anos que os programas de bolsa de estudos não eram importantes. Hoje não há nem um centavo para os programas de intercâmbio na área dos esportes. Deixamos para a CNN contar ao mundo a história dos Estados Unidos. Isso não é a função dela. Esse é o nosso trabalho.

Veja – Se a senhora tivesse uma reunião de meia hora com o presidente George W. Bush para explicar o que acontece na América Latina, quais seriam os três primeiros temas que abordaria?
Hrinak – Diria que venha, que venha, que venha. Pessoalmente. Para uma visita, um contato pessoal. E passaria o resto do tempo cuidando da agenda dele. Diria que não é preciso inventar uma política para a América Latina. Nós já temos uma agenda. Trinta e quatro países concordaram com ela. Agora, temos de implementá-la. Quem vai ser o parceiro especial, número 1, nisso? Tem de ser o Brasil.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS