
Acesso rápido |
|
|
|
A
dama do aço
Filha de um operário
de
siderúrgica, a nova embaixadora americana diz que o protecionismo
deve ser combatido e a saída está
em negociar, sempre
Eduardo Salgado e Vilma Gryzinski
Antonio Milena
 |
"No
governo americano, tem gente que não gosta da nova lei agrícola,
que não ajuda a promover o livre-comércio"
|
As
relações entre o Brasil e os Estados Unidos podem não
estar passando por uma fase brilhante, mas uma coisa melhorou: depois
de um longo hiato de catorze meses, agora existe uma embaixadora americana
em Brasília, Donna Hrinak. E uma embaixadora com vontade de trabalhar,
de negociar, de aproximar posições divergentes enfim,
uma profissional da diplomacia. Donna Hrinak tem conhecimento direto e
pessoal para tratar de pelo menos um dos contenciosos nas relações
comerciais entre os dois países, o da proteção ao
aço americano, que prejudicam as exportações brasileiras.
Seu pai foi operário de siderúrgica em Pittsburgh, onde
a indústria secou por causa da concorrência estrangeira.
"Na minha família, as pessoas fazem críticas, sim, às
salvaguardas do aço. Mas porque acham que são muito limitadas
e que o governo deveria fazer mais para proteger a indústria",
brinca ela. A família da embaixadora é de origem eslovaca,
seu marido, mexicano, e o filho de 16 anos nasceu em São Paulo.
Ela garante que existe uma lei do governo americano proibindo-a de declarar
a idade, mas acaba admitindo 51 anos, bem conservados. Sua entrevista:
Veja O Brasil, o Canadá, a Rússia e países
da Europa Ocidental reclamam do protecionismo americano. Todo mundo está
errado e só os Estados Unidos estão certos?
Hrinak
As coisas não são tão em preto-e-branco. As relações
entre os Estados Unidos e o Brasil têm progredido. Estamos colaborando
em assuntos globais também. As críticas às medidas
comerciais americanas são um pouco injustas. Temos o país
mais aberto do mundo. Compramos 1 trilhão de dólares por
ano. Sei que essas reclamações são conseqüência
das salvaguardas impostas ao aço e da nova lei agrícola.
Esses temas podem ser negociados no âmbito da Organização
Mundial do Comércio (OMC) e nas reuniões da Área
de Livre Comércio das Américas (Alca).
Veja Cerca de 60% das exportações brasileiras
são prejudicadas por barreiras americanas.
Hrinak
Há
várias estatísticas. Devemos parar de culpar um ao outro
e começar a pensar como vamos negociar no futuro. Temos dois anos
e meio para negociar a Alca. As tarifas médias dos Estados Unidos
são muito mais baixas que as brasileiras. A participação
americana no mercado mundial de soja tem diminuído 15% nos últimos
dez anos. Já a brasileira aumentou exatamente na mesma proporção.
Acredito muito nas negociações. O Brasil tem negociadores
muito bons.
Veja Qual é a mensagem do governo americano quando
destina uma ajuda de 410 bilhões de dólares em dez anos
a seus agricultores? Os fazendeiros brasileiros também deveriam
exigir proteção do governo?
Hrinak
Nenhum país está controlando esse processo de globalização.
Em todos os países, há grupos de pessoas que vão
perder no curto prazo. Nos Estados Unidos, estamos respondendo às
nossas necessidades domésticas. No governo americano, há
muita gente que não gosta da nova lei agrícola. A opinião
é que isso não ajuda a promover o livre-comércio
no mundo. Mas não podemos parar de ajudar nossos produtores quando
europeus e japoneses continuam subsidiando os deles. O Brasil e os Estados
Unidos são parceiros na luta por mudanças nas regras do
comércio internacional.
Veja Em algum momento os lobbies podem deixar de ser uma
atividade legítima e passar a conspirar contra os interesses maiores
dos Estados Unidos?
Hrinak
Sim. Nós que apoiamos o livre-comércio temos de fazer uma
aliança para combater o protecionismo que existe em todos os países.
Os melhores aliados dos produtores de soja brasileiros são empresas
americanas que vendem equipamentos e insumos aos agricultores daqui. Têm
interesse no crescimento da produção agrícola brasileira.
Temos de formar alianças.
Veja Os empresários brasileiros precisam fazer um
curso intensivo de lobby junto ao Congresso americano?
Hrinak
A Embaixada do Brasil em Washington está fazendo muito mais que
antes. Mas ainda tem muito para avançar. Não existe preconceito
contra o Brasil no Congresso nem no governo. O que acontece é que
ninguém conhece o país. Quando falam nele, as pessoas pensam
em Copa do Mundo, Carnaval. Não têm idéia do que seja
o Brasil atual. Fiquei quinze anos fora daqui e senti uma diferença
enorme. É palpável. É preciso projetar a imagem do
Brasil nos Estados Unidos.
Veja A impressão que se tem é que antes o país
era totalmente desconhecido, o estereótipo de Brasil, capital Buenos
Aires. Agora, alguns políticos americanos estão descobrindo
o país e o detestando. O que é pior: ser ignorado ou odiado?
Hrinak
O conhecimento sempre ajuda. Os que não gostam do Brasil são
os que não conhecem o país. Quando dou palestras, coloco
o mapa do Brasil em cima do mapa dos Estados Unidos. Em seguida, digo
que o território brasileiro é maior que o dos Estados Unidos
sem contar o Alasca. A reação das pessoas é sempre
de surpresa. Não sabem. Não fazem a menor idéia.
Uma das grandes falhas dos americanos é não conhecer muito
sobre os outros países. Acredito muito na Alca. Mas, para fazer
essa integração, parte do meu trabalho está nos Estados
Unidos. Preciso esclarecer, falar sobre a importância da região.
Veja Como a senhora convenceria um brasileiro comum, com
conhecimento vago sobre o assunto, de que a Alca vai ser benéfica
para o país?
Hrinak
Diria que olhasse à sua volta e comparasse. Depois de quase uma
década de privatizações e da abertura do mercado
às importações, as companhias brasileiras estão
produzindo mais e melhor. O consumidor pode comprar um telefone rapidamente
e tem mais opções.
Veja E quanto ao temor de que a economia brasileira seja
engolida pela americana?
Hrinak
Na minha cidade, Pittsburgh, há velhas siderúrgicas já
fechadas. Parte das empresas não sobreviveu à competição.
Os Estados Unidos também participam desse processo de globalização.
A grande maioria das pessoas vai ganhar. Mas algumas vão perder.
Isso acontece também nos Estados Unidos. Não é uma
conspiração americana.
Veja Um eventual presidente Lula da Silva também poderia
ser convencido?
Hrinak
Lula diz que negociaria a Alca sob algumas condições. Claro.
Isso faz parte das negociações, não? Diz que irá
proteger os interesses brasileiros. Óbvio. Se, para defender os
interesses do Brasil, ele ficar contra a Alca, haverá uma contradição.
Não acho que ele seja contra a Alca. Trinta e quatro países
do continente vão defender seus interesses e negociar com algumas
condições.
Veja A economia brasileira tem conhecidas áreas de
fragilidade, acentuadas agora por causa do ano eleitoral ou do fator Argentina.
A senhora investiria seu dinheiro no Brasil no momento?
Hrinak
Não posso fazer isso. Sou proibida. Acho que os mercados têm
demonstrado uma sofisticação surpreendente. Entenderam que
o Brasil não é a Argentina. Tenho muita fé na maturidade
política do Brasil. Os brasileiros elegeram Fernando Collor e menos
de três anos depois o submeteram ao impeachment justamente porque
as instituições democráticas estavam funcionando.
Uma década depois, elas são ainda mais fortes.
Veja O que faltou fazer nos últimos oito anos para
dar mais estabilidade à economia brasileira?
Hrinak
O que as companhias americanas dizem é que o Brasil tem uma dívida
interna grande e uma poupança interna insuficiente para financiar
seus projetos.
Veja Por que os Estados Unidos parecem indiferentes ao naufrágio
da Argentina?
Hrinak
Muitos observadores dizem que ainda não existe vontade política
na Argentina para tomar todas as medidas necessárias. Os argentinos
é que devem resolver essa situação. O Brasil criou
a Lei de Responsabilidade Fiscal para não incorrer no mesmo erro.
Sem vontade política, nada nunca vai funcionar na Argentina. Podemos
colocar um band-aid sobre o problema, mas ele vai persistir.
Veja O que um assessor de ampla visão aconselharia
o próximo presidente do Brasil a fazer como o primeiro gesto em
relação aos Estados Unidos?
Hrinak
Seria
talvez uma questão de postura. Acreditar que ser a favor do Brasil
não significa ser contra os Estados Unidos. Procurar as áreas
em que temos interesses comuns, que são em muito maior número
que aquelas em que temos problemas. É importante ser nacionalista.
Se os brasileiros não defenderem o Brasil, quem irá? Mas
isso não quer dizer que o que é bom para os Estados Unidos
é ruim para o Brasil. Nos Estados Unidos, também precisamos
entender a importância da parceria com o Brasil.
Veja O presidente Fernando Henrique Cardoso tem feito críticas
à política externa americana, geralmente quando viaja para
o exterior. Como elas são recebidas no Departamento de Estado?
Hrinak
O problema das críticas do presidente é que todos sabemos
que se trata de um homem muito inteligente e sensato. Um pensador. Quando
ele faz uma crítica, é preciso levar a sério. Não
podemos dizer: não tem importância. Nós nos importamos
com o que ele diz. Alguns ficam com raiva, outros magoados. Como um aliado
pode dizer isso sobre a gente?
Veja Qual comentário mais causou reação
negativa?
Hrinak
Cheguei a Washington poucos dias depois do discurso do presidente na Assembléia
Nacional da França (equiparando os ataques de 11 de setembro
a formas de terrorismo de Estado). Lembro-me da reação
dos meus colegas do Departamento de Estado, que se perguntavam: como?
Fernando Henrique? Era um sentimento de consternação.
Veja Por que o governo americano fez uma campanha tão
intensa para tirar o diplomata José Maurício Bustani da
direção da Organização para a Proibição
das Armas Químicas (Opaq)?
Hrinak
Isso não tem nada a ver com a relação bilateral entre
Brasil e Estados Unidos. É um assunto da organização.
Não foi uma coisa dirigida contra o Brasil.
Veja Os Estados Unidos apoiaram o golpe fracassado contra
o presidente Hugo Chávez na Venezuela?
Hrinak
Conheço bem a posição americana na Venezuela. Até
o fim de fevereiro, ajudei a formular e a implementar a política
americana naquele país. Essa política é não
apoiar nenhum ato que afronte a Constituição. O meu lema
era: não existe nem sinal verde nem sinal amarelo para nenhum golpe
ou ação inconstitucional. Só sinal vermelho.
Veja O jornal The New York Times errou quando disse
o contrário?
Hrinak
Errou. Não apoiamos golpe algum. Tinha muita gente insatisfeita
na Venezuela. Umas pessoas mereciam ser levadas a sério. Outras
não. Sempre dizíamos: se o povo quer mudar o governo, há
como fazer isso seguindo as regras da Constituição. Como
fizemos com Richard Nixon nos Estados Unidos e o Brasil fez com Fernando
Collor. Sempre seguindo a Constituição. Golpe não.
Graças a Deus, os Estados Unidos não estão mais nesse
jogo.
Veja Muitos americanos ficaram chocados ao descobrir que
os Estados Unidos não são amados em várias partes
do mundo. Como a senhora explicaria a esse público que tem gente
com motivos para não gostar dos Estados Unidos?
Hrinak
Deixamos a bola cair. Não havia a menor possibilidade de mudar
a cabeça dos terroristas que atacaram Nova York e Washington. Mas,
na noite de 11 de setembro, jovens da comunidade árabe do interior
da Venezuela festejaram os atentados. Acho que podemos mudar a opinião
deles. E sabemos fazer isso. Não sei por que decidimos há
alguns anos que os programas de bolsa de estudos não eram importantes.
Hoje não há nem um centavo para os programas de intercâmbio
na área dos esportes. Deixamos para a CNN contar ao mundo a história
dos Estados Unidos. Isso não é a função dela.
Esse é o nosso trabalho.
Veja Se a senhora tivesse uma reunião de meia hora
com o presidente George W. Bush para explicar o que acontece na América
Latina, quais seriam os três primeiros temas que abordaria?
Hrinak
Diria que venha, que venha, que venha. Pessoalmente. Para uma visita,
um contato pessoal. E passaria o resto do tempo cuidando da agenda dele.
Diria que não é preciso inventar uma política para
a América Latina. Nós já temos uma agenda. Trinta
e quatro países concordaram com ela. Agora, temos de implementá-la.
Quem vai ser o parceiro especial, número 1, nisso? Tem de ser o
Brasil.
|