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O
incômodo dos pobres
"Benedita
da Silva
quer fechar o acesso
às favelas cariocas. Há 500 anos, o
governo de
Veneza fez algo
parecido.
Criou o primeiro gueto da história"
Quem diria que, um dia, eu me inspiraria numa poesia de Lêdo Ivo.
Lá vou eu: "Como os pobres são grotescos! E como os seus
odores nos incomodam mesmo a distância! (...) Em qualquer lugar
do mundo eles incomodam, viajantes importunos que ocupam nossos lugares
mesmo quando estamos sentados e eles viajam em pé".
Para diminuir o incômodo causado pelos pobres, o governo do Rio
de Janeiro propôs fechar todas as vias de acesso às favelas,
deixando abertas apenas as artérias principais, controladas dia
e noite pelo Exército, com o poder de revistar os veículos
de passagem, à procura de armas e drogas. É a medida mais
importante do plano contra a criminalidade da governadora Benedita da
Silva: mulher, negra e ex-favelada.
Além de roubar, matar e traficar drogas, os pobres também
destroem a natureza. A fim de resolver o problema, a prefeitura do Rio
de Janeiro, sob o comando de Cesar Maia, pensou em cercar as seiscentas
e tantas favelas da cidade, impedindo-as de invadir as áreas verdes
com seus barracos e despejos de esgoto. Até setembro, 12 quilômetros
de grades e alambrados devem ser instalados em torno das favelas, os chamados
"ecolimites".
Muito antes de Benedita da Silva ou Cesar Maia, os governantes venezianos
tentaram algo parecido. Em 1516, cercaram uma zona desvalorizada da cidade
e confinaram todos os importunos judeus lá dentro, criando o primeiro
gueto da história. Que deu origem a outros célebres guetos,
como o de Varsóvia, por exemplo. Os judeus só podiam aventurar-se
para fora do gueto de Veneza durante o dia. À noite, as duas únicas
vias de acesso eram trancadas e guardas rigorosamente cristãos
percorriam de barco os canais limítrofes para impedir eventuais
fugas. Só em 1797, com a chegada de Napoleão, os judeus
venezianos foram libertados. Ou seja, quase 300 anos de gueto. Esperemos
que as barreiras e os ecolimites de nossas favelas durem menos.
Em Veneza ainda existem judeus. Mas é raro encontrar pobres, exceto
uns bósnios pedindo esmolas, uns ciganos batendo carteiras e uns
africanos vendendo falsas bolsas da Prada. Há uma contrapartida,
claro. Na época da implantação do gueto, Veneza podia
contar com artistas como Ticiano e Tintoretto. Atualmente, o máximo
de atividade artística e intelectual que a cidade oferece é
o Fórum Europeu de Saúde Masculina, com seus debates sobre
"Homens, sexo e disfunção erétil" (gentilmente apelidada
de DE). Mas é bom tomar cuidado com essas generalizações.
Outro dia eu disse que a cultura italiana contemporânea era comparável
à de Cuiabá. Vários moradores de Cuiabá protestaram.
E o embaixador da Itália no Brasil escreveu uma cartinha prometendo
mandar-me duas amostras inconfutáveis do atual gênio itálico:
umas fatias de presunto e uma gravata. Até agora, os presentes
não chegaram. Estou esperando. Como não uso gravata, já
a prometi a um amigo.
Quanto ao Brasil, nunca produzimos um Ticiano ou um Tintoretto, mas estamos
nos aperfeiçoando em matéria de guetos. Não sei se
eles vão resolver o incômodo provocado pelos pobres. Desconfio
que não. Que eu saiba, o único jeito seguro de se livrar
dos pobres é torná-los um pouco menos pobres.
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