Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
Diogo Mainardi

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA on-line
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

O incômodo dos pobres

"Benedita da Silva quer fechar o acesso
às favelas cariocas. Há 500 anos, o
governo
de Veneza fez algo parecido.
Criou o primeiro gueto da história"

Quem diria que, um dia, eu me inspiraria numa poesia de Lêdo Ivo. Lá vou eu: "Como os pobres são grotescos! E como os seus odores nos incomodam mesmo a distância! (...) Em qualquer lugar do mundo eles incomodam, viajantes importunos que ocupam nossos lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam em pé".

Para diminuir o incômodo causado pelos pobres, o governo do Rio de Janeiro propôs fechar todas as vias de acesso às favelas, deixando abertas apenas as artérias principais, controladas dia e noite pelo Exército, com o poder de revistar os veículos de passagem, à procura de armas e drogas. É a medida mais importante do plano contra a criminalidade da governadora Benedita da Silva: mulher, negra e ex-favelada.

Além de roubar, matar e traficar drogas, os pobres também destroem a natureza. A fim de resolver o problema, a prefeitura do Rio de Janeiro, sob o comando de Cesar Maia, pensou em cercar as seiscentas e tantas favelas da cidade, impedindo-as de invadir as áreas verdes com seus barracos e despejos de esgoto. Até setembro, 12 quilômetros de grades e alambrados devem ser instalados em torno das favelas, os chamados "ecolimites".

Muito antes de Benedita da Silva ou Cesar Maia, os governantes venezianos tentaram algo parecido. Em 1516, cercaram uma zona desvalorizada da cidade e confinaram todos os importunos judeus lá dentro, criando o primeiro gueto da história. Que deu origem a outros célebres guetos, como o de Varsóvia, por exemplo. Os judeus só podiam aventurar-se para fora do gueto de Veneza durante o dia. À noite, as duas únicas vias de acesso eram trancadas e guardas rigorosamente cristãos percorriam de barco os canais limítrofes para impedir eventuais fugas. Só em 1797, com a chegada de Napoleão, os judeus venezianos foram libertados. Ou seja, quase 300 anos de gueto. Esperemos que as barreiras e os ecolimites de nossas favelas durem menos.

Em Veneza ainda existem judeus. Mas é raro encontrar pobres, exceto uns bósnios pedindo esmolas, uns ciganos batendo carteiras e uns africanos vendendo falsas bolsas da Prada. Há uma contrapartida, claro. Na época da implantação do gueto, Veneza podia contar com artistas como Ticiano e Tintoretto. Atualmente, o máximo de atividade artística e intelectual que a cidade oferece é o Fórum Europeu de Saúde Masculina, com seus debates sobre "Homens, sexo e disfunção erétil" (gentilmente apelidada de DE). Mas é bom tomar cuidado com essas generalizações. Outro dia eu disse que a cultura italiana contemporânea era comparável à de Cuiabá. Vários moradores de Cuiabá protestaram. E o embaixador da Itália no Brasil escreveu uma cartinha prometendo mandar-me duas amostras inconfutáveis do atual gênio itálico: umas fatias de presunto e uma gravata. Até agora, os presentes não chegaram. Estou esperando. Como não uso gravata, já a prometi a um amigo.

Quanto ao Brasil, nunca produzimos um Ticiano ou um Tintoretto, mas estamos nos aperfeiçoando em matéria de guetos. Não sei se eles vão resolver o incômodo provocado pelos pobres. Desconfio que não. Que eu saiba, o único jeito seguro de se livrar dos pobres é torná-los um pouco menos pobres.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS