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Nasceram com Aids.
Agora são adolescentes

A primeira geração de crianças
nascidas com o vírus HIV enfrenta
os desafios da juventude

Amauri Segalla

 
Fotos Claudio Rossi
J., portador do HIV desde o nascimento: sexo seguro

"TRANSEI E NÃO FALEI QUE TINHA HIV"
"A minha primeira vez foi com uma colega de escola. A gente já se conhecia fazia muito tempo, mas não tinha pintado um clima. Foi numa festa que nós transamos. Eu estava assustado, com muito medo mesmo. Mas não deu para evitar. Fomos para um quarto vazio. Tudo foi muito rápido. Em poucos minutos, já tinha acabado. Transei de camisinha e não falei para a garota que tenho Aids. Se eu tivesse falado, acho que ela teria desistido."
J., 16 anos, paulista

Há três meses, J. teve sua primeira experiência sexual. Estudante do 2º ano do ensino médio, ele transou com uma colega de escola. Os dois já se conheciam havia muito tempo, mas nunca tinham namorado. Foi numa festa que tudo aconteceu. Depois de duas ou três cervejas, eles escaparam para um quarto vazio. J. estava assustado, nervoso. Até pensou em desistir. O desejo, no entanto, venceu o medo. Como mandam as regras de segurança nessas ocasiões, o garoto usou camisinha. Presente do avô, o preservativo estava guardado na carteira desde seu aniversário de 16 anos. Ansiosos e temendo ser descobertos pelos amigos, os adolescentes não demoraram mais que alguns minutos. Histórias como essa se repetem aos milhões todos os dias. Mas há aqui uma diferença brutal: J. tem Aids. E a garota não sabia disso -- e não sabe ainda. Ele foi infectado pela mãe durante a gravidez. Esta pegou o vírus do marido. Os dois morreram quando J. ainda usava fraldas. Criado pelos avós, ele faz parte da primeira geração soropositiva do país a nascer com o HIV e chegar à adolescência.

O primeiro caso de transmissão vertical (da mãe para o filho) foi registrado no país em 1985. Até hoje, 6.700 crianças nasceram com o HIV no Brasil. Estima-se que 2.000 delas tenham morrido antes de chegar à adolescência. As outras 4.700 sobreviveram graças aos novos medicamentos introduzidos nos últimos anos. A mãe pode transmitir a Aids para o bebê em três momentos: durante a gravidez, no parto ou na amamentação. Para evitar a contaminação, a gestante deve tomar o remédio AZT durante o pré-natal. Até pouco tempo atrás, as chances de sobrevivência para quem tinha a doença eram muito pequenas. Em quase duas décadas, 108.000 vidas foram ceifadas pelo HIV no Brasil de um total de 600 000 contaminados. No mundo todo, 22 milhões de pessoas morreram em decorrência da Aids. Por isso, os infectados eram tratados como pacientes terminais. Hoje, com a evolução dos tratamentos, essa realidade mudou. Nos anos 80, as crianças nascidas com o HIV viviam, em média, três anos. Na década de 90, a sobrevida era de dez anos. "Atualmente, não faz o menor sentido fazer previsão alguma de quanto tempo esses jovens vão viver", afirma Marinella Della Negra, supervisora da equipe de infectologistas do Instituto Emílio Ribas, de São Paulo.

 

Crianças com Aids numa instituição em São Paulo: futuro promissor

As crianças que nasceram com o vírus tornaram-se jovens que tentam levar uma vida mais ou menos normal. Mas eles têm enormes desafios pela frente. O mais difícil deles diz respeito à sexualidade. Para os adolescentes em geral, já é problemático iniciar a vida amorosa. No caso de jovens portadores do HIV, o assunto ganha contornos dramáticos. É o caso de M., um soropositivo de 17 anos que foi infectado pela mãe durante a gravidez. Praticante de musculação há dois anos, ele é um garoto alto e forte, do tipo que chama a atenção das meninas. Já teve várias namoradas, mas não contou que nasceu com Aids para nenhuma delas. Ele termina o relacionamento antes que o compromisso se torne muito sério. Na verdade, antes que haja sexo. Recentemente, quase chegou às vias de fato. Uma namorada ficou sozinha em casa e ele achou que transaria pela primeira vez. Começaram a se despir, mas, antes de tirar toda a roupa, M. argumentou que estava passando mal. "Mesmo usando camisinha, achei que era errado não contar para a menina que sou portador do vírus HIV." Foi embora e, envergonhado, nunca mais ligou para ela.

Não existem diferenças físicas entre um jovem que nasceu com o vírus HIV e outro que foi infectado na adolescência. O problema está na cabeça. Ao contrário das pessoas que contraem a doença ao usar drogas injetáveis ou ao fazer sexo sem preservativos, os soropositivos desde o nascimento não se martirizam com complexos de culpa. Afinal de contas, eles não têm nenhuma responsabilidade por carregar o vírus HIV. São vítimas de erros cometidos pelos pais. Já quem adquiriu a Aids na juventude sofre por saber que poderia ter evitado a doença. A idéia da morte também assombra mais aqueles que foram contaminados numa idade, digamos assim, avançada. Os que nasceram com Aids já atravessaram quase duas décadas com o vírus. Portanto, esses garotos têm plena noção de que não há limite para a sobrevivência. Para os infectados na idade adulta, a primeira reação ao saber do resultado positivo do exame é acreditar que a morte está próxima.

Se a idéia da morte não assusta, a maioria dos adolescentes portadores do HIV neonatal demonstra um sentimento ambíguo em relação aos pais biológicos. Muitos têm ódio. "Por mais que os médicos e assistentes sociais tentem me deixar conformada, eu não consigo aceitar a idéia de pagar pelo que outros fizeram", afirma L., uma bonita jovem de 16 anos. Afinal de contas, foram eles -- os pais -- os responsáveis pelo drama vitalício transmitido às crianças. Poucos adolescentes, no entanto, tiveram a oportunidade de conhecer os pais verdadeiros, pois quase todos morreram antes que pudesse haver algum contato afetivo. Esse distanciamento fez com que muitos jovens idealizassem a figura da mãe. "Minha mãe foi infectada pelo meu pai, que era drogado, numa época em que não havia nenhuma informação sobre a doença. Ela é tão vítima quanto eu", afirma P., uma loirinha de 16 anos que não conheceu os pais e hoje mora com a família que a adotou.

Os adolescentes com HIV são obrigados a tomar uma enorme quantidade de remédios. Muitos chegam a ingerir dezesseis comprimidos por dia. Eles tomam as pílulas no café da manhã, no almoço, no jantar e antes de dormir. Quando um estranho vê a cena, normalmente se assusta. Nessas ocasiões, o jeito é inventar uma dor de garganta ou dizer que são vitaminas. M. passou por uma experiência difícil quando foi surfar com colegas. Um deles descobriu os remédios no fundo da mala. "Falei que eram suplementos alimentares, mas ele não acreditou", conta. "Para não criar problema, eu me afastei da turma." Com sua aptidão para esportes, M. sonha em cursar educação física. Também faz planos de casar, ter filhos, viajar pelo mundo. Antigamente, isso seria impossível para uma pessoa soropositiva. Apesar de todos os problemas provocados por sua condição de portador do HIV, ele sabe que hoje não há limites para sonhos como esses.



   
 
   
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