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"Nós somos
ateus"
Censo
detecta o aumento do número
de indivíduos sem religião no país.
Entre eles, destacam-se os ateus,
que hoje assumem sua descrença
sem medo
João
Gabriel de Lima
Liane Neves
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| A
família Heuser: eles chegaram a entrar para a igreja luterana por
temer discriminação |
Entre os
resultados preliminares do censo populacional divulgado recentemente pelo
IBGE, um número chamou a atenção: aumentou no Brasil
o contingente de pessoas que se declaram sem religião. Até
os anos 70, elas eram menos de 1% da população. Nos anos
90, 5,1% se declaravam dessa forma. Atualmente, chegam a 7,3%. A cifra
global, inferior a 10%, pode não ser tão expressiva, mas
o ritmo de crescimento impressiona. Os que se declaram sem religião
dividem-se basicamente em três grupos. Os não-praticantes,
que acreditam em Deus mas perderam o contato com as diferentes igrejas.
Os agnósticos, que têm dúvidas sobre a existência
de um ser supremo. E os ateus, que negam qualquer forma de divindade.
Apenas no fim do ano o IBGE irá divulgar quantos brasileiros se
encaixam em cada uma dessas categorias, com base no censo. Uma delas,
no entanto, desperta especial interesse: a dos ateus. "Há algum
tempo, pessoas que não acreditavam em Deus tinham vergonha de declarar
isso em público, e até de admiti-lo diante de um recenseador",
diz a antropóloga Clara Mafra, coordenadora da área religiosa
do censo do IBGE. "Os números recentes sugerem que eles não
apenas cresceram como grupo, mas também não têm mais
medo de assumir suas convicções."
Ela tem
razão. Nos últimos tempos, surgiu uma nova figura no panorama
religioso do país: o ateu militante. Parece um paradoxo. É
próprio dos religiosos se reunir em igrejas para professar sua
fé entre iguais, e também divulgá-la. Os ateus, que
negam Deus e as religiões, em tese não teriam motivos para
se reunir nem para converter ninguém. De uns anos para cá,
no entanto, eles organizam encontros, participam de grupos de discussão
na internet e fundaram até uma ONG, a Sociedade da Terra Redonda.
Qual a razão de tudo isso? "Somos a última minoria", acha
o engenheiro paulista Daniel Sottomaior, de 30 anos, ateu convicto. "Depois
dos gays, negros e mulheres, chegou a hora de nos organizarmos." O primeiro
objetivo dos militantes é exatamente este: conclamar pessoas sem
fé religiosa a assumir o próprio ateísmo. Parece
simples, mas trata-se de uma decisão séria. Durante séculos,
professar uma religião sempre foi um elemento de identidade importante
entre o indivíduo e a sociedade. No passado, os dissidentes eram
punidos até com a morte, como ocorria nos tempos da Inquisição.
Em algumas nações islâmicas ainda persiste a intolerância
religiosa. Na maior parte dos países do Ocidente, no entanto, com
a separação entre Igreja e Estado, os indivíduos
desfrutam hoje em dia liberdade total nesse campo. É fácil
e socialmente aceito mudar de uma religião para outra, e muitas
pessoas fazem isso várias vezes ao longo da vida. "Existe liberdade
religiosa desde que você pertença a alguma religião",
pondera o programador de computadores Leo Vines, 24 anos, presidente da
Sociedade da Terra Redonda, uma rede que coloca os ateus do país
inteiro em contato via internet. "Negar Deus é muito mais radical,
e é algo paradoxalmente malvisto mesmo no mundo científico
em que vivemos."
Ele quer
dizer que as pessoas ainda têm medo de se declarar ateístas,
principalmente quando vivem longe dos grandes centros urbanos. O caso
da família Heuser, do Rio Grande do Sul, é emblemático.
Asa Heuser, hoje com 45 anos, mudou-se recém-casada para a cidade
de Tenente Portela, no interior gaúcho. Ela e o marido não
acreditavam em Deus Asa, de origem finlandesa, havia inclusive
sido criada numa família ateísta há várias
gerações. Ao chegarem à cidade, no entanto, resolveram
entrar para a igreja luterana. "Ficamos com medo de ser rejeitados pela
sociedade local se nos declarássemos ateus. Além disso,
meu marido, que é veterinário, poderia perder clientes",
conta Asa. Os três filhos do casal foram batizados na fé
luterana. Hoje, eles se orgulham de formar uma família 100% ateísta,
e assumida. Asa e o marido moram em Guaíba, cidade próxima
a Porto Alegre, e dois dos três filhos vivem na capital o
outro mora no exterior. "Saímos do armário justamente para
combater o preconceito segundo o qual quem não tem religião
não consegue educar uma família com referências morais
fortes", explica Asa. Que ninguém ache estranho o uso da expressão
"sair do armário". Os sem-fé a tomaram emprestada do movimento
gay.
Oscar Cabral
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| Leo
Vines, militante ateísta: caça aos falsos milagres nas
igrejas evangélicas |
A julgar pelos 830 colaboradores cadastrados na Sociedade da Terra Redonda,
cujo site tem uma média de 75.000 visitas
por mês, a maioria dos ateus brasileiros é jovem e vem da
área de Ciências Exatas. "Somos racionalistas, e uma de nossas
funções é denunciar falsos milagres das diversas
igrejas", diz o presidente Leo Vines, que atualmente tenta provar que
pastores evangélicos enganam seus fiéis prometendo a cura
de doentes de Aids. Isso representa uma mudança em relação
a gerações passadas, quando se atingia o ateísmo
pela via do marxismo. "Quem examina a questão da existência
de Deus à luz de um método científico chega inevitavelmente
à conclusão de que Ele não existe, já que
não há nenhuma evidência concreta disso", acha Leo
Vines. É uma discussão interminável. O escritor italiano
Umberto Eco, reconhecidamente agnóstico, escreve no livro Em
que Crêem os que Não Crêem? que, se a vida de Jesus
Cristo for apenas um conto imaginado pela humanidade, o simples fato de
o homem ter criado toda uma ideologia sobre o amor baseada numa figura
fictícia já seria um mistério insondável.
Outro fato que unifica os ateus brasileiros é que para a maioria
deles "sair do armário" não foi uma decisão dramática.
Em geral são jovens que nunca tiveram nem fé nem prática
religiosa. Assumir o ateísmo foi apenas uma conseqüência
disso. Ter uma fé e negá-la é um processo muito mais
complicado. Claro que existem também casos assim. "Fui criado numa
família metodista e passei por dúvidas na adolescência",
diz o engenheiro Celso Lago, 42 anos, de Campinas. "Foram as leituras
de autores como Nietzsche e Bertrand Russell que acabaram fortalecendo
minha convicção de que Deus não existe." Lago hoje
tem um site na internet com nomes de ateus famosos e uma bibliografia
básica sobre o tema.
A militância
ateísta suscita uma questão. Será que os ateus são
discriminados numa sociedade materialista como a atual? Só há
indícios de que isso ocorra efetivamente no campo da política.
Pesquisa do Instituto Gallup feita em 1999 nos Estados Unidos mostrou
que a porcentagem de pessoas que não votariam de jeito nenhum num
candidato ateu era bem maior que a das que rejeitariam representantes
de outras minorias listadas gays, negros e mulheres. Em 1985, na
eleição para a prefeitura de São Paulo, o então
candidato Fernando Henrique Cardoso se atrapalhou num debate ao tentar
responder se acreditava ou não em Deus. No dia seguinte, foram
espalhados pela cidade panfletos contendo uma cruz e a inscrição
"Cristão vota em Jânio". Fernando Henrique perdeu para o
ex-presidente Jânio Quadros numa eleição apertada,
e muitos correligionários atribuíram o fato à resposta
dúbia dada no debate.
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| Logotipo
da American Atheists: inspiração para os brasileiros
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Na vida privada
é duvidoso que haja discriminação. Nem os militantes
mais radicais do movimento dos sem-fé são capazes de dizer
o nome de pessoas que tenham perdido o emprego por não acreditar
em Deus. Ao contrário. O carioca Albaney Guedes Baylão,
de 33 anos, trabalha como gerente de informática no Colégio
Santo Inácio, pertencente à congregação jesuíta.
"Todos aqui sabem que sou ateu, e mesmo assim tenho um excelente ambiente
de trabalho e nunca me senti constrangido", atesta Albaney. Ele é
casado, tem uma filha pequena e abriu mão de colocá-la para
estudar de graça na escola onde trabalha porque não quer
que a menina tenha uma formação religiosa. Afora o mal-estar
que a confissão de não acreditar em Deus provoca em alguns
círculos sociais ou na família, o ateísta raramente
sofre represálias por sua escolha. Ser ateu também não
provoca constrangimentos na vida cotidiana. É diferente do homossexual
que esconde sua condição e deixa de freqüentar lugares
públicos com o namorado ou namorada.
Pouco se
sabe ainda a respeito do fenômeno do ateísmo no Brasil. Praticamente
não há trabalhos acadêmicos sobre o assunto, e não
se tem idéia exata nem de quantos são os ateus. Os militantes
ateístas estimam algo em torno de 3% da população,
pouco menos da metade dos sem-religião apontados pelo censo. Se
for assim, será o mesmo porcentual dos Estados Unidos terra
da ONG American Atheists, inspiração dos ateus brasileiros
e um pouco inferior à média da Europa, onde eles
são 4%. Na América do Norte e no Velho Continente, eles
se encontram em geral no topo da pirâmide social. No Brasil, não
dá para saber. O censo ainda não tabulou os sem-religião
por nível socioeconômico. Também não é
possível dizer que eles se concentram nos Estados mais urbanizados.
O Rio de Janeiro aparece em primeiro lugar no ranking dos sem-religião,
mas o segundo colocado é Rondônia. Também seria errôneo
deduzir que os religiosos se concentram no Nordeste, onde está
o Estado com o maior número de católicos, o Piauí.
Afinal, Pernambuco e Bahia, dita de todos os santos, chegam respectivamente
em terceiro e quarto lugares na corrida dos descrentes. O ateísmo
brasileiro é um fenômeno que merece ser estudado com atenção,
até pelo que tem de paradoxal num país que a um só
tempo é a maior nação católica do mundo e
se vangloria da diversidade de opções religiosas que oferece
a seus habitantes.
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