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Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
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Ecstasy para beber

O tráfico tem sempre uma
novidade para manter o vício.
A última é o GHB

Paula Beatriz Neiva

Um dos grandes prazeres de Maurício, um paulistano de 24 anos, é varar a noite na maratona das raves, megafestas que reúnem milhares de pessoas ao som de música tecno. Para ele, noitadas assim exigem uma receita especial: luzes estroboscópicas, ritmo bate-estaca e... algo mais. "Alguma coisa que me faça sentir como se a música entrasse em minha cabeça de uma maneira diferente, mais intensa", diz. Esse "algo mais" já foi o ecstasy, uma mistura de alucinógeno com anfetamina, conhecida como "droga do amor" ou, simplesmente, "E". Hoje, o combustível preferido de Maurício é o GHB, sigla para ácido gama-hidroxibutírico. Batizada de "ecstasy líquido", a nova droga conquista um número cada vez maior de jovens brasileiros – especialmente aquela turma capaz de passar horas e mais horas sacolejando nas pistas de dança. "As emoções vão e vêm como uma onda. Fico sem noção de tempo, espaço ou velocidade. Só sinto a música", descreve Maurício, que, por motivos óbvios, prefere se manter no anonimato.

Vendido sob a forma de pó ou já diluído em água, o GHB é incolor, não tem cheiro e o gosto é levemente amargo. Por ser consumido sob a forma líquida, começa a fazer efeito em, no máximo, meia hora – contra as duas horas exigidas pelo ecstasy. Se misturado com álcool, como geralmente acontece, o GHB fica bem mais potente. E perigoso. Seus malefícios vão das náuseas e vômitos ao risco de morte. "Trata-se de uma droga tão forte que o uso experimental pode levar a quadros sérios, como a overdose e o coma", diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo.

A chegada do GHB às danceterias das grandes cidades brasileiras é um emblema de como os traficantes funcionam. Chamá-lo de "ecstasy líquido" não passa de uma estratégia de marketing do submundo. Com a analogia, eles pretendem conquistar o mesmo público já adepto das pastilhas de "E". Apesar dos efeitos parecidos, o ecstasy e o GHB são quimicamente díspares: um é estimulante e o outro, depressor do sistema nervoso central. Em meados dos anos 90, com a moda clubber, o GHB entrou para o rol das chamadas club drugs – as drogas de boate, das quais fazem parte também o ecstasy e a ketamina, um analgésico para cavalos usado como alucinógeno nos clubes noturnos. A morte de uma estudante americana de 15 anos por overdose de GHB, em 1999, levou o governo dos Estados Unidos a proibir a fabricação da substância.

É vital ao mercado das drogas estar sempre abastecido de novidades – seja para satisfazer consumidores que buscam "baratos" diferentes e mais potentes, seja para compensar a falta de um determinado entorpecente. E as drogas sintéticas são as mais convenientes e lucrativas para os traficantes. "Essas substâncias podem ser produzidas por uma única pessoa, em um laboratório de fundo de quintal", afirma o delegado Getúlio Bezerra dos Santos, chefe da divisão de repressão a entorpecentes da Polícia Federal. "Diferentemente da cocaína e da maconha, dispensam o plantio, a colheita, o processamento e a distribuição da matéria-prima." Para os usuários, as drogas sintéticas são mais práticas e discretas de consumir. Não requerem o ritual de preparação de cigarros de maconha ou carreiras de cocaína.

Criado como anestésico para uso hospitalar nos anos 60, o GHB logo foi deixado de lado devido à dificuldade dos médicos em precisar a dose ideal para cada paciente. Vinte anos depois, a substância voltou a ser consumida como anabolizante, graças a seu poder de inflar músculos e queimar gordura. O primeiro caso no Brasil de problemas decorrentes do uso de GHB foi registrado em fevereiro passado por um neurologista de São Paulo, Celio Levyman. Um paciente seu, atleta de 22 anos, tomou a droga na academia, antes da sessão de musculação. Algumas horas depois, o rapaz foi levado ao hospital, onde entrou em coma profundo. Por sorte, o jovem resistiu. Os adeptos da nova droga podem não ter a mesma sorte.

 

COQUETEL EXPLOSIVO

Você já ouviu falar de sextasy? Pois essa é a nova mania nos Estados Unidos. Sextasy é o nome dado às festas aditivadas por uma combinação explosiva de duas pílulas: uma de Viagra e outra de ecstasy. Bumm!!! Ingerido sozinho, o ecstasy aumenta a libido, mas compromete o desempenho sexual masculino. Por ser uma substância vasoconstritora, o ecstasy impede o aporte de sangue para o pênis, o que dificulta a ereção. Ou seja, o consumidor se anima, mas, na hora H, nada. Para compensar o indesejável efeito colateral, inventaram de combinar o ecstasy com o Viagra, o remédio que combate a impotência. No que se refere aos vasos sanguíneos, a droga contra a disfunção erétil, lançada pelo laboratório Pfizer, em 1998, tem efeito oposto. Ela dilata as veias e artérias, aumentando o fluxo de sangue para a região peniana, o que facilita a ereção. A novidade nasceu entre os gays nova-iorquinos, em meados do ano passado, e se espalhou pelo país.

O ecstasy é uma droga ilegal e, dada a sua difusão na noite brasileira, tornou-se um dos alvos da Polícia Federal, que todos os anos apreende aproximadamente 20 000 pílulas do produto. Há cerca de um mês, os policiais encontraram numa casa em São Paulo 6 000 pílulas de ecstasy que seriam levadas a uma megafesta na cidade. O ecstasy é em si uma droga de alto risco. Sua ingestão pode provocar dependência, taquicardia, desidratação, elevação da temperatura corporal e depressão. Quando utilizado em associação com o Viagra os riscos aumentam. E o principal prejudicado é o coração. "Esse misto pode causar danos incalculáveis à saúde, como infarto e derrames", diz Maria Thereza de Aquino, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Há o risco ainda de outras complicações. Alguns médicos americanos já atenderam pacientes vítimas de priapismo, estado em que a ereção dura mais de seis horas e pode causar sérios danos ao tecido nervoso do pênis. O priapismo pode levar a uma impotência cuja única cura é o implante de prótese.

As autoridades médicas dos Estados Unidos estão preocupadas. Há uma centena de estudos provando que, sob o efeito de drogas, as pessoas tendem a dar pouca atenção ao sexo seguro. E aí está outro motivo de apreensão gerado pela entrada em cena da dupla Viagra-ecstasy. Com as tais sextasies, aumentam os riscos de propagação das doenças sexualmente transmissíveis, entre elas a Aids.

 

   
 
   
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