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Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
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A rota da perdição

Sucesso de guia turístico erótico
de Paris
reflete uma revolução
de costumes na França

Ruth de Aquino, de Paris

 

Butique Demonia, perto da Bastilha: acessórios, roupas e objetos eróticos

Quem ainda pensa que o Lido e o Moulin Rouge são as maiores expressões do turismo sexual à francesa deve atualizar rapidamente seus roteiros para não acabar no museu de cera. Há uma Paris muito mais devassa, cujos caminhos podem ser encontrados num guia que acaba de ser editado no Brasil, Paris Sexy (editora DeGustar), tradução do original da Musardine, a livraria erótica mais tradicional de Paris. O livreto dá sugestões de passeios soft e hard ("ard", como dizem os franceses), organizados por bairro e categoria. O guia fez sucesso na França porque é simples e didático. Esteticamente não tem graça alguma para voyeurs, porque não traz fotos. Mas há opções e nuanças para todos os gostos. Dos piercings eróticos às jóias íntimas, das boates em que o forte é a troca de casais aos locais em que predominam as roupas de couro dos fetichistas.

A curiosidade natural pelo submundo do sexo explica, em parte, a repercussão do guia. Mas não é só isso. Também reflete a revolução de costumes na França. "A sociedade francesa está mais preocupada com o culto do corpo, com a busca do prazer e com o exercício da sexualidade", diz o filósofo Michel Maffesoli, professor da Sorbonne e autor do livro Sobre o Nomadismo, Vagabundagens Pós-Modernas, que neste mês será lançado no Brasil. "A prova é o aumento do sexo grupal. Paris tem atualmente 53 clubes de suingue. Há cinco anos não passavam de sete ou oito". Estudo recente da socióloga Janine Mossuz-Lavau, que entrevistou homens e mulheres de diferentes perfis sociais, constatou que os franceses são hoje bem mais desinibidos sexualmente, em atos e palavras. A pesquisa detectou o que parece ser uma tendência crescente: a disposição das mulheres para dissociar o prazer sexual do amor. Uma série de revistas com tiragens expressivas, com nomes como Swing e Hot Video, está recheada de oportunidades para casais abertos a apimentar o casamento com aventuras pouco ortodoxas.

A Rue Saint-Denis é o point obrigatório de quem quer ver as prostitutas à moda antiga. Elas ainda estão lá, mas o erotismo hoje é fashion e exige certa distinção (e bolsos recheados de euros). O guia Paris Sexy aponta os bairros gays, as melhores escolhas de clubes, espetáculos, shoppings de fetiches e alerta os solitários contra armadilhas caras, com péssima relação custo-benefício. Curiosamente, como passeio erótico destaca o esplêndido cemitério das celebridades, o Père Lachaise. O túmulo do autor irlandês Oscar Wilde, gay e maldito em seu tempo, é coberto de marcas de batom deixadas por beijos. A estátua de pedra sobre a lápide perdeu a virilidade: os testículos foram quebrados por puritanos escandalizados e serviram como peso de papel ao zelador do cemitério. O templo dos acessórios, roupas e objetos eróticos é a butique Demonia, próxima à Praça da Bastilha. Ali perto, o Bar-Bar promove noites fetichistas e sadomasoquistas, que exigem figurinos totalmente negros. No programa, jantar e performances de "bondage" (como "amarrar" literalmente seus namorados). Logo atrás do Beaubourg (Centro Georges Pompidou), o Abraxas faz tatuagens e cria jóias íntimas personalizadas. Até a Mesquita de Paris, no Quartier Latin, entra no roteiro do prazer mais inocente, com seus banhos turcos – o programa, garante Paris Sexy, inclui massagens, chá de menta e doce sírio, com garantia de total higiene, clientela de alto nível e bom gosto. Claro que ainda há excursões de ônibus para assistir a um show ao vivo em Pigalle, o tradicional bairro boêmio. Mas é um programa considerado provinciano pelo guia.

 

   
 
   
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