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Querem invadir esta praia

A Califórnia pretende forçar artistas a
aceitar estranhos nas areias de Malibu

Eduardo Salgado

Malibu, município com 34 quilômetros de belas praias ao norte de Los Angeles, tem uma lista de moradores ilustres como poucos lugares no mundo. Residem ali os astros de Hollywood Tom Hanks, Danny DeVito, Brad Pitt, Cher e Dustin Hoffman, os cantores Barbra Streisand, Bob Dylan e Diana Ross e o cineasta Steven Spielberg. Lá, uma mansão com vista para o mar chega a custar 15 milhões de dólares. Além da vizinhança seleta, a areia está sempre limpa, o pôr-do-sol no Oceano Pacífico é um show e, o mais importante de tudo, as pedras, lagoas e dunas facilitam a criação de praias privadas. É justamente o perigo de perder a privacidade que está abalando o sono da colônia de celebridades. A Comissão do Litoral da Califórnia, o órgão responsável pelo meio ambiente da costa do Estado, está decidida a fazer valer a lei que força os moradores a permitir o acesso do povaréu às praias particulares.

Um dos acessos ao mar que a comissão quer abrir fica bem ao lado da casa de David Geffen, o bilionário que fundou o estúdio DreamWorks em sociedade com Steven Spielberg. A análise topográfica do terreno ficará pronta nesta semana, mas até os grãos da areia de Malibu sabem que Geffen fará de tudo para evitar o corredor junto a sua cerca. O porta-voz do empresário já avisou que ele não vai aceitar pacificamente a invasão de sua praia. Os proprietários em Malibu podem cercar seus lotes e bloquear o acesso à areia, mas, por lei, a comissão se reserva o prazo de 21 anos para decidir se constrói ou não corredores dentro do terreno. Na prática, tem sido bem complicado. A comissão já pediu a construção de catorze acessos nas últimas duas décadas. Apenas quatro foram abertos. O prazo de outros quatro, incluindo o do terreno de Geffen, está em via de expirar, e seis se encontram suspensos, à espera de decisões judiciais.

"A prefeitura de Malibu certamente não está contente com nosso trabalho", disse a VEJA Linda Locklin, diretora do programa de acesso à praia da comissão do litoral. O prefeito, Jeff Jennings, realmente está uma fera. Ele diz que os funcionários estaduais estão fazendo barulho somente porque os proprietários são celebridades e vão acabar bagunçando a praia. Jennings teme uma revoada dos ricos e famosos, o charme e a fonte de recursos de Malibu. A cidade tem uma população de apenas 12.500 pessoas e um total de 6.000 casas, das quais 10% são de veraneio. Os impostos sobre a venda de propriedades e o IPTU caríssimo respondem por 70% da arrecadação do município.

Tudo leva a crer que os ricos e famosos não sairão tão facilmente. O lugar é o xodó de celebridades há mais de sete décadas e um dos poucos locais em que estão a salvo dos fãs. May Rindge, uma viúva excêntrica, era a dona de toda a praia até que decidiu abrir um processo contra a construção da Pacific Coast Highway, a via expressa que percorre o litoral da Califórnia. Perdeu e, para pagar as custas judiciais, criou a Colônia Malibu, uma área de lazer para a elite de Hollywood, em 1929. Desde então, as celebridades deram vários exemplos do apego que sentem pelo lugar. A cantora e atriz Julie Andrews doou 338.000 dólares ao Estado da Califórnia, em 1991, num acordo para evitar a abertura de um acesso ao lado de sua mansão. O dinheiro era para a construção de uma escada junto de um despenhadeiro, que nunca saiu da prancheta porque um figurão do estúdio MGM Pictures, dono de uma casa nos arredores, foi contra.

Em Malibu, ninguém duvida de quanto a privacidade é importante para os ricos e famosos. As cercas que impedem a passagem dos banhistas chegam a avançar mar adentro. As placas de "Proibida a entrada" e "Propriedade privada" estão por todos os lados. Se não fosse pelas centenas de milhares de dólares necessárias para tocar um processo judicial, os defensores dos acessos à praia na Califórnia poderiam tranqüilamente recorrer à Justiça. Só os Estados no nordeste dos Estados Unidos não fazem nenhuma restrição às praias particulares. Nos demais, quando os casos chegam aos tribunais, os juízes costumam citar uma doutrina com origem no imperador Justiniano, de Bizâncio. O código do ano 530 assegura que as margens dos oceanos pertencem não apenas aos ricos e poderosos, mas a toda a humanidade.

 

   
 
   
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