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Sim, eu falo futebol

Com 242 milhões de praticantes em
204 países, o futebol, a língua franca
do marketing global, abre a temporada
de caça ao mercado asiático

Carlos Maranhão, de Seul

 
AFP

A cerimônia de abertura da Copa, em Seul, na sexta-feira passada: 1 bilhão de espectadores em todo o mundo


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Coluna de Carlos Maranhão no site Copa 2002

O futebol é o grande vendedor do mundo. Seu apelo comercial atinge mais pessoas em mais países que qualquer outro esporte. Se fosse uma multinacional, a Fifa, a entidade que governa o futebol, seria onipresente, deixando a Coca-Cola a comer poeira. Como entidade política, conta com mais países membros que a Organização das Nações Unidas. Por isso, em nome do futebol, hoje se vendem chuteiras, camisetas e refrigerantes em pontos tão remotos do planeta que nenhuma outra atividade globalizada consegue atingir. Na manhã de sexta-feira passada, horário brasileiro, noite na Ásia, início da tarde na Europa e na África, madrugada em boa parte da América do Norte, uma platéia global estimada em 1 bilhão de telespectadores em cerca de 200 países começou a acompanhar uma competição futebolística com dimensões nunca vistas nos 139 anos de história oficial do mais popular, universal e apaixonante de todos os esportes. A 17ª Copa do Mundo, aberta em Seul com a inesperada derrota da Franca por 1 a 0 diante do debutante Senegal, uma de suas ex-colônias africanas, é a primeira que se realiza simultaneamente em dois países.

Até a final, no dia 30, em Yokohama, no Japão, 32 seleções estarão jogando 64 partidas em vinte estádios, um mais moderno e de arquitetura mais arrojada que o outro. Há quatro anos, os franceses organizaram seu maravilhoso Mundial em dez cidades. O anterior, em 1994, nos Estados Unidos, foi disputado em nove campos normalmente utilizados em campeonatos de futebol americano. É a primeira vez também que a Copa arma seu cenário fora dos continentes europeu e americano. Ela foi para o Oriente, consolidando o desbravamento da mais extensa e populosa região do planeta, onde vive mais da metade da humanidade, e numa de suas próximas edições, talvez em 2010, irá para a África. Nunca houve uma Copa tão cara e grandiosa. Para construir seus belos estádios, estima-se que o Japão tenha gasto 4 bilhões de dólares, quase três vezes mais que os franceses. A Coréia arcou com outros 2 bilhões de dólares.

 
AP

Imagens de jogadores do Brasil na escada do metrô em Hong Kong

Este campeonato mundial sintetiza como nenhum dos anteriores o tamanho e a natureza do futebol. Reúne tanto o país mais populoso (China), os mais ricos (Estados Unidos e Japão) e o maior em extensão geográfica (Rússia) quanto um dos mais pobres (Senegal) e um dos menos povoados (Eslovênia). Na hora em que a bola rola, tudo isso, como se viu na partida de abertura, vira de cabeça para baixo. EUA e Japão, os dois milionários da economia, permanecem, dentro da grama, no estágio de aprendizes. Com sua renda per capita de 500 dólares, o Senegal desponta como uma nova esperança na alegre e imprevisível escola africana. Contra os prognósticos, ficou com uma vaga – e o privilégio de participar do jogo inaugural –, despachando Egito, Argélia e Marrocos, três bichos-papões do continente. Para coroar sua trajetória, que repete a façanha de Camarões contra a Argentina em 1990, derrotou sem discussão os atuais campeões mundiais. Ao examinar a população, os paradoxos continuam. No plano técnico, a quantidade não resulta em qualidade. Do mais de 1 bilhão de chineses só saiu um time que finalmente estréia na Copa porque ele não precisou enfrentar, nas eliminatórias asiáticas, coreanos e japoneses, que podem ser comparados a reis caolhos em uma vasta terra de cegos. Já a pequena e igualmente estreante Eslovênia, que tem menos habitantes que Fortaleza, classificou-se invicta depois de eliminar uma força financeira (a Suíça) e duas esportivas (a Iugoslávia, da qual se tornou independente há onze anos, e a Romênia).

 
AFP

Os franceses Petit e Lizarazu não conseguiram parar o senegalês Diop: a campeã perdeu a pose

Com a França, a Coréia e o Japão automaticamente classificados, 193 países travaram 777 encontros classificatórios para que fossem conhecidos os demais 29 finalistas. Entre eles, estão as sete equipes que conquistaram o título. Descontado o Uruguai, são justamente elas as favoritas a ficar novamente com a taça: França – agora um pouco menos –, Argentina, Brasil, Inglaterra, Itália e, vá lá, a Alemanha, mais ou menos nessa ordem. Nessas longas eliminatórias para 2002, o Brasil, único tetracampeão e único a estar presente em cada uma das Copas, chegou a correr o risco de ficar de fora. Fez uma campanha sofrível no torneio sul-americano, perdeu seis jogos e contou com quatro treinadores, mas ajeitou-se após uma série de vexames, recuperou parte de seu prestígio e voltou a ser tratado como sempre foi na largada de qualquer competição. Ou seja, como uma superpotência do futebol. "Mais uma vez, é o adversário que nós mais tememos", diz Julio Grondona, há 22 anos o cartola-mor da Argentina. "O Brasil está entre as três ou quatro seleções que brigam pela taça", afirma o ex-craque francês Michel Platini.

No plano futebolístico, portanto, apesar das zebras habituais, existe o funil de sempre. Fora dele, os protagonistas, os coadjuvantes e os figurantes, prósperos, remediados ou carentes, encaixam-se como peças de uma colossal engrenagem de negócios. A novidade é que seu foco se dirige cada vez mais para o Terceiro Mundo, porque este é mais populoso e tem um mercado potencial muito maior que os Estados Unidos ou a Alemanha para bolas, chuteiras, uniformes – e sobretudo artigos e serviços de custo relativamente baixo. No leque de dezesseis patrocinadores da Copa, estão empresas globalizadas que vendem produtos de alto consumo. São os casos da Coca-Cola, uma pioneira que ligou sua marca ao futebol a partir do Mundial de 1950, disputado no Brasil, e do McDonald's, cujas 29.000 lanchonetes em 120 países atendem 45 milhões de clientes por dia. A Gillette, presente em drogarias, supermercados e biroscas de 200 países, e a Budweiser, que vende cerveja em oitenta, encontraram da mesma forma no esporte das multidões um excelente canal para multiplicar seu faturamento nos quatro cantos do planeta bola. Cada uma delas pagou entre 35 milhões e 50 milhões de dólares para co-patrocinar a Copa do Mundo. A Adidas, sozinha, desembolsou 45 milhões e doou 100.000 bolas ao projeto Goal, um programa da Fifa que financia a construção de centros de treinamento em "países necessitados". Tais empresas jamais atingiriam tamanha massificação de consumo patrocinando torneios de golfe, festivais de teatro ou concertos de música clássica.

 
AFP

Os brasileiros fortalecem os músculos antes da estréia contra a seleção turca

É uma mudança de estratégia sem precedentes. Durante a primeira metade do século XX, o futebol era um esporte praticamente restrito à Europa e à América do Sul. O marketing esportivo não existia. Quando o brasileiro João Havelange iniciou, em 1974, seu reinado de 24 anos à frente da Fifa e o futebol começou a virar um negócio de bilhões de dólares, a entidade já tinha 139 países membros. Hoje são 204, quinze a mais que a ONU. No grupo dos que se filiaram desde então, há 39 africanos e asiáticos. Eles passaram a participar de competições internacionais, organizar campeonatos importantes, revelar estrelas – do nigeriano Kanu ao japonês Nakata – e a ter no campo esportivo um crescente peso político, impulsionando o jogo econômico que brota dos gramados. Segundo cálculos da Fifa, existem no mundo 242 milhões de pessoas que jogam futebol regularmente. É o equivalente a 4% da população da Terra. Só na Ásia são 105 milhões de jogadores, um número monstruoso que inclui desde crianças e diletantes de fim de semana até profissionais. Isso ajuda a explicar a escolha geográfica das sedes desta Copa. Ela foi, com seus craques, com sua magia e com seus patrocinadores, não somente para a Coréia e para o Japão, mas para um continente de 44 milhões de quilômetros quadrados e 3,6 bilhões de habitantes, ou mais de 50% da humanidade. A mesma lógica contribui para que a Oceania, com tão poucos futebolistas (1,2 milhão), não tenha nenhuma vaga garantida no Mundial, enquanto a África (22,5 milhões de jogadores) tem cinco, mais que a América do Sul, cujas seleções venceram oito das dezesseis Copas.

"A quantidade de jogadores realmente impressiona, mas as dimensões do futebol como esporte, paixão e mercado consumidor são ainda maiores", avalia Havelange. "Direta ou indiretamente, o futebol emprega de algum modo uns 450 milhões de pessoas no mundo inteiro. E a audiência acumulada da última Copa foi de 33 bilhões de telespectadores." Nenhum evento, incluindo os Jogos Olímpicos, desperta atenção semelhante. Por causa desse gigantismo estelar, os direitos de TV para a transmissão da Copa de 2002 foram negociados por 800 milhões de dólares.

A dinheirama é o verdadeiro sujeito oculto da escandalosa lavação de roupa suja em público protagonizada nas últimas semanas dentro da Fifa. No mês passado, o secretário-geral Michel Zen-Ruffinen apresentou ao comitê executivo da federação um documento de trinta páginas com várias denúncias contra o presidente Joseph Blatter, seu chefe e suíço como ele. Apoiado por onze dos 24 membros do comitê, liderados pelos principais dirigentes europeus, Zen-Ruffinen afirmou que Blatter, na esteira da falência em 2001 da ISL, empresa que detinha os direitos das transmissões da Copa do Mundo, havia cometido erros desastrosos na administração financeira e manipulara a Fifa em benefício de terceiros e de seus interesses pessoais. Os adversários queriam sua renúncia. Ele defendeu-se, brigou e, na quarta-feira, foi tranqüilamente reeleito para um novo mandato de quatro anos. Teve os votos de 139 países, contra 56 dados ao presidente da Confederação Africana, o camaronês Issa Hayatou, apoiado por seus acusadores. Em vez do confronto, a maioria absoluta dos dirigentes que controlam o futebol optou pela acomodação, pois os negócios da bola, como o show, não podem parar.

   
 
   
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