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Sim, eu falo futebol
Com
242 milhões de
praticantes em
204 países, o futebol, a língua franca
do marketing global, abre a temporada
de caça ao mercado asiático
Carlos
Maranhão, de Seul
AFP

A cerimônia
de abertura da Copa, em Seul, na sexta-feira passada: 1 bilhão de
espectadores em todo o mundo |

Veja também |
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O
futebol é o grande vendedor do mundo. Seu apelo comercial atinge
mais pessoas em mais países que qualquer outro esporte. Se fosse
uma multinacional, a Fifa, a entidade que governa o futebol, seria onipresente,
deixando a Coca-Cola a comer poeira. Como entidade política, conta
com mais países membros que a Organização das Nações
Unidas. Por isso, em nome do futebol, hoje se vendem chuteiras, camisetas
e refrigerantes em pontos tão remotos do planeta que nenhuma outra
atividade globalizada consegue atingir. Na manhã de sexta-feira
passada, horário brasileiro, noite na Ásia, início
da tarde na Europa e na África, madrugada em boa parte da América
do Norte, uma platéia global estimada em 1 bilhão de telespectadores
em cerca de 200 países começou a acompanhar uma competição
futebolística com dimensões nunca vistas nos 139 anos de
história oficial do mais popular, universal e apaixonante de todos
os esportes. A 17ª Copa do Mundo, aberta em Seul com a inesperada
derrota da Franca por 1 a 0 diante do debutante Senegal, uma de suas ex-colônias
africanas, é a primeira que se realiza simultaneamente em dois
países.
Até a final, no dia 30, em Yokohama, no Japão, 32 seleções
estarão jogando 64 partidas em vinte estádios, um mais moderno
e de arquitetura mais arrojada que o outro. Há quatro anos, os
franceses organizaram seu maravilhoso Mundial em dez cidades. O anterior,
em 1994, nos Estados Unidos, foi disputado em nove campos normalmente
utilizados em campeonatos de futebol americano. É a primeira vez
também que a Copa arma seu cenário fora dos continentes
europeu e americano. Ela foi para o Oriente, consolidando o desbravamento
da mais extensa e populosa região do planeta, onde vive mais da
metade da humanidade, e numa de suas próximas edições,
talvez em 2010, irá para a África. Nunca houve uma Copa
tão cara e grandiosa. Para construir seus belos estádios,
estima-se que o Japão tenha gasto 4 bilhões de dólares,
quase três vezes mais que os franceses. A Coréia arcou com
outros 2 bilhões de dólares.
AP

Imagens
de jogadores do Brasil na escada do metrô em Hong Kong |
Este
campeonato mundial sintetiza como nenhum dos anteriores o tamanho e a
natureza do futebol. Reúne tanto o país mais populoso (China),
os mais ricos (Estados Unidos e Japão) e o maior em extensão
geográfica (Rússia) quanto um dos mais pobres (Senegal)
e um dos menos povoados (Eslovênia). Na hora em que a bola rola,
tudo isso, como se viu na partida de abertura, vira de cabeça para
baixo. EUA e Japão, os dois milionários da economia, permanecem,
dentro da grama, no estágio de aprendizes. Com sua renda per capita
de 500 dólares, o Senegal desponta como uma nova esperança
na alegre e imprevisível escola africana. Contra os prognósticos,
ficou com uma vaga e o privilégio de participar do jogo
inaugural , despachando Egito, Argélia e Marrocos, três
bichos-papões do continente. Para coroar sua trajetória,
que repete a façanha de Camarões contra a Argentina em 1990,
derrotou sem discussão os atuais campeões mundiais. Ao examinar
a população, os paradoxos continuam. No plano técnico,
a quantidade não resulta em qualidade. Do mais de 1 bilhão
de chineses só saiu um time que finalmente estréia na Copa
porque ele não precisou enfrentar, nas eliminatórias asiáticas,
coreanos e japoneses, que podem ser comparados a reis caolhos em uma vasta
terra de cegos. Já a pequena e igualmente estreante Eslovênia,
que tem menos habitantes que Fortaleza, classificou-se invicta depois
de eliminar uma força financeira (a Suíça) e duas
esportivas (a Iugoslávia, da qual se tornou independente há
onze anos, e a Romênia).
AFP

Os
franceses Petit e Lizarazu não conseguiram parar o senegalês Diop:
a campeã perdeu a pose |
Com
a França, a Coréia e o Japão automaticamente classificados,
193 países travaram 777 encontros classificatórios para
que fossem conhecidos os demais 29 finalistas. Entre eles, estão
as sete equipes que conquistaram o título. Descontado o Uruguai,
são justamente elas as favoritas a ficar novamente com a taça:
França agora um pouco menos , Argentina, Brasil, Inglaterra,
Itália e, vá lá, a Alemanha, mais ou menos nessa
ordem. Nessas longas eliminatórias para 2002, o Brasil, único
tetracampeão e único a estar presente em cada uma das Copas,
chegou a correr o risco de ficar de fora. Fez uma campanha sofrível
no torneio sul-americano, perdeu seis jogos e contou com quatro treinadores,
mas ajeitou-se após uma série de vexames, recuperou parte
de seu prestígio e voltou a ser tratado como sempre foi na largada
de qualquer competição. Ou seja, como uma superpotência
do futebol. "Mais uma vez, é o adversário que nós
mais tememos", diz Julio Grondona, há 22 anos o cartola-mor da
Argentina. "O Brasil está entre as três ou quatro seleções
que brigam pela taça", afirma o ex-craque francês Michel
Platini.
No plano futebolístico, portanto, apesar das zebras habituais,
existe o funil de sempre. Fora dele, os protagonistas, os coadjuvantes
e os figurantes, prósperos, remediados ou carentes, encaixam-se
como peças de uma colossal engrenagem de negócios. A novidade
é que seu foco se dirige cada vez mais para o Terceiro Mundo, porque
este é mais populoso e tem um mercado potencial muito maior que
os Estados Unidos ou a Alemanha para bolas, chuteiras, uniformes
e sobretudo artigos e serviços de custo relativamente baixo. No
leque de dezesseis patrocinadores da Copa, estão empresas globalizadas
que vendem produtos de alto consumo. São os casos da Coca-Cola,
uma pioneira que ligou sua marca ao futebol a partir do Mundial de 1950,
disputado no Brasil, e do McDonald's, cujas 29.000 lanchonetes em 120
países atendem 45 milhões de clientes por dia. A Gillette,
presente em drogarias, supermercados e biroscas de 200 países,
e a Budweiser, que vende cerveja em oitenta, encontraram da mesma forma
no esporte das multidões um excelente canal para multiplicar seu
faturamento nos quatro cantos do planeta bola. Cada uma delas pagou entre
35 milhões e 50 milhões de dólares para co-patrocinar
a Copa do Mundo. A Adidas, sozinha, desembolsou 45 milhões e doou
100.000 bolas ao projeto Goal, um programa da Fifa que financia a construção
de centros de treinamento em "países necessitados". Tais empresas
jamais atingiriam tamanha massificação de consumo patrocinando
torneios de golfe, festivais de teatro ou concertos de música clássica.
AFP

Os
brasileiros fortalecem os músculos antes da estréia contra a seleção
turca |
É
uma mudança de estratégia sem precedentes. Durante a primeira
metade do século XX, o futebol era um esporte praticamente restrito
à Europa e à América do Sul. O marketing esportivo
não existia. Quando o brasileiro João Havelange iniciou,
em 1974, seu reinado de 24 anos à frente da Fifa e o futebol começou
a virar um negócio de bilhões de dólares, a entidade
já tinha 139 países membros. Hoje são 204, quinze
a mais que a ONU. No grupo dos que se filiaram desde então, há
39 africanos e asiáticos. Eles passaram a participar de competições
internacionais, organizar campeonatos importantes, revelar estrelas
do nigeriano Kanu ao japonês Nakata e a ter no campo esportivo
um crescente peso político, impulsionando o jogo econômico
que brota dos gramados. Segundo cálculos da Fifa, existem no mundo
242 milhões de pessoas que jogam futebol regularmente. É
o equivalente a 4% da população da Terra. Só na Ásia
são 105 milhões de jogadores, um número monstruoso
que inclui desde crianças e diletantes de fim de semana até
profissionais. Isso ajuda a explicar a escolha geográfica das sedes
desta Copa. Ela foi, com seus craques, com sua magia e com seus patrocinadores,
não somente para a Coréia e para o Japão, mas para
um continente de 44 milhões de quilômetros quadrados e 3,6
bilhões de habitantes, ou mais de 50% da humanidade. A mesma lógica
contribui para que a Oceania, com tão poucos futebolistas (1,2
milhão), não tenha nenhuma vaga garantida no Mundial, enquanto
a África (22,5 milhões de jogadores) tem cinco, mais que
a América do Sul, cujas seleções venceram oito das
dezesseis Copas.
"A
quantidade de jogadores realmente impressiona, mas as dimensões
do futebol como esporte, paixão e mercado consumidor são
ainda maiores", avalia Havelange. "Direta ou indiretamente, o futebol
emprega de algum modo uns 450 milhões de pessoas no mundo inteiro.
E a audiência acumulada da última Copa foi de 33 bilhões
de telespectadores." Nenhum evento, incluindo os Jogos Olímpicos,
desperta atenção semelhante. Por causa desse gigantismo
estelar, os direitos de TV para a transmissão da Copa de 2002 foram
negociados por 800 milhões de dólares.
A dinheirama é o verdadeiro sujeito oculto da escandalosa lavação
de roupa suja em público protagonizada nas últimas semanas
dentro da Fifa. No mês passado, o secretário-geral Michel
Zen-Ruffinen apresentou ao comitê executivo da federação
um documento de trinta páginas com várias denúncias
contra o presidente Joseph Blatter, seu chefe e suíço como
ele. Apoiado por onze dos 24 membros do comitê, liderados pelos
principais dirigentes europeus, Zen-Ruffinen afirmou que Blatter, na esteira
da falência em 2001 da ISL, empresa que detinha os direitos das
transmissões da Copa do Mundo, havia cometido erros desastrosos
na administração financeira e manipulara a Fifa em benefício
de terceiros e de seus interesses pessoais. Os adversários queriam
sua renúncia. Ele defendeu-se, brigou e, na quarta-feira, foi tranqüilamente
reeleito para um novo mandato de quatro anos. Teve os votos de 139 países,
contra 56 dados ao presidente da Confederação Africana,
o camaronês Issa Hayatou, apoiado por seus acusadores. Em vez do
confronto, a maioria absoluta dos dirigentes que controlam o futebol optou
pela acomodação, pois os negócios da bola, como o
show, não podem parar.
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