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Roberto
Pompeu de Toledo
Diário
de campanha
Da
sombra de Collor à de Xuxa,
passando pelo quadro capenga
da campanha e outros assuntos
Não
adianta. Collor é uma sombra que veio para ficar, na política
brasileira. Olha-se para Ciro Gomes, olha-se para Anthony Garotinho, e
pensa-se: que leva alguém ainda jovem, sem experiência consistente,
por mais que eles próprios proclamem o contrário, e sem
partido nem movimento forte a embalar-lhe o vôo, a querer ser presidente?
Que leva alguém a não esperar sua hora? A tentar um atalho,
a arriscar um golpe de sorte, a impacientar-se a ponto de alvejar a Presidência
quando poderia buscar o amadurecimento em outras instâncias da carreira?
É inescapável a suspeita este é o estigma
de Collor, a marcar-lhes a testa de uma dose de aventureirismo
e outra de narcisismo. Numa tribo, suas candidaturas seriam impensáveis.
A idade é a credencial maior do cacique. Quando não é
a idade é a sabedoria. E quando não é a sabedoria
é o feito heróico que o tornou sem contestação
o mais bravo.
Pode-se argumentar que Lula, ele também, foi candidato em idade
precoce, em 1989, e tem almejado a Presidência sem passar por outras
instâncias. É diferente. A candidatura de Lula veio, desde
a primeira vez, no bojo de um partido muito bem articulado, que reflete
um movimento com indiscutíveis raízes sociais, e do qual
Lula, além de fundador, é figura emblemática. Já
no caso de Ciro e Garotinho pode parecer que se consideram predestinados.
Cabe-lhes, e esta é a magna tarefa que terão pela frente,
desfazer essa impressão. De predestinados, desta vez, que Deus
nos livre, já que de outras não nos livrou.
O
PT tem algo em comum com Israel. Quando se faz uma crítica a Israel,
ou mesmo ao governo de Israel, arrisca-se a levar como resposta
a acusação de anti-semitismo. É cômodo ter
à mão o argumento do anti-semitismo. Se você me critica,
é porque não me aceita. Se não concorda comigo, é
porque me rejeita por inteiro. Rejeita-me como ser humano. Portanto você
é racista, verme, inimigo da humanidade e sua crítica
não vale.
Os petistas e seus simpatizantes aprimoraram-se em chamar de "preconceito"
e, ultimamente, de "terrorismo" os ataques ao partido ou a suas políticas.
Não é de esperar que um banqueiro seja a favor do PT. Entre
os petistas, porém, a toada é: os banqueiros têm "preconceito"
contra o PT. Não é de esperar, tampouco, que os governistas
venham a adotar outra postura senão a de insinuar que, em mãos
petistas, o governo desandaria. Petistas e simpatizantes reagem dizendo
que é "terrorismo". Se você é preconceituoso e terrorista,
é porque é racista, verme, inimigo da humanidade.
Quando
se avalia o quadro formado pelo conjunto dos candidatos à Presidência,
constata-se que está capenga. Pende para a esquerda. Um candidato,
Lula, é nitidamente de esquerda. Dois outros, Ciro e Garotinho,
afirmam-se de esquerda. E o quarto, José Serra, além de
ter origem na esquerda, ostenta biografia, práticas e opiniões
que o credenciam a reclamar o rótulo de social-democrata com mais
títulos que os demais integrantes do governo Fernando Henrique
Cardoso, o presidente incluído. Mais uma vez isso não
é novo a direita deixa de apresentar-se de cara inteira
e peito aberto. Ela vai insinuar-se nas frestas. Tudo indica, na atual
campanha, que pedaços dela buscarão carona, cada um, em
uma das diversas candidaturas, a de Lula inclusive.
É
de lamentar que a direita não tenha conseguido, ainda uma vez,
viabilizar um candidato puro-sangue. Isso daria mais lógica e clareza
ao processo, além de oferecer inequívoco representante a
um setor que realmente tem raízes na sociedade. Resta à
direita o consolo de que governo é governo, e poder é poder.
E poder o da pressão econômica, o de perpetuar-se
nas oligarquias provinciais, o de infiltrar-se em escaninhos decisivos
do Estado , isso ela tem conseguido manter, não importa quem
ocupe o governo.
Garotinho trata-se na terceira pessoa: "O Garotinho resolve... o Garotinho
sabe... o Garotinho faz", diz ele. Tão exuberante se mostra que
transborda de si mesmo e duplica-se em outro.
Já Lula suscita a questão de como chamá-lo. A maioria
dos entrevistadores trata-o de "você" e de "Lula", mesmo que a outros
políticos reserve o tratamento de "senhor". A figura de ex-operário,
que ainda por cima se celebrizou pelo apelido, repele o tratamento cerimonioso.
Como não é nem foi governador nem senador e, se foi deputado,
isso ocorreu há muito tempo, também não há
o recurso de chamá-lo pelo título, como se faz com Ciro,
Garotinho (ambos chamados de "governador") e Serra ("senador"). Se for
eleito, passará a "presidente". Senão, continuará
"Lula" e "você".
Rita
Camata que se cuide, agora que foi encaminhada ao mundo maravilhoso dos
marqueteiros. Ela é loira. É bonita. Gosta de crianças.
Corre o risco de ser transformada na Xuxa da política.
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