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Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Diário de campanha

Da sombra de Collor à de Xuxa,
passando pelo quadro capenga
da campanha e outros assuntos

Não adianta. Collor é uma sombra que veio para ficar, na política brasileira. Olha-se para Ciro Gomes, olha-se para Anthony Garotinho, e pensa-se: que leva alguém ainda jovem, sem experiência consistente, por mais que eles próprios proclamem o contrário, e sem partido nem movimento forte a embalar-lhe o vôo, a querer ser presidente? Que leva alguém a não esperar sua hora? A tentar um atalho, a arriscar um golpe de sorte, a impacientar-se a ponto de alvejar a Presidência quando poderia buscar o amadurecimento em outras instâncias da carreira? É inescapável a suspeita – este é o estigma de Collor, a marcar-lhes a testa – de uma dose de aventureirismo e outra de narcisismo. Numa tribo, suas candidaturas seriam impensáveis. A idade é a credencial maior do cacique. Quando não é a idade é a sabedoria. E quando não é a sabedoria é o feito heróico que o tornou sem contestação o mais bravo.

Pode-se argumentar que Lula, ele também, foi candidato em idade precoce, em 1989, e tem almejado a Presidência sem passar por outras instâncias. É diferente. A candidatura de Lula veio, desde a primeira vez, no bojo de um partido muito bem articulado, que reflete um movimento com indiscutíveis raízes sociais, e do qual Lula, além de fundador, é figura emblemática. Já no caso de Ciro e Garotinho pode parecer que se consideram predestinados. Cabe-lhes, e esta é a magna tarefa que terão pela frente, desfazer essa impressão. De predestinados, desta vez, que Deus nos livre, já que de outras não nos livrou.

 

O PT tem algo em comum com Israel. Quando se faz uma crítica a Israel, ou mesmo ao governo de Israel, arrisca-se a levar como resposta a acusação de anti-semitismo. É cômodo ter à mão o argumento do anti-semitismo. Se você me critica, é porque não me aceita. Se não concorda comigo, é porque me rejeita por inteiro. Rejeita-me como ser humano. Portanto você é racista, verme, inimigo da humanidade – e sua crítica não vale.

Os petistas e seus simpatizantes aprimoraram-se em chamar de "preconceito" e, ultimamente, de "terrorismo" os ataques ao partido ou a suas políticas. Não é de esperar que um banqueiro seja a favor do PT. Entre os petistas, porém, a toada é: os banqueiros têm "preconceito" contra o PT. Não é de esperar, tampouco, que os governistas venham a adotar outra postura senão a de insinuar que, em mãos petistas, o governo desandaria. Petistas e simpatizantes reagem dizendo que é "terrorismo". Se você é preconceituoso e terrorista, é porque é racista, verme, inimigo da humanidade.

Quando se avalia o quadro formado pelo conjunto dos candidatos à Presidência, constata-se que está capenga. Pende para a esquerda. Um candidato, Lula, é nitidamente de esquerda. Dois outros, Ciro e Garotinho, afirmam-se de esquerda. E o quarto, José Serra, além de ter origem na esquerda, ostenta biografia, práticas e opiniões que o credenciam a reclamar o rótulo de social-democrata com mais títulos que os demais integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso, o presidente incluído. Mais uma vez – isso não é novo – a direita deixa de apresentar-se de cara inteira e peito aberto. Ela vai insinuar-se nas frestas. Tudo indica, na atual campanha, que pedaços dela buscarão carona, cada um, em uma das diversas candidaturas, a de Lula inclusive.

É de lamentar que a direita não tenha conseguido, ainda uma vez, viabilizar um candidato puro-sangue. Isso daria mais lógica e clareza ao processo, além de oferecer inequívoco representante a um setor que realmente tem raízes na sociedade. Resta à direita o consolo de que governo é governo, e poder é poder. E poder – o da pressão econômica, o de perpetuar-se nas oligarquias provinciais, o de infiltrar-se em escaninhos decisivos do Estado –, isso ela tem conseguido manter, não importa quem ocupe o governo.

 

Garotinho trata-se na terceira pessoa: "O Garotinho resolve... o Garotinho sabe... o Garotinho faz", diz ele. Tão exuberante se mostra que transborda de si mesmo e duplica-se em outro.

Já Lula suscita a questão de como chamá-lo. A maioria dos entrevistadores trata-o de "você" e de "Lula", mesmo que a outros políticos reserve o tratamento de "senhor". A figura de ex-operário, que ainda por cima se celebrizou pelo apelido, repele o tratamento cerimonioso. Como não é nem foi governador nem senador e, se foi deputado, isso ocorreu há muito tempo, também não há o recurso de chamá-lo pelo título, como se faz com Ciro, Garotinho (ambos chamados de "governador") e Serra ("senador"). Se for eleito, passará a "presidente". Senão, continuará "Lula" – e "você".

Rita Camata que se cuide, agora que foi encaminhada ao mundo maravilhoso dos marqueteiros. Ela é loira. É bonita. Gosta de crianças. Corre o risco de ser transformada na Xuxa da política.

   
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