
estaçãoveja
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
DVD
Reprodução
 |
| Ladrões:
início do neo-realismo |
Ladrões de Bicicletas (Ladri di Biciclette, Itália,
1948. Continental) O rosto sofrido de Lamberto Maggiorani, operário
atormentado pelo roubo da bicicleta de que depende para trabalhar e alimentar
a família, foi o suficiente para lançar um movimento: o
neo-realismo italiano. Apoiado, grosso modo, sobre o tripé elenco
amador, locações reais e temas sociais, o neo-realismo se
propunha a apresentar uma outra visão, mais crua e menos edulcorada,
das aflições por que a Itália passava após
a derrota na II Guerra. A influência do movimento se faz sentir
até hoje. Em Ladrões de Bicicletas, ele tem não
só seu marco zero, mas também um de seus momentos mais poéticos.
A direção inspirada de Vittorio de Sica garante a perenidade
do filme e a choradeira na platéia. Pena que a legendagem do DVD
não seja das melhores.
Jazz,
de Ken Burns (GNT/ SomLivre) Aclamado como o documentário
mais completo sobre esse gênero, Jazz acaba de ganhar uma
versão nacional. A edição, organizada pela GNT (que
transmitiu a série no ano passado), traz os doze episódios
originais do programa em quatro discos e, como bônus, oferece uma
entrevista do jornalista Silio Bocanera com o documentarista Ken Burns.
Ficaram de fora, no entanto, os bastidores da produção,
que acompanhavam a edição americana. Jazz conta a
história do gênero até os anos 70, a partir da biografia
de dois artistas (que, na opinião de Burns, foram os mestres do
gênero): o cantor e trompetista Louis Armstrong e o maestro Duke
Ellington. A caixa terá um preço médio de 165 reais.
LIVROS
Uma
Viagem Sentimental através da França e da Itália,
de Laurence Sterne (tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro;
Nova Fronteira; 158 páginas; 22 reais) O título deste
livro é enganoso: o protagonista jamais chega a pisar na Itália.
Além disso, a história tem início no meio de uma
conversa (cujo tema não é revelado ao leitor) e se encerra
de forma ainda mais abrupta, no meio de uma palavra. Era dessa maneira
lúdica e maliciosa que o irlandês Laurence Sterne (1713-1768)
fazia literatura, tornando-se inspiração para inúmeros
vanguardistas de épocas posteriores (entre os quais o brasileiro
Machado de Assis). Principal realização do autor depois
de Tristam Shandy, sua obra-prima, Uma Viagem Sentimental já
tivera tradução no Brasil. Esta nova edição,
contudo, é muito bem-cuidada, contendo introdução
e notas da crítica Marta de Senna que ajudam na leitura.
Leia
o primeiro capítulo do livro.
Paulo Vasconcelos
 |
 |
| Lygia:
coletânea de não-ficção |
Durante
Aquele Estranho Chá Perdidos e Achados, de Lygia
Fagundes Telles (Rocco; 203 páginas; 25 reais) Esta é
a primeira coletânea de textos não-ficcionais da autora.
São ensaios, palestras, depoimentos, fragmentos de memória
preciosos pelo que dizem a respeito de Lygia Fagundes Telles, um
dos maiores nomes da literatura brasileira, e também por registrar
histórias de outros grandes escritores, como Mario de Andrade,
Clarice Lispector ou Carlos Drummond de Andrade. Seu Discurso de Posse
na Academia Brasileira de Letras, uma peça de oratória
divertida e bem pouco convencional, faz parte da antologia, bem como o
relato marcante de uma viagem ao Irã. Sejam de que gênero
forem, os textos têm a limpidez e a graça (às vezes
um tanto melancólica) que marcam o estilo da autora. Leia
trechos do livro.
DISCOS
Chico
Buarque: Primeiras Composições, Paulinho Nogueira
(Trama) O principal mérito do CD é mostrar uma faceta
inédita de Chico Buarque. Costuma-se louvar o compositor carioca
pela alta qualidade de suas letras e pelas parcerias com Tom Jobim e outros
astros da MPB. Nogueira traz à tona as belas melodias da fase inicial
da carreira de Buarque. Um dos grandes instrumentistas da música
brasileira, ele se faz acompanhar apenas do violão e, ocasionalmente,
de uma flauta ou instrumento percussivo. A simplicidade dos arranjos põe
em destaque as harmonias intricadas de Carolina e Com
Açúcar, com Afeto, além de revelar
a doçura de canções como João e Maria
e Olhos nos Olhos.
Down
the Road, Van Morrison (Universal) O cantor irlandês
tem muito mais a ver com as águas barrentas do Rio Mississippi
do que com as tradições de sua terra natal. O pai de Morrison
colecionava discos de rhythm'n'blues e jazz, gêneros musicais que
ele emulou no grupo Them e principalmente na carreira-solo. Down the
Road, seu novo álbum, tem atmosfera bluesística. A forte
influência de nomes como Muddy Waters e Mahalia Jackson se faz sentir
em faixas como Hey Mr. DJ e Choppin' Wood. Em Whatever
Happened to P.J. Proby?, Morrison homenageia esse cantor americano
dos anos 60, enquanto zomba do pop atual. Excelente intérprete
de baladas, ele pôs no álbum dois grandes temas para namorar.
São eles Steal My Heart Away e a regravação
de Georgia
on My Mind, imortalizada por Ray Charles.
|
LITERATURA
BRASILEIRA
|
|
|
Deixe
o Quarto
Como Está
Amilcar Bettega Barbosa;
Companhia das Letras;
124 páginas;
23 reais
|
É
consenso entre os críticos que, no século
XX, a tradição da literatura fantástica sofreu
uma mudança importante. Figura emblemática nesse movimento
seria o checo Franz Kafka, cujos textos promoveram uma "naturalização
do irreal", uma fusão antes desconhecida do absurdo e do
corriqueiro. Como disse o crítico alemão Günter
Anders, em Kafka "o inquietante não são os objetos
nem as ocorrências, mas o fato de que as criaturas reagem
a eles descontraidamente, como se estivessem diante de coisas normais".
No Brasil, essa maneira de lidar com o fantástico teve seu
primeiro representante na década de 40, com Murilo Rubião.
Agora, o gaúcho Amilcar Bettega Barbosa mostra que também
dominou a gramática do gênero, com os catorze ótimos
contos de Deixe o Quarto Como Está.
Rubião
dizia que só conheceu Kafka tardiamente, e que ele não
era uma influência. É evidente que o mesmo não
vale para Barbosa. Um conto como Exílio, em que um
homem tenta, em vão, deixar uma cidade a bordo de um trem,
está diretamente ligado a textos kafkianos como Uma Mensagem
Imperial. Mas não é isso o que mais interessa.
Realmente importante, por exemplo, é notar como Barbosa maneja
o linguajar coloquial, provocando no leitor um sentimento de familiaridade
que depois vai se desfazer. Insistência começa
assim: "Os caras insistiam naquilo mas eu logo vi que não
ia dar certo, tomamos um pau danado...". Poderia ser a narrativa
de uma briga de rua. Mas a história se passa numa terra de
ninguém, numa dimensão indefinida o que impede
uma leitura puramente realista do conto. Barbosa tem outros bons
truques para desconcertar o leitor. No livro, há histórias
sobre homens que vivem com animais grudados às costas, ou
sobre uma casa que gesta os próprios aposentos. Todas comportam
várias interpretações: políticas, existenciais,
psicológicas. Coisa rara, trata-se de um livro sem pontos
baixos.
Carlos
Graieb
|
|
|
 |
|
 |

|
 |