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Gustavo
Franco
A Alca
já podia
estar começando
"Perdemos
uma boa oportunidade
de
dobrar a aposta em cima de nossos
interlocutores exatamente
quando eles
não esperavam e nosso cacife era alto.
Uma
pena"
Ilustração Ale Setti
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Passada a reunião de Quebec, que tratou da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca), ficou a sensação
de uma enorme distância entre a coisa em si e o imaginário
construído em torno dela. Ao leitor distraído, e incomodado
com o barulho, pode parecer que a Alca é a mãe de todas
as batalhas contra o imperialismo ianque, mas, felizmente, não
é nada disso. Pode até parecer, tendo em vista o inevitável
interesse da mídia no espetáculo das manifestações,
regadas a gás lacrimogêneo, e nas "performances" de grupos
ecológicos, esotéricos, punks e bagunceiros mesmo. Mas não
é.
Parecem
existir dois fenômenos diferentes a merecer estudo: um é
a evolução do futebol inglês, outro, o vandalismo
dos torcedores. O fato de haver pancadaria nas arquibancadas e imediações
dos estádios em nove entre dez partidas importantes de times ingleses
contra os de outras nacionalidades não diminui os méritos
esportivos do Manchester United. Ou seja, se "alternativos" de todas as
tribos possíveis se colocam a protestar contra a Alca e a OMC,
sobre as quais os reclamantes nada sabem, o que temos é um desafio
antropológico, ou uma espécie de Woodstock político,
e não a evidência de que há algo de podre no processo
de integração hemisférica ou global.
Mas, voltando
à Alca, uma primeira observação sobre a forma é
que estamos tratando de uma negociação que vai começar
em 2005 e irá tomar vários anos para se transformar em um
acordo, cuja implementação completa será lenta e
gradual. Nada a estranhar em vista da amplitude dos temas, do fato de
as mudanças dependerem de leis nacionais, da necessidade de consenso
entre dezenas de países e da regra segundo a qual tudo entra em
vigor apenas quando tudo estiver resolvido. Seguramente, num processo
assim tão longo, a última coisa a esperar é algo
drástico ou inesperado.
No mérito,
existem enormes ganhos em caminhar para um mundo onde existem mais regras
de natureza internacional, ou seja, mais "governança global", para
usar o termo da moda. Nada poderia atender melhor à ansiedade derivada
da redução dos poderes regulatórios dos Estados nacionais
mercê da globalização. A esses ganhos que pouco têm
de "conceituais" devem ser acrescentados outros advindos especialmente
do maior acesso que poderemos ter ao mercado americano.
É
claro que vamos ter de oferecer contrapartidas. Nesse domínio,
tem sido escassamente notado que a oportunidade oferecida pela Alca ocorre
num momento em que não vão doer nada as "concessões"
que teremos de fazer sob a forma de mais abertura em nosso mercado. Um
exemplo simples é o fornecido pelas tarifas de importação:
no Brasil a média está em torno de 14%, enquanto nos EUA
deve ser algo como 4%. Ora, o Brasil recém-implementou uma desvalorização
cambial real que, dependendo da maneira de calcular, foi superior a 50%.
Ou seja, com o câmbio no nível em que está, uma redução
geral de nossas tarifas para o nível americano apenas comeria um
pouquinho da gordura, reconhecidamente excessiva, provocada pela máxi.
Seria exótico se aparecesse alguma empresa dizendo que esses 10%
são fundamentais para sua capacidade de competir com o produto
estrangeiro, estando o câmbio a 2,25 reais por dólar.
Não
vamos iludir-nos, é claro, com as tarifas americanas "médias":
existem diversos expedientes pelos quais alguns de nossos mais importantes
produtos de exportação são atingidos na veia. É
disso que precisamos cuidar e, novamente, quanto mais rápido melhor.
O tema aqui é o da limitação ao uso de medidas "antidumping",
bem como de "padrões" sanitários, trabalhistas e ambientais,
para fins protecionistas. Se a negociação fosse hoje, poderíamos
atacar esses assuntos de forma agressiva, tendo em vista a facilidade
em reduzir nossas tarifas como "quid pro quo". Dificilmente, no futuro,
teremos condições tão boas. Mas o fato é que
nossa diplomacia acha que obteve uma vitória em jogar o assunto
para 2005. Perdemos uma boa negociação, uma boa oportunidade
de dobrar a aposta em cima de nossos interlocutores exatamente quando
eles não esperavam e nosso cacife era alto. Uma pena.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)
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