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Poluiu,
pagou
O fundador do Instituto Worldwatch
diz que quem destrói a natureza só
entende uma linguagem: a
punição
econômica
Bia Barbosa
Divulgação
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"Temos
de mudar a tributação
e aumentar os impostos das atividades que destroem a natureza" |
O
americano Lester Brown começou a trabalhar na plantação
de tomate da família aos 10 anos. Nas horas vagas, lia biografias
de Benjamin Franklin e Abraham Lincoln. Dessas leituras nasceu, ele diz,
a determinação de se dedicar a causas humanitárias.
Em 1974, depois de trabalhar dez anos para o governo dos Estados Unidos,
fundou o Instituto Worldwatch, uma das maiores e mais respeitadas organizações
internacionais voltadas para a pesquisa do ecossistema. Sob sua direção,
o instituto produz o relatório anual Estado do Mundo, que
se tornou a bíblia do movimento ambientalista, publicado em mais
de trinta línguas. Na semana passada, Brown fundou outra organização,
o Instituto Earth Police. Ele tem 22 livros publicados, ganhou dezenas
de prêmios, trabalha sete dias por semana e, aos 67 anos, não
pensa em parar. "Adoro o desafio de procurar soluções para
nossos problemas. Espero viver para ver esses resultados." Da sede do
Instituto Worldwatch, em Washington, Lester Brown concedeu a seguinte
entrevista a VEJA.
Veja Estamos passando por um fenômeno de aquecimento
global. Mas se discute se isso decorre de um ciclo natural do planeta
ou da ação humana. Quem é o responsável?
Brown
Não há mais dúvida de que as mudanças ambientais
são causadas pelo homem. Não sou só eu que penso
assim. Mais de 1.500 pesquisadores ligados à ONU provaram cientificamente
que as mudanças climáticas são resultado da emissão
de combustíveis fósseis na atmosfera. Isso, com certeza,
é responsabilidade do homem.
Veja Há maneiras de reverter o estrago causado ao
planeta ou já é tarde para isso?
Brown
Não tenho dúvida de que estamos perdendo essa guerra. Eu
trabalho com esses assuntos há quase três décadas
e todos os anos as florestas ficam menores, os desertos tornam-se maiores,
o número de espécies no planeta diminui, o nível
do mar continua a subir, a Terra está ficando mais quente, o gelo
está derretendo. A tendência é para o lado errado.
É preciso parar. No final, isso vai destruir nossa economia.
Veja O que é preciso fazer?
Brown
A chave é reestruturar nossa economia para torná-la ambientalmente
sustentável. Temos de mudar o sistema tributário reduzindo
o imposto de renda e aumentando a taxação de atividades
que destroem o meio ambiente. O problema é que o mercado não
reflete o custo real das coisas. Por exemplo, quando você compra
1 litro de gasolina, paga para ter o petróleo extraído e
refinado e pelo transporte do combustível até o posto. Mas
não paga pelo custo da poluição do ar e da emissão
dos combustíveis fósseis na atmosfera. Nesse caso, precisamos
de um imposto de carbono, que reflita o custo para a sociedade de queimar
1 litro de gasolina. Se começarmos a dizer a verdade, os problemas
podem ser resolvidos facilmente.
Veja Nesse caso, qual deve ser a prioridade de um país
em desenvolvimento, como o Brasil? O crescimento industrial e a melhoria
das condições de vida de seu povo ou a preservação
do meio ambiente?
Brown
Temos de pensar nas duas coisas caminhando lado a lado. Se você
se preocupar somente com o crescimento industrial e esquecer os recursos
naturais, as gerações futuras vão pagar um preço
alto, independentemente de se tratar de um país desenvolvido ou
em desenvolvimento. Sei que é difícil, que não vai
acontecer do dia para a noite. O processo pode levar anos, talvez décadas.
Mas a transição precisa ser gradual se quisermos manter
o crescimento da economia.
Veja O presidente americano George Bush diz que o
momento é de crescer, não de proteger o meio ambiente. Até
que ponto podemos estabelecer um controle ambiental na economia sem inibir
o crescimento econômico?
Brown
A questão é outra. Se nada for feito, a longo prazo não
haverá nenhum crescimento. A pergunta mais relevante é quanto
isso vai custar se não tomarmos uma atitude imediatamente. A resposta
é: esse custo levará ao declínio a economia que conhecemos
hoje. Foi o que aconteceu com antigas civilizações que se
deixaram guiar apenas pela economia. As mudanças que promoveram
foram ambientalmente insustentáveis; elas não foram capazes
de fazer os ajustes necessários e por isso acabaram.
Veja Como a preocupação ecológica pode
salvar a civilização?
Brown
Tivemos duas grandes revoluções em termos de mudanças
nas atividades econômicas. A primeira foi a revolução
agrícola, há 10.000 anos. A segunda foi a industrial, que
começou há dois séculos. Estamos agora diante de
outra grande reestruturação, que chamamos de revolução
ambiental. A diferença é que uma durou muitos milênios
e a outra, dois séculos. A revolução ambiental precisará
acontecer em poucas décadas se quiser resultados.
Veja A revolução ambiental que o senhor propõe
não terá um custo pesado em termos de quantidade de empregos?
Brown
Na verdade, vamos criar mais indústrias. A principal será
a da reciclagem. Quando abandonarmos a "economia do joga fora", teremos
uma enorme quantidade de novos empregos. Teremos também um crescimento
na área da energia. Se construirmos usinas eólicas, haverá
demanda para construtoras locais instalarem as turbinas movidas a vento
e demanda para sua manutenção, que criará outros
empregos locais. A energia eólica requer muito mais mão-de-obra
do que a gerada pela queima dos combustíveis fósseis. Passarão
a existir profissões novas no que chamamos de ecocultura. Veja
o caso da pesca oceânica, que está esgotada e precisa ser
substituída por criatórios. Precisaremos, nesse caso, de
novos tipos de veterinários, especializados em peixes.
Veja Banir o combustível fóssil não
colocaria em risco o sistema energético?
Brown
De modo algum. Nos Estados Unidos, o Departamento de Energia está
fazendo um inventário de recursos eólicos e concluiu que
três Estados americanos (Dakota do Norte, Kansas e Texas), localizados
em grandes planícies, podem gerar energia elétrica suficiente
para manter todo o país. É um potencial a ser explorado,
comparável ao gerado hoje pelas termelétricas. Quando essas
usinas estiverem funcionando, teremos energia de sobra e poderemos usá-la
de outras formas.
Veja Que formas?
Brown
Por exemplo, para produzir hidrogênio por meio de uma reação
eletroquímica. O hidrogênio é um dos combustíveis
do futuro. As grandes empresas automobilísticas já estão
trabalhando nos motores à base de célula de combustível.
William Ford, presidente da Ford, já disse que espera presenciar
a morte dos motores de combustão interna. Se seu bisavô ouvisse
isso, provavelmente levantaria do túmulo. Mas essa é a nova
realidade. No futuro, o vento não será usado apenas para
gerar energia elétrica, mas na produção do combustível
necessário para mover os automóveis. É um mundo muito
diferente daquele em que vivemos hoje, mas esse mundo está muito
perto de se tornar real.
Veja
Qual o papel do Brasil nessa conjuntura?
Brown
Uma das vantagens de países como o Brasil é poder tomar
atalhos para o futuro. Se sabem que em pouco tempo não usaremos
combustíveis fósseis em grande escala, podem começar
a procurar por fontes alternativas de energia. O Brasil não precisa
fazer investimentos em usinas elétricas que funcionam à
base de carvão ou petróleo. Ele pode pegar um atalho agora
e apostar na energia eólica.
Veja O que o senhor acha da idéia de uma indústria
poluidora compensar a emissão de gases tóxicos na atmosfera
com o patrocínio do reflorestamento de uma área?
Brown
Nós temos de fazer mais do que compensar, porque no geral estamos
perdendo. Numa escala menor, isso pode até ser possível,
mas, basicamente, temos mesmo é de reduzir a emissão de
combustíveis fósseis se quisermos estabilizar o clima do
planeta.
Veja Além do esforço global, ações
locais não são importantes para conseguirmos alcançar
esse resultado mais rápido?
Brown
Sim, e alguns países já estão começando a
tomar atitudes por conta própria. Não estão esperando
pela aprovação do Protocolo de Kioto, que prevê para
2012 uma redução de 5% na emissão de combustíveis
fósseis pelos países industrializados, para fazer algumas
coisas. A Dinamarca baniu a construção de usinas termelétricas
e agora está concentrando esforços no desenvolvimento da
energia eólica. Há pouco tempo, a Alemanha decidiu mudar
seu sistema tributário e pretende, em quatro anos, reduzir em 16
bilhões de dólares a arrecadação com o imposto
de renda e aumentar, exatamente no mesmo valor, as tarifas para o uso
de energia. Isso desencorajará a utilização irresponsável
da energia e incentivará a busca por eficiência.
Veja E o Brasil está fazendo um bom trabalho?
Brown
Há algumas coisas positivas acontecendo no Brasil. Uma delas é
um avanço no sistema de transportes e de reciclagem que está
ocorrendo em cidades como Curitiba, no Paraná. O que eles estão
fazendo é um modelo para todo o mundo. Com criatividade e um excelente
sistema de transporte público, aumentaram a mobilidade da população
ao mesmo tempo que reduziram o uso de automóveis. É dessa
criatividade que precisamos em nível nacional e em mais e mais
países. Por outro lado, o Brasil não tem feito muito em
relação à energia limpa e à energia solar.
Quanto a isso, está muito atrás de outros países.
Veja Qual sua opinião sobre a decisão do governo
americano de não ratificar o Protocolo de Kioto?
Brown
Foi vergonhosa. O problema gerado vai além da questão do
clima. Ao declarar morto o Protocolo de Kioto, Bush sugeriu que os Estados
Unidos não são capazes de assumir seus compromissos, colocando
em dúvida seu papel de liderança na comunidade internacional.
Acredito que não esperava tanta reação mundial. Ele
já sabe que cometeu um erro e está-se esforçando
para consertá-lo.
Veja A poluição é a pior ameaça
ao planeta?
Brown
Para mim, os dois grandes perigos, que eu coloco juntos no topo da lista,
são a mudança climática e o crescimento da população.
Se não estabilizarmos o clima e a população, provavelmente
não poderemos salvar nenhum outro sistema ecológico da Terra.
Em 1900 havia 1,5 bilhão de pessoas no mundo. Hoje existem 6 bilhões.
A atividade econômica atual é dezesseis vezes maior do que
era naquela época. E é isso que está criando tantos
problemas.
Veja Que tipo de mundo podemos esperar se não conseguirmos
resolver esses problemas?
Brown
Ninguém tem certeza do que pode acontecer. Já sabemos que
a mudança climática pode tornar-se altamente destrutiva,
com tempestades arrasadoras, degelo dos pólos, aumento do nível
do mar. Se você combinar tudo isso, terá um estrago indescritível
nas regiões costeiras, onde vive a maior parte da população
do mundo. O colapso do ecossistema vai levar ao colapso da economia. Mas
prefiro olhar o outro lado da moeda. Se conseguirmos estabilizar o clima
e o crescimento da população, muitos dos problemas serão
administráveis. E eu sou bastante otimista; do contrário,
já teria ido embora para casa há muito tempo. O problema
é que ainda não estamos fazendo nada.
Veja E por que não?
Brown
Acho que nem todos estão convencidos de que essa mudança
é necessária e há muita gente interessada em manter
a economia existente. O mundo da alta tecnologia, das sociedades urbanizadas,
parece ter-se esquecido completamente de que nós dependemos de
nossos sistemas naturais. O mundo da globalização econômica
não é muito sensível aos assuntos ambientais. Tivemos
uma clara demonstração disso na última reunião
da Organização Mundial do Comércio, em Seattle, Estados
Unidos, em novembro do ano passado. Aquelas manifestações
refletiram a opinião pública e mostraram que não
podemos olhar para os assuntos econômicos isoladamente. Temos de
pensar em termos sociais e ambientais ao mesmo tempo.
Veja Na questão do meio ambiente, a globalização
ajuda ou atrapalha?
Brown
Pela primeira vez, estamos tratando de assuntos ambientais globais junto
com todo o mundo. Até recentemente não tínhamos isso,
fosse para estudar a camada de ozônio, para estabilizar o clima
ou para proteger a pesca oceânica. De repente temos uma situação
maravilhosa, em que compartilhamos esses recursos. Isso só foi
possível com a globalização.
Veja Na semana passada o senhor inaugurou um instituto que
pretende justamente divulgar uma grande quantidade de informações
para a mídia através da internet. Por que esse cuidado especial
com a mídia?
Brown
Se não conseguirmos reverter essa tendência e continuarmos
a destruir gradualmente o futuro de nosso ambiente, teremos sérios
problemas. E para mostrar as mudanças necessárias e os caminhos
disponíveis há a necessidade de muita informação,
as pessoas precisam entender por que precisamos fazer essas mudanças.
A única instituição capaz de disseminar informações
na escala necessária e no tempo disponível são jornais
e revistas como a VEJA. A mídia é essencial nesse caso.
Não foram os editores e repórteres que pediram essa responsabilidade,
mas não há alternativa.

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o primeiro capítulo da versão 2001 de O Estado do Mundo,
livro publicado todo ano pelo Instituto Worldwatch |
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