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Roberto
Pompeu de Toledo
Razões para
amar
o Congresso
Esta
é uma hora
em que pode ser
oportuno lembrar certos singelos
argumentos em seu favor
O nobre
senador está mentindo.
Vossa Excelência me desculpe, mas eu o considero culpado.
Como é
que alguém pode ser a um tempo "nobre" e "mentiroso"? Como pode
merecer as pompas do tratamento de "excelência" seguidas do opróbrio
de uma sentença de culpa? Nestes tempos em que, como poucas vezes,
talvez nunca, o público tem acompanhado as sessões do Senado,
alguns se chocam com uma etiqueta parlamentar que combina rapapés
de salão com desaforos de botequim. Então o Senado é
isso? Para tais pessoas, se é isso, não passaria de templo
da hipocrisia. O lugar onde a torpeza se traveste de cavalheirismo, e
o xingamento se disfarça em galanteio.
Sim, na
linguagem do Senado a "nobreza" pode vir junto com a "mentira", a "excelência"
com a "culpa", mas vamos lá isto não é defeito,
mas virtude. Comecemos do começo. Que é um Parlamento? É,
em última análise, a alternativa civilizacional à
guerra civil. Ou, para usar um conceito da psicanálise, a sublimação
da guerra civil. Mais esmiuçadamente, é o artifício
inventado pelas sociedades, ao atingir certo grau de aprimoramento, para
resolver seus conflitos sem recorrer à violência.
O Parlamento
é uma casa de conflitos, eis algo que não se deve perder
de vista. Não é como um ministério onde, definidas
as políticas a seguir, se impõe que todos os funcionários,
organizados e submetidos a uma hierarquia, sigam num mesmo rumo. Ou como
uma empresa, onde, igualmente definidas as metas e as estratégias,
espera-se que todos se alinhem em sua perseguição. O Parlamento,
como uma guerra civil, tem facções, neste caso chamadas
partidos. Cada um tem seu objetivo. E ninguém tem o poder, ao contrário
do que ocorre num ministério ou numa empresa, de forçá-los
a uma ordem unida. Nenhuma facção tem o poder de calar outra,
pois o Parlamento ostenta, como outra de suas características,
o fato de, nele, não existir hierarquia. Os parlamentares são
todos iguais. Ninguém é chefe de ninguém. As decisões
são tomadas ao jogo do voto, das negociações e da
formação de maiorias, não por obediência a
ordens.
Do exposto
decorre que nada mais apropriado do que chamar o colega de "nobre", antes
de qualificá-lo como mentiroso, ou de "excelência", antes
de sentenciar-lhe a culpa. A cortesia, como entre os cavaleiros da Idade
Média, precede o golpe. Com a vantagem de, ao contrário
dos torneios medievais, disso não resultarem mortes, a não
ser em raras ocasiões. Se o Parlamento foi feito para parlamentar,
a disputa tem de ser com a arma da palavra. E, ao se confrontar com palavras,
se se trata de pessoas iguais, todas merecem tratamento de distinção,
diferentemente do que ocorre na sociedade em geral, onde alguns são
tratados por "senhor" ou "senhora" e merecem as honrarias do "por favor"
e do "obrigado" enquanto para outros basta um "ô Zé, vai
no banco pagar isto", ou "ô Maria, traz um café". O Parlamento
é o lugar onde pessoas diferentes se tratam compulsoriamente como
iguais e onde pessoas que não se respeitam batem-se compulsoriamente
com respeito.
Quando não há Parlamento para absorver os conflitos, que
ocorre? Há duas hipóteses. A primeira é uma ditadura
e então não ocorre nada, embora desse nada possa
advir silêncio tão aterrador quanto a maior das barulheiras.
Os conflitos são abafados. As dissidências são resolvidas
nas câmaras de tortura. A segunda hipótese consiste, quando
não há força capaz de impor-se ditatorialmente às
outras, no mútuo trucidamento. É o que ocorre nas guerras
entre quadrilhas de traficantes. Como lhes falta Parlamento para negociar,
votar ou buscar consensos, entra em ação a metralhadora.
Não
há dúvida de que os parlamentos têm vícios
horríveis, que vão da morosidade nas decisões à
acolhida de facínoras em seu meio. O brasileiro tem vícios
talvez maiores do que o normal. Na condição de casa de recepção,
encaminhamento e solução de conflitos, no entanto, não
se tem saído mal. Tome-se o período que vai da agonia do
regime militar até hoje. O Congresso reprovou, é verdade,
a eleição direta para presidente, em 1984. No ano seguinte,
porém, encontrou meio de corrigir-se, ao propiciar a eleição
de Tancredo Neves. De lá para cá, nos momentos de mais alta
tensão na política nacional, como na crise de Fernando Collor,
soube encontrar saídas satisfatórias. De tão aberta
e tolerante, a Casa já abrigou até um deputado que costumava
fazer picadinho dos adversários. Mas, nesse caso como no dos anões
do Orçamento e em outros, tem sabido limpar as próprias
fileiras, cassando mandatos.
Em momentos
como o atual, não é raro que os mais nervosos, ou mais mal
informados, de cambulhada com os mal-intencionados, estendam seu desânimo,
ou sua raiva, à própria instituição parlamentar.
É um ponto de vista. Mas que tenham consciência de seu alcance,
e cravem desde já o que querem no lugar se os tanques das
ditaduras ou as metralhadoras das guerras civis.
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