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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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Cinema chapa-branca

"Muita gente comparou a Ancine
à
velha e corrupta Embrafilme.
Injustiça. A Ancine é muito pior"

O cinema nacional é um assunto ínfimo. Eu sou ínfimo. O governo também é ínfimo: desperdiça dinheiro em cinema para agradar à classe artística. Com essa finalidade, criou a Agência Nacional do Cinema, ou Ancine. Muita gente a comparou à velha e corrupta Embrafilme. Injustiça. A Ancine é muito pior. Nem no regime militar o poder público teve tanto controle sobre uma atividade cultural. A Ancine, vinculada à Casa Civil, tem o seu diretor escolhido diretamente pelo presidente da República e segue as diretrizes do Conselho Superior do Cinema, formado por sete ministros e cinco representantes da indústria cinematográfica. O Brasil nunca conseguiu ter uma indústria cinematográfica, mas é pródigo em matéria de representantes, como Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto, Gustavo Dahl. Os mesmos de sempre.

A Ancine tem como objetivo estimular o desenvolvimento do cinema nacional, concedendo verbas públicas a produtores, distribuidores, exibidores. Poderá contar com recursos gerados pelo Funcines, Condecine e Prodecine. Inútil explicar como funcionam esses impostos. Basta saber que, atualmente, o Brasil produz uns 25 filmes ruins por ano. Com a nova lei, terá dinheiro para produzir mais de 100. Igualmente ruins, claro. A meta final da Ancine é promover a auto-sustentabilidade do cinema brasileiro. Difícil que consiga fazê-lo drogando o mercado com mais dinheiro público e aumentando o seu grau de dependência. É como se, para desintoxicar um heroinômano, lhe dessem 1 quilo de heroína puríssima.

Auto-sustentabilidade significa que, se um filme tem 50.000 espectadores, deve ser produzido com a receita de 50.000 espectadores. Os filmes nacionais podem ter 50.000 espectadores, mas custam o equivalente ao que se arrecadaria com 500.000. O resto é coberto pela benevolência do Estado. Isso só inflaciona o ambiente. Ao invés de reduzir os custos, adaptando-os à miséria das bilheterias, os filmes brasileiros gastam como se tivessem viabilidade econômica, pagando por um ator ou um diretor de fotografia o mesmo que um comercial de TV. Com muito mais dinheiro público na praça, a coisa só pode piorar. É o atestado de morte para qualquer veleidade de se criar um cinema independente no Brasil. Será impossível encontrar espaço para trabalhos realizados fora do esquema estatal. O mercado estará saturado de filmes nacionais, muitos dos quais produzidos com subsídios públicos pelas próprias distribuidoras multinacionais. Ou você faz um filme sob a tutela do Estado, com dinheiro do Estado, aceitando a chantagem oficial, ou desiste de fazer filmes. É o triunfo do cinema chapa-branca e com as contas no vermelho.

Eu costumava achar que o dinheiro investido em cinema deveria ser usado para construir escolas. Mudei de idéia depois de ler os planos do seqüestrador da filha de Silvio Santos. Numa única página, contei 23 erros gramaticais, embora o seqüestrador tivesse o 2º grau completo. Ou seja, ficou onze anos na escola e nem sequer conseguiu aprender a diferença entre singular e plural. O Estado perdeu tempo e dinheiro na tentativa de alfabetizá-lo. Teria sido melhor ensinar-lhe algo útil, como a recauchutagem de pneus, e inseri-lo no mercado de trabalho aos 14 anos de idade. Idêntico discurso vale para os representantes da nossa indústria cinematográfica.

 
 
   
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