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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Sérgio Abranches

Discussão apagada

"Em 1985, apenas 50% dos domicílios
brasileiros tinham geladeira. Em 2000,
eram 83%. O porcentual de residências
com TV
subiu de 74% para 91% na
década de 90"


Ilustração Ale Setti


Quando está sem companhia, Nininha costuma conversar com as panelas que opera como cozinheira doméstica de uma família de classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi pilhada discutindo animadamente com elas como reduzir seu consumo de energia, de respeitáveis 270 kWh, e concluía: "É, gente, vamos ajudar o Brasil, senão quem se ferra somos nós!"

Foi convocada para explicar seu caso à família. Já desligou os aparelhos de sua casa: o forno de microondas, o ar-condicionado e o freezer. Manteve ligada a geladeira, reduziu o uso da máquina de lavar roupa e do ferro elétrico. "Jeans, agora, eu só lavo, passo a mão e penduro." Da TV não abre mão e estava em dúvida sobre o telefone sem fio, aquisição recente, após conseguir linha, resultado da privatização.

Nininha é órfã do Real. Olha para seus equipamentos domésticos como ameaça diante das sanções do corte. Mas conclui, com orgulho, que as dificuldades que enfrenta para ficar na cota que lhe foi atribuída em parte se devem a sua nova casa estar "toda equipadinha". "Para isso trabalho eu", explica. Ela não perde tempo em pôr a culpa em alguém. Só quer ver-se livre o mais cedo possível das restrições que a impedem de desfrutar os bens que adquiriu com a estabilidade e o mercado aberto. Sabe distinguir entre apontar culpados e reconhecer que a situação exige cooperação.

Ela descobriu que há desperdício e que antes gastava menos porque tinha menos coisas em sua casa. Aliás, como a maioria dos brasileiros de sua classe, ela está "toda equipadinha", mas não tem casa própria. Até aí o Real não chegou. Deixou recentemente um barraco na favela para se acomodar em uma casa melhor, emprestada pelo patrão do marido, no bairro de Ramos.

O governo tem responsabilidades, mas não é o único culpado. Nem o problema deriva todo de erros e imprevidência. A geração de energia elétrica cresceu 145% nos últimos vinte anos; 52% na década de 90; 30% entre 1994 e 2000. O consumo residencial cresceu 260%, 76% e 51% nesses intervalos. Em 1985, apenas 50% dos domicílios brasileiros tinham geladeira. Em 2000, eram 83%. O porcentual de residências com TV subiu de 74% para 91% na década de 90. Só depois do Real, essa proporção aumentou em 10 pontos percentuais. É o resultado agregado da soma dos milhões de "Nininhas" que se equiparam depois da estabilização.

Onde o governo mais errou? No marco regulatório para o setor elétrico: é deficiente e o pior de todos os setores. Há falhas na tarifação e nas metas de investimento para as privatizadas. Privatizou antes de regular. Criou uma estrutura compartimentada, que permite o clássico empurra-empurra de responsabilidades entre ministério, ONS e Aneel, para prejuízo geral. A agência regulatória está muito aquém de suas responsabilidades e da importância do setor; o ONS, nem se fale. Parou a privatização, é verdade que diante de obstáculos políticos muito sólidos, deixando indefinido o modelo do setor, que não é nem estatal, nem misto, nem privado, um incentivo à fuga geral das obrigações.

Onde acertou? Em concluir quinze das 23 geradoras com obras paralisadas havia anos. Algumas puro escândalo: Balbina é um enorme lago de imperícia, desperdício e irregularidades. Porto Primavera, resgatada por Mário Covas do poço de absurdos em que estava mergulhada desde o governo Maluf, teve custo financeiro superior a seu valor econômico, e ninguém sabe quanto se enterrou nela e nos bolsos de terceiros. Acertou na escolha de Pedro Parente para pilotar a nave desgovernada, o mais competente funcionário público da geração pós-ditadura. Acertará tanto mais quanto maior for a transparência com que tratar do problema.

O apagão da luz não é uma tragédia de proporções tão gigantescas como alguns querem. Nem mazela de subdesenvolvidos. A Califórnia que o diga. Mas o apagão da inteligência, provocado pela ausência de discussão séria sobre o melhor modelo energético para atender ao interesse coletivo, por causa de uma polarização política intolerante de todos os lados e estéril, pode ser uma grave ameaça para o país, e aí, como diz dona Nininha, "nós estamos ferrados".


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 

 
 
   
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