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Sérgio
Abranches
Discussão
apagada
"Em
1985, apenas 50%
dos domicílios
brasileiros
tinham geladeira.
Em 2000,
eram
83%. O porcentual de residências
com TV subiu
de 74% para 91% na
década de 90"
Ilustração Ale Setti
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Quando está sem companhia, Nininha costuma conversar com as panelas
que opera como cozinheira doméstica de uma família de classe
média da Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi pilhada discutindo animadamente
com elas como reduzir seu consumo de energia, de respeitáveis 270
kWh, e concluía: "É, gente, vamos ajudar o Brasil, senão
quem se ferra somos nós!"
Foi convocada para explicar seu caso à família. Já
desligou os aparelhos de sua casa: o forno de microondas, o ar-condicionado
e o freezer. Manteve ligada a geladeira, reduziu o uso da máquina
de lavar roupa e do ferro elétrico. "Jeans, agora, eu só
lavo, passo a mão e penduro." Da TV não abre mão
e estava em dúvida sobre o telefone sem fio, aquisição
recente, após conseguir linha, resultado da privatização.
Nininha é órfã do Real. Olha para seus equipamentos
domésticos como ameaça diante das sanções
do corte. Mas conclui, com orgulho, que as dificuldades que enfrenta para
ficar na cota que lhe foi atribuída em parte se devem a sua nova
casa estar "toda equipadinha". "Para isso trabalho eu", explica. Ela não
perde tempo em pôr a culpa em alguém. Só quer ver-se
livre o mais cedo possível das restrições que a impedem
de desfrutar os bens que adquiriu com a estabilidade e o mercado aberto.
Sabe distinguir entre apontar culpados e reconhecer que a situação
exige cooperação.
Ela descobriu que há desperdício e que antes gastava menos
porque tinha menos coisas em sua casa. Aliás, como a maioria dos
brasileiros de sua classe, ela está "toda equipadinha", mas não
tem casa própria. Até aí o Real não chegou.
Deixou recentemente um barraco na favela para se acomodar em uma casa
melhor, emprestada pelo patrão do marido, no bairro de Ramos.
O governo tem responsabilidades, mas não é o único
culpado. Nem o problema deriva todo de erros e imprevidência. A
geração de energia elétrica cresceu 145% nos últimos
vinte anos; 52% na década de 90; 30% entre 1994 e 2000. O consumo
residencial cresceu 260%, 76% e 51% nesses intervalos. Em 1985, apenas
50% dos domicílios brasileiros tinham geladeira. Em 2000, eram
83%. O porcentual de residências com TV subiu de 74% para 91% na
década de 90. Só depois do Real, essa proporção
aumentou em 10 pontos percentuais. É o resultado agregado da soma
dos milhões de "Nininhas" que se equiparam depois da estabilização.
Onde o governo mais errou? No marco regulatório para o setor elétrico:
é deficiente e o pior de todos os setores. Há falhas na
tarifação e nas metas de investimento para as privatizadas.
Privatizou antes de regular. Criou uma estrutura compartimentada, que
permite o clássico empurra-empurra de responsabilidades entre ministério,
ONS e Aneel, para prejuízo geral. A agência regulatória
está muito aquém de suas responsabilidades e da importância
do setor; o ONS, nem se fale. Parou a privatização, é
verdade que diante de obstáculos políticos muito sólidos,
deixando indefinido o modelo do setor, que não é nem estatal,
nem misto, nem privado, um incentivo à fuga geral das obrigações.
Onde acertou? Em concluir quinze das 23 geradoras com obras paralisadas
havia anos. Algumas puro escândalo: Balbina é um enorme lago
de imperícia, desperdício e irregularidades. Porto Primavera,
resgatada por Mário Covas do poço de absurdos em que estava
mergulhada desde o governo Maluf, teve custo financeiro superior a seu
valor econômico, e ninguém sabe quanto se enterrou nela e
nos bolsos de terceiros. Acertou na escolha de Pedro Parente para pilotar
a nave desgovernada, o mais competente funcionário público
da geração pós-ditadura. Acertará tanto mais
quanto maior for a transparência com que tratar do problema.
O apagão da luz não é uma tragédia de proporções
tão gigantescas como alguns querem. Nem mazela de subdesenvolvidos.
A Califórnia que o diga. Mas o apagão da inteligência,
provocado pela ausência de discussão séria sobre o
melhor modelo energético para atender ao interesse coletivo, por
causa de uma polarização política intolerante de
todos os lados e estéril, pode ser uma grave ameaça para
o país, e aí, como diz dona Nininha, "nós estamos
ferrados".
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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