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Inferno
na escola
A
intimidação das crianças pelos
colegas arrasa a auto-estima e
pode trazer problemas de aprendizado
Fernanda Colavitti
Sergio Pinheiro
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| Convivência
na infância: colégio deve incentivar respeito mútuo |
Ganhar apelidos maldosos e tornar-se alvo de gozação dos
colegas a propósito de algum aspecto da aparência, do jeito
de falar ou do comportamento são dificuldades pelas quais qualquer
criança pode passar durante a vida escolar. Ou ainda levar um beliscão
ou um cascudo, eventualmente, e até voltar para casa com um brinquedo
quebrado por alguém da mesma idade. Nada mais natural, já
que são meninos e meninas com temperamentos e personalidades diferentes
convivendo diariamente em um mesmo espaço, numa fase da vida em
que as regras da boa convivência ainda se estão sedimentando.
Entretanto, não raras vezes essas atitudes podem descambar para
a hostilidade sistemática e conduzir seu filho ao isolamento dentro
da turma e à exclusão de atividades recreativas. Há
casos em que a agressão física, em geral por alguém
mais forte, passa a ser freqüente. Espalham-se rumores e até
ameaças e roubo se verificam no convívio entre garotos e
garotas no colégio.
É
uma situação para a qual muitos pais não estão
atentos, mas que pode infernizar a vida do filho, afetar seu relacionamento
familiar e causar entraves no aprendizado, segundo o pediatra e psiquiatra
infantil Christian Gauderer, professor da Universidade Federal do Rio
de Janeiro. "A criança que não consegue fazer parte de um
grupo pode passar por sérios problemas emocionais", adverte Gauderer,
atualmente nos Estados Unidos, onde faz pesquisas na Universidade de Hackensack.
A primeira dificuldade que os pais têm é identificar a ocorrência
das pressões, já que a maioria das crianças reluta
em falar abertamente sobre o assunto. Isso porque experimentam um sentimento
de vergonha por estar sofrendo chacotas ou apanhando na escola, ou ainda
por temer retaliações dos agressores. "Um dos sinais mais
evidentes é a queda de rendimento escolar e a resistência
em ir à aula", explica a especialista em violência infantil
Cacilda Paranhos, do Laboratório de Estudos da Criança da
Universidade de São Paulo.
Paulo Jares
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| O
psiquiatra Gauderer: conselhos |
De uma maneira geral, o conselho mais repetido entre diversos especialistas
entrevistados é procurar elevar a auto-estima da criança
em casa, ressaltando sempre suas qualidades e capacidades (veja
quadro). Antes de tratar o filho como o coitadinho da história,
no entanto, é preciso checar se não é o próprio
comportamento da suposta vítima o motivo da rejeição
entre os colegas. "A ausência de limites e o excesso de mimos em
casa podem fazer com que a criança fique egoísta, chata,
agressiva, enfim, não siga as regras básicas de convivência
em grupo", alerta a psicóloga Ceres Alves de Araújo, da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A
falta de entrosamento pode ter diversas origens, por isso é importante
o trabalho conjunto entre pais e professores para a identificação
e solução do problema. Algumas escolas promovem atividades
e jogos em grupo, com o objetivo de reforçar a importância
da socialização e do respeito mútuo entre as crianças,
além de manter a fiscalização nos horários
de intervalo para identificar os alunos que estão sempre sozinhos
ou se metendo em confusões. "A escola tem obrigação
de alertar os pais para os problemas enfrentados pelos filhos", diz a
psicopedagoga Anna Paula Costa, orientadora pedagógica do Pitágoras,
de Belo Horizonte.
Se no Brasil iniciativas como essas parecem isoladas, na Inglaterra e
nos EUA o assunto ganha foros de debate nacional. Em inglês, a atitude
é conhecida por bullying, algo como intimidar, atormentar,
termo sem uma tradução exata em português. Nos dois
países, há livros publicados, entidades especializadas na
orientação para os pais e na defesa das crianças,
bem como normas que obrigam as escolas a oferecer uma política
clara de providências contra o bullying. Como sempre ocorre
quando um tema ganha essa dimensão, aparecem abordagens fora de
foco. Na Inglaterra, por exemplo, o suicídio do garoto Jevan Richardson,
de 10 anos, ocorrido no começo do ano, inflamou os ânimos
e foi atribuído a problemas de socialização na escola.
Nos EUA, o bullying chegou até a ser apontado como o estopim
de episódios como a morte de treze alunos da escola Columbine,
na cidade americana de Littleton, em 1999. Exageros à parte, a
experiência de lá é claro que ajuda a clarear o caminho
para quem se interessa em resolver a situação. Recentemente
foi divulgada na respeitada revista científica da Associação
Médica Americana o resultado de uma ampla pesquisa com nada menos
que 15.686 estudantes sobre o tema, centrada nos pré-adolescentes
e nos adolescentes. "A ocorrência é vigorosa e, dadas as
conseqüências negativas de longo prazo para eles, a questão
exige atenção séria", conclui o relatório
da pesquisa. Para essa faixa etária, comprovou-se que, no sexo
masculino, a reclamação maior é de agressão
física. Já entre as adolescentes, são mais correntes
as agressões verbais e a disseminação de boatos sobre
o comportamento sexual das colegas.
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