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Luiz
Felipe de Alencastro
A
representação política
"Resta
que, num contexto de crise, os
cidadãos podem irromper no espaço da
representação política e apresentar cobranças
precisas aos partidos e aos eleitos"
Ilustração
Ale Setti
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Inglês, americano, argentino ou brasileiro, o cidadão perde
às vezes o pé quando escolhe programas de governo, filia-se
a partidos políticos e elege seus governantes.
Em
31 de maio deste ano, o semanário londrino The Economist,
próximo do Partido Conservador, declarou voto no candidato trabalhista.
A revista alinhou argumentos conservadores em favor de sua escolha e,
com o humor peculiar à imprensa inglesa, concluiu: "Tony Blair
é o único conservador disponível que tem credibilidade".
Pouco tempo antes, em 30 de abril, a revista New Yorker publicava
um ensaio mostrando o poder do vice-presidente, Dick Cheney. Segundo o
semanário americano, Cheney, estribado na experiência obtida
nas presidências Ford e Bush pai e fortalecido por sua influência
na atual administração, age como um primeiro-ministro ou
até como um "co-presidente" no governo de George W. Bush. Depois
de muita recontagem de votos para desempatar Bush e Gore, os americanos
descobrem que o vencedor é... Dick Cheney.
Na Argentina, a ambigüidade política é ainda mais paradoxal.
Derrotado por Fernando de la Rúa por quase cinco vezes mais votos
nas presidenciais de 1999, o ex-candidato Domingo Cavallo assumiu no mês
de março o Ministério da Economia argentino, com poderes
próprios de um chefe de governo.
No final das contas, qual o sentido das eleições, das candidaturas
e dos programas políticos e partidários? Trata-se, nos casos
citados, de desvios políticos circunstanciais, comandados pelo
interesse nacional, independentemente dos partidos e dos cargos governamentais?
Ou, ao contrário, tais fatos configuram a inadequação
do sistema democrático à nova ordem mundial? O assunto está
na agenda dos cientistas políticos e dos constitucionalistas.
Resta que, num contexto de crise, os cidadãos podem irromper no
espaço da representação política e apresentar
cobranças precisas aos partidos e aos eleitos. Será logo
o caso na Argentina e já é fato concreto no Brasil, onde
o apagão faz as críticas convergirem diretamente para o
presidente da República.
Há razões para isso. A energia elétrica marcou a
entrada do Brasil na modernidade. O país mal viu passar a Primeira
Revolução Industrial, baseada no carvão e na máquina
a vapor, mas entrou firme na Segunda, movida pela eletricidade e pelo
petróleo. Depois da frustração causada pela inexistência
de reservas de petróleo no interior das terras, as hidrelétricas,
com nomes poéticos e sonoros (Três Marias, Xingó,
Tucuruí), incorporaram-se ao imaginário nacional. Os brasileiros
domavam a portentosa natureza de seu território. Em vez de ficar
deitado eternamente em berço esplêndido, o gigante se erguia,
escorava catadupas d'água nas barragens e gerava energia. No caso,
o gigante era o Estado, planificador e construtor das hidrelétricas.
O padrão perdurou até os anos 90, quando vieram as privatizações
e cessaram os investimentos públicos no setor energético.
Ao mesmo tempo, surgiu a misturada de agências reguladoras. Aneel
(Agência Nacional de Energia Elétrica), ONS (Operador Nacional
do Sistema Elétrico) e ANP (Agência Nacional do Petróleo)
aparecem como siglas malsonantes que baralham a imagem do poder público
e diluem as responsabilidades.
Urbanizado, muito mais dependente da eletricidade do que há trinta
anos, o país manifesta seu descontentamento diante da falta de
energia elétrica. Primeiro presidente a ser reeleito na História
brasileira, FHC recebe a conta de sua longevidade no Planalto: fica difícil
alegar surpresa quando, auxiliado pelo mesmo ministro da Fazenda, já
se governa há seis anos e meio seguidos.
Em todo o caso, nos próximos meses estará em jogo algo muito
mais precioso que algumas dezenas de megawatts. Estará em jogo
a aptidão da sociedade brasileira para não desperdiçar
a energia democrática que permite a superação das
crises e a sobrevivência das nações civilizadas.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)
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