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A revolta do mundo natural

Desde sua criação, há 32 anos, VEJA estampou 42 vezes em sua capa reportagens ambientais. Deu voz a estudiosos e defensores da natureza. Ponderou perigos reais. Desanuviou falsos pânicos. Na edição desta semana, uma reportagem especial da revista registra o surgimento dos dois primeiros sintomas globais de que o mundo natural está doente e, a sua moda, reagindo à doença. Os sinais de perigo estão no ar há várias décadas. Também não faltaram alertas. Em 1962, uma discreta bióloga marinha chamada Rachel Carson escreveu Primavera Silenciosa, primeiro e profético livro em defesa da ecologia. Carson previu que, a se manter o ritmo de destruição dos recursos naturais, logo estaríamos vivendo num mundo "sem canto de pássaros". Em 1979, o inglês James Lovelock levantou, então como hipótese, a idéia de que a Terra seria um sistema biológico ordenado e dotado de instinto de preservação capaz de regular seus próprios ecossistemas. Lovelock escreveu um livro, A Hipótese Gaia, em cujas páginas argumentava que a natureza cedo ou tarde reagiria globalmente contra as diuturnas agressões humanas ao meio ambiente.

Ao que tudo indica, os ecologistas pioneiros estavam certos. Já se podem notar por toda parte sinais de que o mundo atingiu seu limite de tolerância com o descaso e a magnitude das agressões da era industrial ao meio ambiente – e começa a contra-atacar. São golpes precisos e assustadores. A Europa, o continente que abrigou há 10.000 anos os primeiros humanos domesticadores de animais e cultivadores da terra, está imersa numa crise inédita. Seus rebanhos estão sendo dizimados por uma moléstia misteriosa, a doença da vaca louca, cuja letalidade foi produzida pelas mãos dos homens ao alimentar animais herbívoros com restos de suas carcaças, transformando-os artificialmente em seres carnívoros. Dos centros de pesquisa climática mais respeitados de diversos países vem outra péssima notícia. A temperatura da Terra está subindo rapidamente. A alteração no termômetro é pequena, mas seus efeitos potenciais são apocalípticos: degelo da calota polar, seguido do aumento de volume dos oceanos e da inundação das cidades litorâneas.

 

   
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