A
revolução dos bichos
A
domesticação dos animais completa 10 000 ano
e o homem descobre que consegue produzir mais
alimentos, mas paga um preço por brincar de Deus
Eliana
Simonetti e Murilo Ramos
Com
a emissão descontrolada de gases poluentes, a humanidade
testou os limites da atmosfera para suportar agressões.
Em outro campo muito sensível, esses mesmos limites
foram explorados com resultados talvez não tão
desastrosos mas bem mais imediatos. Na ânsia de estocar
proteínas em tempo cada vez menor em seus animais de
fazenda, a humanidade acabou produzindo monstros genéticos.
Animais domésticos, como cães e gatos, submetidos
a séculos de seleção artificial, com
base apenas nos critérios que interessam a seus criadores,
produziram uma geração de bichos com falhas
hereditárias. Gatos persas podem ser tão deficientes
visualmente que não sobreviveriam longe do dono. Cães
buldogues tendem à cegueira precoce. Dálmatas
ficam surdos ainda jovens. Raças como o dogue alemão
nascem com ossos fracos para agüentar seu peso. Nos laboratórios,
a experimentação continua numa agressividade
ainda maior. As técnicas de clonagem, mesmo as aparentemente
bem-sucedidas, estão produzindo aberrações,
como filhotes que nascem com células de animais velhos
e sofrem de doenças degenerativas ainda bebês.
Fotos Antonio Milena/J. M. Smidtjr/Jorge
Butsuen/Glória Flugel
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Essa fabulosa fazenda nova, com animais que, se deixados soltos
na natureza, jamais teriam chegado a existir, nunca incomodou
verdadeiramente as pessoas. Fora uma voz isolada aqui e ali,
partida geralmente das associações protetoras
dos animais, ninguém se interessou pela qualidade de
vida dos bichos que há milênios acompanham a
caminhada do homem pelo planeta. Os cientistas calculam que,
com a seleção humana, a vacinação,
as injeções de hormônio, os antibióticos
e, principalmente, a intervenção genética,
a evolução darwinista dos bichos foi acelerada.
Eles estariam sendo empurrados para insondáveis mutações
genéticas a um ritmo 100 vezes maior que o da natureza.
Na manipulação de embriões, uma técnica
comum nas fazendas de vanguarda, inclusive nas do Brasil,
a natureza também é turbinada. Os especialistas
escolhem o sexo e outras características dos animais
quando eles têm apenas algumas células. Ao clonar
um desses animais, os técnicos fazem seu material genético
trabalhar em um ritmo antinatural. O DNA, a molécula
da vida que no interior das células guarda e transmite
os caracteres hereditários da maioria dos seres vivos,
é obrigado a produzir em uma semana as mesmas reações
bioquímicas que, numa gestação normal,
demorariam nove meses para acontecer. Isso tudo acarreta riscos.
A pior experiência recente em que a interferência
humana se provou desastrosa aconteceu na criação
de vacas e bois. Esses animais são vegetarianos estritos.
Os criadores europeus, para apressar e aumentar a engorda,
transformaram-nos em carnívoros ao alimentá-los
com rações produzidas com restos de outros animais.
O uso de animais doentes para alimentar os sadios gerou a
atual epidemia da vaca louca, que levou à morte 200.000
animais somente na Inglaterra.
A questão só foi sentida mais recentemente,
quando a degradação dos rebanhos começou
a doer fundo no bolso dos criadores e a afetar a economia
e até a política dos países, principalmente
na Europa, por onde se espalhou uma onda paranóica
relativa ao consumo de bife. A vaca louca é apenas
o mais visível e assustador entre os males a que estão
submetidos os rebanhos modernos. Os bichos de fazenda são
vulneráveis a diversos tipos de infecção,
degeneração e enfraquecimento genético
como nunca se presenciou na natureza. Os europeus se perguntam
por que mereceram esse castigo. É efetivamente um castigo.
Mas não divino. "O que está ocorrendo na Europa
é uma reação violenta da natureza aos
processos modernos de criação de animais, que
ficaram cada vez mais artificiais nas últimas décadas",
explica Lester Brown, diretor do Worldwatch Institute. Brown
é um ecologista ponderado. Em nada lembra a turba de
xiitas que sai por aí fazendo protestos contra qualquer
coisa que identifica como inimiga do sacrossanto equilíbrio
ecológico. Por seus conhecimentos técnicos aliados
a um comportamento equilibrado, Lester Brown acabou por se
tornar um dos mais influentes especialistas de seu ramo no
planeta. A explicação de Brown para o fenômeno
atual de transformação de granjas bucólicas
em laboratórios de produção de monstros
baseia-se em um raciocínio econômico de grande
racionalidade.
No fundo, explica Brown, a vitória estupenda da ciência
em sua luta para aumentar a concentração de
proteínas nos animais de fazenda está na base
de toda a confusão atual. Os fazendeiros europeus foram
os mais bem-sucedidos. A razão é simples. A
crônica falta de espaço físico nos países
forçou os europeus a tentar as mais mirabolantes experiências
científicas para aumentar a produtividade do rebanho.
Por essa razão, os problemas que assolam o campo na
Europa inexistem ou são muito menos graves no Brasil,
nos Estados Unidos e na Austrália, grandes ganhadores
com a atual crise na pecuária européia. Graças
aos avanços na manipulação dos rebanhos,
pela primeira vez na história da humanidade a produção
de proteína de origem animal cresceu num ritmo maior
que o da população do planeta. Entre 1950 e
1999, a produção mundial de carne bovina triplicou.
Nesse período, a população dobrou. Bois
passaram a concentrar em cada quilo de carne o equivalente
a proteínas contidas em 8 a 10 quilos de grãos,
um feito extraordinário. Essa relação
é quase quatro vezes maior que aquela que se obtém
com o gado livre na natureza. Há quinze anos, os fazendeiros
precisavam de 48 a sessenta meses para conseguir um boi com
270 quilos, o ideal para o abate. Hoje, em cerca de um terço
desse prazo, dezoito meses, o animal atinge esse peso. O maior
ganho de produtividade recente do rebanho de corte europeu
veio com uma solução radical, que se acredita
possa ter desencadeado a vingança da natureza. Os fazendeiros
começaram a complementar a alimentação
do rebanho com ração feita com restos de sangue,
ossos e cartilagem dos próprios bois. "Animais herbívoros
foram transformados em carnívoros e, o que é
pior, em canibais", diz Lester Brown. "Cruzou-se aí
uma fronteira proibida."
A teoria mais aceita sobre as causas e a proliferação
selvagem da doença da vaca louca é a de que
a transmissão é feita pela ração,
já que o complemento alimentar foi durante anos fabricado
com restos de animais doentes. O transmissor seria uma proteína
mutante dos neurônios chamada prion, reconhecidamente
capaz de provocar a degeneração do tecido cerebral
que caracteriza o mal. O prion é uma entidade tão
enigmática e destruidora que parece tirada de obras
de terror ficcional. Para começar, ele é 100.000
vezes menor que um vírus. Isso significa que se um
vírus, um dos menores malfeitores da saúde que
se conhece, fosse do tamanho de uma casa, o prion poderia
confortavelmente passar pelo buraco da fechadura. Isso ainda
não é a questão mais assustadora. O prion
tem uma característica ainda mais desafiadora. Ele
não é vivo. A implicação terrível
é que, logo, não pode ser morto. Instrumentos
cirúrgicos infectados com o prion podem ser fervidos,
tratados quimicamente contra microorganismos e continuarão
oferecendo perigo. Animais atacados pela febre aftosa são
cremados. Os doentes da vaca louca têm de ser enterrados,
pois teme-se que a fumaça espalhe o prion por grandes
distâncias. "O prion é a causa da doença
ca louca e também a de sua variante humana, a
doença Creutzfeldt-Jakob, mas não se pode dizer
ainda com certeza que as pessoas que adoeceram contraíram
o mal dos animais", diz o neurologista americano Stanley Ben
Prusiner, da Universidade da Califórnia, que ganhou
o Prêmio Nobel de Medicina de 1997 por seus trabalhos
com a agora notória proteína mutante.
Como os terremotos, os vulcões e as baratas, o prion
é uma dessas maldades que existem há milhões
de anos. O fato, no entanto, de o prion ter saído de
sua toca e ameaçar o mundo no alvorecer do século
XXI é um problema que pode ser debitado exclusivamente
na conta do progresso humano. A mesma coisa se poderia dizer
do vírus ebola. Muito provavelmente o ebola, que mata
suas vítimas humanas em questão de dias pela
liquefação ou colapso dos órgãos
internos, viveu inofensivamente durante eras entre os símios
africanos. Com a ocupação cada vez mais intensa
das matas por vilarejos e assentamentos humanos, o ebola deu
um salto evolutivo e passou a atacar também as pessoas.
Em primeiro lugar na África, depois, graças
à mobilidade dos vôos internacionais, em qualquer
parte do mundo.
Em condições normais as doenças de granja
que assustam a Europa teriam ficado confinadas a uma ou outra
fazenda. No mundo moderno é diferente. A recente epidemia
de febre aftosa nos rebanhos europeus começou numa
única fazenda, cujo dono alimentou seus porcos com
restos infectados de carne importada ilegalmente da Ásia.
Em pouco tempo o vírus se espalhou, levado pelos próprios
fazendeiros em suas solas de sapato e nos produtos que vendem
aos demais países do continente. Como se fossem imunes
à desgraça, os britânicos continuaram
alimentando seu gado e exportando toneladas de ração
de origem animal uma década depois de descobrirem a
origem da doença da vaca louca. Os Estados Unidos foram
os primeiros a dar o alarme. Os americanos proibiram a importação
de carne, gado vivo e ração da Inglaterra já
em 1988, quando começaram a circular as primeiras suspeitas
de que a doença misteriosa que destruía o cérebro
das vacas podia ser transmissível. Só por milagre
a epidemia não se transformou numa catástrofe
mundial fora de controle. "A doença da vaca louca afetou
a confiança em todo o sistema de saúde pública.
Com razão, as pessoas não acreditam mais quando
um especialista afirma que não há motivo para
preocupação", diz Michael Meacher, ministro
do Meio Ambiente inglês.
Os cientistas argumentam que não se obtêm resultados
de produtividade fabulosos sem algum risco e sem violentar
a natureza. Aquele leitãozinho enlameado que passa
os dias fuçando no terreiro é figura em extinção.
A galinha ciscadora, cercada de seus pintinhos, também
só é encontrada nos quintais das casas pobres
das regiões de cultura de subsistência. A produção
em massa de alimentos acabou com o lado natural da vida dos
animais. Os frangos e alguns tipos de gado de corte na Europa
e em outros pontos do planeta vivem artificialmente do momento
em que nascem até o abate, encarcerados e expostos
à luz permanente, para que não possam distinguir
a noite do dia. A luz age sobre os mecanismos reguladores
da fome de modo a induzir o animal a comer 24 horas por dia
e engordar mais rapidamente.
"Em
alguns casos, os bichos marcam passo quase que numa mesma
posição por toda uma vida. Não conseguem
mover o pescoço sem esbarrar num outro animal. Não
se pode esperar alimento saudável de seres submetidos
a um grau de stress extremo como esse", afirma Rita de Cássia
Garcia, diretora técnica da ONG Arca Brasil, de São
Paulo, que estuda a relação entre o bem-estar
dos animais e a qualidade dos alimentos. No meio da crise,
a procura pelos chamados produtos orgânicos, obtidos
de forma mais natural, aumentou a ponto de dar origem a um
comércio promissor (veja
quadro).
Não sem razão, pouco a pouco as pessoas começam
a ficar preocupadas com a origem dos alimentos que colocam
à mesa. Incomoda imaginar que são artificiais
e podem trazer consigo a ira da natureza contrariada. "A natureza
tem certos ritmos que não podem ser desrespeitados",
diz Rudolf Jaenisch, biólogo americano do Instituto
Whitehead de Pesquisas Biomédicas, em Cambridge, Massachusetts.
Uma das maneiras mais promissoras que os cientistas vislumbram
para turbinar o mundo natural é a clonagem. Essa técnica
permite selecionar embriões quando ainda têm
o tamanho de algumas poucas células. Em seu limite,
a clonagem permite fazer a cópia perfeita de um animal
adulto, maneira pela qual o cientista britânico Ian
Wilmut produziu pioneiramente a ovelha Dolly. O mais comum
são clones de embriões e não de animais
adultos, técnica que se mostrou tão complexa
que ainda não foi repetida com sucesso. Em todos os
casos, os resultados parecem espetaculares do ponto de vista
científico. Mas que tipos de animais são produzidos?
Um estudo do biólogo Jaenisch, o mais completo feito
até agora, mostra o custo de tentar esticar as possibilidades
naturais além do limite. Algumas das conclusões:
A manipulação genética para produzir
clones gerou animais monstruosos, que são abortados
em 97% das tentativas feitas em touros, ovelhas, cabras e
porcos.
A experiência de produzir um touro geneticamente resistente
a três das doenças mais comuns da raça
foi literalmente abortada no Estado americano do Texas no
final do ano passado. Aos oito meses de gestação,
a vaca hospedeira estava inchada como se tivesse engolido
um barril de 100 litros de líquido.
Os animais produzidos em laboratório que conseguem
sobreviver depois de implantados nos úteros nascem
com deformações. A mais comum é fígado
inchado e doente.
Três de cada 100 embriões que conseguem nascer
após uma gestação normal nunca chegam
à idade adulta. Morrem precocemente, vitimados por
gigantismo, problemas circulatórios, pulmões
não desenvolvidos, diabetes ou deficiências imunológicas.
Mesmo quando têm aparência normal, os clones escondem
defeitos genéticos terríveis.
Pessoas com mais tendência ao misticismo podem sugerir
que o homem está sendo punido por ter brincado de Deus.
Os espíritos mais racionais podem concluir que cedo
ou tarde a ciência resolverá a maioria dos problemas
decorrentes da manipulação da natureza e seguirá
em frente a dominação humana do planeta. Não
há por que duvidar de que os cientistas pesquisarão
a encefalopatia espongiforme bovina, nome científico
da doença da vaca louca, e se sairão com alternativas
de cura. Laboratórios desenvolverão rações
animais de baixo custo que não tenham como ingredientes
ossos nem sangue. Novas maneiras de criar animais em larga
escala sem submetê-los a uma vida tão terrível
podem aparecer.
"O
mundo está atravessando um período de transição.
As novas técnicas deram margem ao surgimento de problemas
que têm de ser investigados e resolvidos", diz André
Pessoa, consultor paulista especializado em agropecuária.
A história recente mostra que talvez os racionais estejam
mais próximos da verdade. Os problemas gerados agora
pela criação intensiva de bichos de fazenda
foram vividos em escala semelhante nos anos 60 com a eclosão
da chamada Revolução Verde. A sintetização
e a produção em massa de poderosos herbicidas
químicos, inseticidas e fertilizantes permitiram que
continentes inteiros escapassem da fome. A Índia e
o Paquistão dobraram a oferta de trigo para seus pobres.
Graças aos aditivos químicos, os campos chineses
de arroz viram sua produtividade aumentar em dois terços.
Estima-se que as inovações da Revolução
Verde salvaram da morte por inanição mais de
1 bilhão de pessoas. Enquanto a Revolução
Verde decolava com suas monoculturas tocadas a defensivos
agrícolas as aberrações foram muitas.
Pragas de insetos de proporções bíblicas
escondiam o sol nos campos. As espécies nativas morriam
pela competição com as plantações
vitaminadas. Com o tempo, os cientistas aprenderam a domar
as pragas e a proteger as plantas nativas. Assim, o campo,
embora artificial, deixou de produzir dores de cabeça.
É essa mesma paz que se espera agora no mundo animal.
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A
VOLTA AO NATURAL
AP
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O espectro da transmissão de doenças letais
para os humanos pelo consumo de carne bovina já
teve dois efeitos visíveis no mundo da alimentação.
De um lado provocou crescimento na procura de carne
suína e eqüina. De outro, levou a uma explosão
no consumo de produtos orgânicos (que não
usam sequer adubos ou defensivos agrícolas) na
Europa e nos Estados Unidos. Só na Inglaterra,
onde surgiu a doença da vaca louca, esse mercado
cresceu seis vezes desde 1990, o que está gerando
um efeito colateral. Como a produção de
alimentos à moda antiga é muito menos
eficiente do que a que utiliza tecnologia moderna, um
frango criado no quintal chega a custar quase três
vezes mais que a galinha de granja. Mesmo assim, faltam
produtos nas prateleiras.
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ESBELTO
E LIMPINHO
Criado
em granjas, o porco brasileiro
está magro e saudável como nunca
Os
suínos brasileiros passaram por um regime com
resultados de dar inveja a atrizes e modelos. Levou
vinte anos, mas eles andam mais magros do que nunca.
Perderam 31% de gordura na carne e no toucinho, 14%
de calorias e 10% de colesterol. Alguns cortes de carne
de porco, dependendo do modo como são servidos,
já são mais leves que certos preparos
de boi, frango ou peixe. O porco em forma é resultado
de uma revolução nas pocilgas. Primeiro,
esses animais passaram a ser alimentados com rações
balanceadas, em vez de milho, trigo e lavagem. Depois,
técnicas científicas tornaram possível
o cruzamento entre linhagens diferentes, mais esbeltas
ou produtivas, por exemplo, com a conseqüente seleção
de suínos geneticamente superiores.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa) misturou três raças e desenvolveu
um porco cuja carne contém apenas 40% de gordura
pesada, de suínos comuns. A brasileira Agroceres
seleciona animais com ferramentas de biotecnologia negociadas
com a multinacional inglesa Pig Improvement Company.
Assim que o bicho nasce é possível, analisando
seus genes, saber como será seu crescimento,
sua eficiência reprodutiva e até a qualidade
de sua carne, além da resistência a doenças.
"Basta analisar uma amostra de sangue ou um pêlo
do animal", explica Fernando Pereira, diretor da Agroceres
PIC.
O porco sujo também já era. Os chiqueiros,
rebatizados como "granjas", agora primam pela limpeza.
Os animais não têm nenhum contato com a
terra e ficam confinados em instalações
desinfetadas constantemente. Nem tomam vermífugos,
porque a probabilidade de se contaminarem com vermes
é remota. "Para visitar um porco em nossa granja,
a pessoa tem de tomar pelo menos três banhos",
afirma Jorge Eduardo de Souza, presidente da Pig Light,
empresa criada por um grupo de investidores paulistas.
Há cinco anos, eles empregaram 1,5 milhão
de reais para montar um criatório equipado com
centro de inseminação artificial e fábrica
de rações. No ano passado, venderam 14
000 leitões melhorados geneticamente, com baixo
índice de colesterol, e alcançaram um
patrimônio de 7 milhões de reais.
A vida do porco brasileiro foi mudando no mesmo ritmo
que a do cidadão. Até a década
de 70, a gordura usada na cozinha era geralmente de
origem animal. Porco bom era porco gordo, que rendia
banha. Com o advento dos óleos vegetais, mais
saudáveis, o rebanho suíno precisou dar
mais carne que gordura. Nos últimos vinte anos,
o índice médio de carne magra dos porcos
subiu de 47% para 60%. A espessura do toucinho caiu
de 5 para 1 centímetro. O colesterol na carne
tornou-se equivalente ao do frango e do boi. "Ao comer
100 gramas de lombo assado, a pessoa ainda fica 75%
abaixo do máximo de colesterol admitido pelas
entidades americanas de saúde", garante o veterinário
Luciano Roppa, especialista em suinocultura. Em termos
de calorias, uma porção de 150 gramas
de lombo cozido tem 270 unidades, menos que num hambúrguer.
O novo suíno também cresce mais depressa,
produz o dobro de filhotes por ano até
24 porquinhos e está cada vez mais distante
de representar algum risco à saúde. Na
década de 70, metade do rebanho nacional teve
de ser exterminada para dar fim a um surto de cisticercose.
Hoje quase não há condições
para que uma doença volte a atacar em massa.
O mercado externo tem dado mostra de que confia no porco
nacional. Neste ano, devem ser exportadas 160 000 toneladas
de suínos, quatro vezes mais que em 1995.
Fotos Renato Navarro/Mauro Holanda
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