O ser
e o nada
Os
finalistas do Prêmio Jabuti
acabam
de ser anunciados. E daí?
Flávio
Moura
Na semana passada, a Câmara Brasileira do Livro anunciou
os finalistas do Prêmio Jabuti. Com isso, o processo
de votação do principal prêmio literário
brasileiro entrou em sua última fase. Agora, resta
a escolha dos vencedores em cada uma das dezesseis categorias
e, principalmente, dos "livros do ano" em ficção
e não-ficção. Eles serão conhecidos
no dia 19 de maio. Ou seja, falta pouco mais de um mês
e, como todos os anos, a expectativa até lá
deverá ser... nula. Isso mesmo. Comparado aos prêmios
literários de outros países, o Jabuti é
um total anticlímax, um acontecimento que desperta
pouco interesse entre os leitores e até mesmo entre
os envolvidos na organização. A menos que se
considerem fenômenos de popularidade os mais recentes
ganhadores do prêmio de melhor obra de ficção,
Carlos Nascimento Silva e Menalton Braff, o Jabuti não
cumpre o papel que se espera de uma premiação
importante. "Ele ajuda autores que já vendem a vender
um pouco mais. Mas nenhum livro faz sucesso apenas por causa
dele", diz Luiz Schwarcz, dono da Companhia das Letras, a
editora que mais troféus levou nos últimos anos.
Tudo bem que não se deva esperar de premiações
literárias o mesmo frisson de um Oscar. Mas, em alguns
casos, a comparação nem é tão
descabida. No ano 2000, o National Book Awards, principal
prêmio dos Estados Unidos, foi apresentado pelo comediante
Steve Martin, o mesmo mestre-de-cerimônias do último
Oscar. Segundo o organizador do National, Neil Baldwin, o
prêmio é um guia importante para os americanos.
"Cerca de 50.000 títulos são lançados
aqui anualmente", diz ele. "O leitor fica desorientado, e
nós lhe damos uma mão." Na França há
oito grandes prêmios por ano, sendo o mais tradicional
o Goncourt. Ele mobiliza as atenções da mídia
e dos leitores por mais de três meses, é motivo
para exaltação nos jornais e muita politicagem.
Outro caso emblemático é o do Booker Prize,
na Inglaterra. Num país em que a média de leitura
é de cinco horas por semana, o prêmio mobiliza
tanta atenção quanto um torneio de futebol.
Assim que se anunciam os finalistas, os direitos de publicação
são negociados com outros países e as bolsas
começam a colher apostas. "Quando Salman Rushdie concorreu,
eu apostei nele e ganhei um belo dinheiro", disse a VEJA o
escritor inglês Julian Barnes, ele próprio um
eterno candidato ao Booker. Não faltam fofocas sobre
a atividade dos cinco jurados. Em 2000, um jornal britânico
chegou a dizer que a voz de uma das integrantes do júri
era capaz de "fazer derreter o elástico da cueca dos
homens". Quando sai o vencedor, a repercussão é
imediata. Depois de ser premiado, em 1989, Kazuo Ishiguro
teve mais de 1 milhão de livros vendidos e sua obra,
Vestígios do Dia, ainda foi transformada em
filme de sucesso. E não se pode esquecer, claro, do
Nobel. Concedido pela Academia Sueca, o rei de todos os prêmios
forra o bolso do ganhador com 1 milhão de dólares
e o transforma em celebridade mundial.
É
obvio que o interesse pelas premiações reflete
o papel que a literatura desempenha em cada país. Mas
o Jabuti tem um problema adicional: foi concebido mais como
meio para editores e livreiros promoverem seus negócios
do que como prêmio voltado para as questões literárias.
Tanto assim que os dois vencedores da categoria "livro do
ano" não são eleitos por um júri de críticos,
mas pelo voto dos membros da Câmara Brasileira do Livro,
ou seja, donos de livrarias e de editoras que normalmente
se encaixam em um de dois nichos: o daqueles que não
sabem em quem estão votando ou o dos que fazem lobby
escancarado por seu candidato. Se prestígio cultural,
repercussão e glamour são os principais indicadores
da importância de um prêmio literário,
o Jabuti não vai muito longe. E a culpa não
é apenas de seu nome.
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