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As
escolas do PIB
Pesquisa revela que 77% dos
executivosde grandes empresas
saíram das faculdades particulares
Murilo
Ramos
Antonio Milena
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| Vera,
gerente do Sheraton: ela sempre se sentiu uma igual entre colegas
vindos da escola pública |
Uma
pesquisa feita pela Franceschini Análises de Mercado com mais de
1.000 executivos mostra uma face surpreendente das instituições
privadas de ensino superior. Segundo o levantamento, realizado nas maiores
empresas do país com sede no Estado de São Paulo, 77% dos
profissionais que ocupam postos de alto e médio escalão
presidência, diretoria e gerência formaram-se
em faculdades particulares. Os executivos não vieram apenas de
tradicionais e renomados estabelecimentos, como a Fundação
Getúlio Vargas e as unidades da Pontifícia Universidade
Católica (PUC). Os dirigentes empresariais de alto escalão
ouvidos pelos pesquisadores estudaram também em escolas de reputação
menos estabelecida. No total eles são egressos de duas centenas
de instituições privadas. "Sabemos por experiência
que as particulares vêm melhorando e formando bons alunos, mas queríamos
uma comprovação numérica desse avanço de qualidade.
Por isso encomendamos a pesquisa", diz Gabriel Mário Rodrigues,
presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos
de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp). Embora o estudo
tenha sido centrado em São Paulo, o Semesp acredita que os resultados
são representativos do que ocorre no resto do país.
O levantamento mostra que ex-alunos das universidades privadas estão
igualmente espalhados nos altos postos na indústria, no comércio
e no setor de serviços. Os dados causaram espanto a Claudio de
Moura Castro, economista, especialista em educação superior
e articulista de VEJA. "Não esperava desempenho tão bom.
Muitas das melhores escolas particulares estão funcionando há
pouco tempo e é surpreendente que os resultados já estejam
aparecendo", diz Moura Castro. A pesquisa, não por acaso, mostra
que a penetração dos ex-estudantes de escolas privadas no
mercado de trabalho é tanto maior quanto mais jovem for o executivo.
Outro dado relevante está na predominância dos alunos de
faculdades particulares em quase todos os campos. Só na área
química eles aparecem em número inferior. Em campos de estudo
mais tradicionais, como economia, direito, administração
de empresas e engenharia, os executivos egressos das instituições
privadas em postos de comando já são maioria.
Renato Chaui
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| Campus
da PUC de São Paulo: levantamento mostra que as escolas pagas já venceram
o preconceito |
A pesquisa de campo encomendada pelo Semesp traz diversas revelações
intrigantes. Uma delas parece uma simples constatação aritmética.
Como as escolas privadas formam 65% dos universitários brasileiros,
nada mais natural que eles ocupem também a maioria dos postos no
mercado de trabalho. Mas, como nota Moura Castro, essa simples correlação
esconde uma realidade bem mais complexa. Como os mercados estão
saturados, a presença de alunos de estabelecimentos de ensino particular
em postos de comando numa taxa superior à dos formandos (77% contra
65%) é sinal de que as escolas privadas podem estar mais focadas
do que as públicas. Outra constatação interessante
é o fato de que o diploma original do candidato pode ter algum
peso na contratação, mas não na condução
de sua carreira. "O preconceito em relação à escola
privada praticamente desapareceu nas empresas", diz Mailson da Nóbrega,
economista, ex-ministro da Fazenda e sócio de uma das principais
consultorias do país, a Tendências. Mailson se formou numa
das escolas particulares pioneiras do Distrito Federal, o Centro Universitário
de Brasília (Ceub), na década de 70. "Talvez o mais importante
seja o esforço de cada um", observa Mailson. "O primeiro diploma
não conta muito. O decisivo mesmo é a pessoa investir a
vida toda na própria educação", concorda Alcides
Amaral, ex-presidente do Citibank no Brasil, que se formou em jornalismo
na Faculdade C&aac Tendências. Mailson se formou numa
das escolas particulares pioneiras do Distrito Federal, o Centro Universitário
de Brasília (Ceub), na década de 70. "Talvez o mais importante
seja o esforço de cada um", observa Mailson. "O primeiro diploma
não conta muito. O decisivo mesmo é a pessoa investir a
vida toda na própria educação", concorda Alcides
Amaral, ex-presidente do Citibank no Brasil, que se formou em jornalismo
na Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo, fez brilhante
carreira de banqueiro e, recentemente, voltou a escrever para jornais.
A gerente de relações públicas do imponente hotel
Sheraton de São Paulo, Vera Campacci, cursou artes plásticas
na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e relações
públicas na Anhembi Morumbi. Vera também enfatiza a idéia
de que o ponto de partida raramente define o potencial final da pessoa
no mercado de trabalho. Ela conta que nunca se intimidou diante da concorrência
dos alunos dos estabelecimentos públicos e lembra que ficava irritada
com estudantes que já se consideravam vencedores apenas pelo fato
de ter freqüentado uma universidade pública. "O mais importante
da profissão você aprende no dia-a-dia, independentemente
de onde se tenha formado." O engenheiro José Dário Dal Piaz
Júnior, por seu lado, acredita que ter estudado em uma escola da
pequena cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí, o Instituto Nacional
de Telecomunicações (Inatel), não o colocou em desigualdade
de condições diante de concorrentes que vieram de uma faculdade
pública. Dal Piaz, que já passou pelas gigantes IBM e Ericsson,
formou-se em engenharia de telecomunicações e hoje é
vice-presidente do Yankee Group, empresa multinacional de consultoria
que faturou globalmente 200 milhões de dólares no ano passado.
A pesquisa do Semesp reflete também um momento de expansão
sem igual do ensino privado. A cada semana, surge uma faculdade particular
no Brasil. As mais de 1.000 instituições de ensino superior
privado recebem cerca de 120.000 novos alunos por ano. É muito?
Pode ser quando se considera que o mercado de trabalho está saturado
pelas baixas taxas de crescimento da economia brasileira nos últimos
anos. Mas é pouco quando se lembra de que apenas 12% da população
brasileira em idade universitária está matriculada em faculdades.
É uma taxa rala mesmo quando se compara o Brasil com seus vizinhos
na América Latina. Proporcionalmente à população,
a Bolívia forma o dobro de universitários a cada ano. A
Argentina diploma quatro vezes mais. Sem a participação
das escolas privadas, o desempenho brasileiro nessa área seria
calamitoso. De cada dez alunos que ingressam no ensino superior no Brasil,
sete têm como destino as instituições privadas.
Do ponto de vista da qualidade, o ensino oferecido com a chancela de "público"
já não tem aquela aura dourada do passado. O Ministério
da Educação fechou o cerco sobre as escolas privadas e colocou-as
num rígido programa de aumento de qualidade que deu resultados
excelentes. Com salários e condições de trabalho
melhores, as escolas particulares têm atraído em ritmo crescente
os bons professores das universidades públicas. De acordo com estudo
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes), 19% dos doutores em direito formados até 1994
trabalham em universidades privadas. Quando se apura o número de
doutores que se formaram depois de 1995 e lecionam em escolas privadas,
esse índice sobe para 40%. "A cobrança em cima desses professores
na escola privada é maior, porque os alunos estão tirando
dinheiro do bolso e exigem qualidade", lembra Moura Castro.
Liane Neves
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| Sala
de anatomia da Universidade Luterana do Brasil: as escolas privadas
ainda são fracas em pesquisa |
Para os estudantes, outra vantagem óbvia das faculdades particulares
é que elas são menos atingidas por greves de longa duração.
Como resultado do aperto do Ministério da Educação
sobre as escolas privadas e da própria dinâmica do mercado,
algumas faculdades já possuem até laboratórios e
equipamentos mais modernos que os das escolas do governo. Essa diferença
há alguns anos era abismal. Um exemplo dessa superação
muito citado pelos especialistas é o Ibmec Educacional, que tem
unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte.
O instituto cobra uma das mais altas mensalidades do mercado educacional,
em torno de 1.200 reais, mas oferece ambiente de estudo em que há
um computador por aluno contra, por exemplo, um para cada grupo
de trinta alunos na Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo (USP). O Ibmec conseguiu nota A no
Exame Nacional de Cursos, o popular Provão, em todos os anos em
que seus alunos se submeteram à avaliação do governo.
Aliás, quando se examina esse quesito, o do desempenho no Provão,
as escolas privadas têm avançado. Segundo Moura Castro, tomadas
como um todo elas podem se considerar niveladas com as escolas públicas
embora algumas poucas instituições particulares tenham
recebido notas desabonadoras e tenham sido fechados diversos cursos fantasmas
no país. As escolas privadas atraem críticas também
por ser um negócio que ainda depende de subsídios e isenções
do governo federal e do estadual. Em razão disso, dizem os críticos,
as escolas deveriam organizar-se de modo a gastar também com pesquisas,
dar mais bolsas a estudantes carentes e oferecer cursos que custam caro,
como o de medicina. Em parte eles têm razão, mas está
claro que aquela imagem mercantilista antiga de ser apenas fábricas
de diplomas está cada vez mais distante das instituições
superiores privadas.
"Talvez
o que as escolas particulares estejam demostrando é que as universidades
públicas têm de estar mais próximas da iniciativa
privada. Não podem ficar presas somente ao mundo acadêmico,"
diz Paulo Renato Souza, ministro da Educação. Claro que
uma discussão a respeito no Brasil tem poucas chances de escapar
do preconceito que cerca o setor privado em suas investidas na educação.
O mesmo olhar de desconfiança ocorre com relação
aos hospitais particulares. Saúde e educação são
considerados por boa parte da classe pensante brasileira como feudos públicos.
Mas a experiência vitoriosa do ensino privado começa a deixar
lições também para a escola pública. "Enquanto
as escolas particulares são atentas, ágeis em montar cursos
para atender à demanda do mercado profissional, as universidades
públicas precisam ultrapassar uma série de entraves para
promover mudanças", diz a pesquisadora Eunice Durham, da USP. "Isso
torna todo processo modernizador moroso e burocrático."
| SENHORES
ESTUDANTES
Algumas das personalidades destacadas no campo econômico e
empresarial do país estudaram em escolas privadas, que são
mais dinâmicas para abrir cursos novos, contratar com bons
salários os melhores professores e preparar os alunos para
atender às demandas do mercado
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