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Keynes e os gastos com a Nova Guerra"John Maynard Keynes tem sido invocadoem vão, em vista dos possíveis efeitos expansionistas sobre a economia americana da 'Nova Guerra' "
O nome de John Maynard Keynes, o mais celebrado economista do século recém-terminado, tem sido novamente invocado em vão, desta vez em vista dos possíveis efeitos expansionistas sobre a economia americana da "Nova Guerra" ora em preparação. Pouco se sabe sobre como será tal coisa, mas convém retirar Keynes desse assunto desde o início. Seu livro mais importante, de 1936, é conhecido até hoje como "A Teoria Geral", uma rara e merecida honraria para a obra em tudo brilhante, exceto no fato de que não era realmente "geral". Keynes ensinou, para o horror de conservadores e deleite de heterodoxos, que havia certa racionalidade no desperdício de dinheiro público em obras inúteis, como a construção de pirâmides, ou em enterrar garrafas com dinheiro para que os desempregados as procurassem. Os exemplos são dele mesmo, mas o que se passava a sua volta, na época, em matéria de obras públicas, não era menos inusitado. O governo brasileiro, por exemplo, ao longo da década de 30, tocou fogo numa quantidade de café, estoques seus, equivalente a três anos inteiros de consumo mundial, uma irracionalidade que Celso Furtado descreveria nestes termos: "Estávamos construindo as pirâmides que anos depois preconizaria Keynes". Como entender, com olhos de hoje, que o governo possa comprar café de fazendeiros paulistas e depois destruí-lo para fazer subir o preço? Certamente havia algo de excepcional naquelas circunstâncias, e por isso mesmo é que não é tão geral a Teoria Geral. Naquela mesma época, os nazistas, já no poder, levaram às últimas conseqüências essa lógica de usar dinheiro público para construir coisas a ser destruídas, para depois ser reconstruídas, e destruídas novamente. O gasto público como porcentagem do PIB dobrou na Alemanha entre 1928 e 1939, o crescimento foi espetacular, 12% anuais para 1932-1938, e o país montou a maior e mais destrutiva máquina de guerra até então conhecida. Com efeito, diante dos preparativos para a guerra em grande escala, todos os outros remédios "keynesianos" para criar empregos pareciam homeopatia. Isso não quer dizer, todavia, que a guerra, ou qualquer outra forma de gasto público improdutivo ou irracional, seja sempre justificável por motivos "keynesianos". Nada disso. O que fazia sentido durante a Grande Depressão pode ser totalmente descabido em nossos dias. Na verdade, várias guerras depois, tendo a participação do Estado na economia atingido limites incômodos em toda parte, em vista dos choques de oferta, dos capitais voláteis, das taxas de câmbio flexíveis e do fim da Guerra Fria, é certo que o mundo deixou de ser keynesiano. Em todos os lugares, inclusive no Japão, elevações no gasto público não necessariamente geram emprego, e freqüentemente trazem inúmeros problemas. A "guerra" contra o terrorismo que os EUA estão a preparar nem de longe parece ter os efeitos fiscais, ou a escala de mobilização, que tiveram as anteriores. Os montantes de recursos de que se fala nos EUA são ínfimos para reanimar a economia americana, cujos gastos do setor público são da ordem de 3,2 trilhões de dólares anuais e, ademais, nem está muito longe do pleno emprego. Salta aos olhos que os 40 bilhões de dólares já aprovados pelo Congresso americano devem ser o quádruplo ou mais do PIB do Afeganistão, mesmo contando a riqueza gerada pela heroína e pelo contrabando empreendido pelas máfias de caminhões dos Estados mais ao norte, ex-repúblicas soviéticas. Todo o capital que o Afeganistão recebe do resto do mundo consiste de ajuda humanitária e não ultrapassa 150 milhões de dólares anuais. Salta aos olhos também que nada seria mais danoso aos talibãs e aos terroristas alojados naquela região que um agressivo programa de desenvolvimento gastando-se uma fração do dinheiro que vai ser utilizado com as ações militares e de inteligência. Seria infinitamente mais barato, para não falar em razões humanitárias, e provavelmente muito mais eficaz para o combate ao terrorismo. Infelizmente, contudo, a guerra não é um assunto tratado por quem sabe fazer conta.
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