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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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Bombas literárias

"Quase todos os escritores quebraram a cara na hora de comentar os atentados terroristas nos Estados Unidos"

Alguns dos mais célebres escritores do mundo foram convidados para comentar os atentados terroristas nos Estados Unidos. É para essas coisas que servem os escritores: para exprimir o inexprimível, para dar um sentido à insensatez, para ver o que ninguém viu. Foi um fiasco. Quase todos quebraram a cara. Se o objetivo dos terroristas era destruir a civilização ocidental, atingiram em cheio um de seus alicerces: a literatura.

Paul Auster foi incapaz de olhar para além de sua vida doméstica. Contou que, naquela terça-feira, sua filha de 15 anos dormiu fora de casa, impossibilitada de voltar para o Brooklyn. Depois contou que sua cunhada ouviu gritos quando a primeira torre ruiu, que uns amigos foram evacuados e, por fim, que seu barbeiro conhecia uma pessoa que conhecia outra pessoa que estava no World Trade Center.

Jay McInerney também imaginou que seu mundinho privado pudesse adquirir um significado universal. Foi avisado dos atentados por uma ex-namorada. Ligou a TV na CNN. Visitou o amigo Bret Easton Ellis e assistiram juntos a mais CNN. Chorou por vinte minutos seguidos. "Não consigo controlar minhas emoções. Quero abraçar estranhos. Quero ferir estranhos." Os americanos têm uma certa dificuldade para entender que o planeta é um pouco mais vasto que o bairro em que moram. E que nem todos os estranhos desejam ser abraçados ou feridos por eles.

Richard Ford pôs-se a descrever a morte de seu pai, que morreu "direito": em sua casa, em sua cama, perto da mulher. Ser obliterado por um Boeing 767 que entra pela janela de um prédio, segundo Ford, não é um jeito certo de morrer. Infelizmente, a realidade é assim: ninguém sabe a hora, o lugar e a modalidade da própria morte. Exceto, claro, os pilotos suicidas dos Boeing 767.

Norman Mailer preferiu ver o aspecto positivo dos atentados. Disse que as torres gêmeas eram mais bonitas agora, em ruínas, do que quando estavam em pé. A seguir, previu o surgimento de um novo e benéfico patriotismo nos Estados Unidos, acrescentando que, quando um país não tem jovens dispostos a morrer por um ideal, esse país está com problemas. Mas não foram justamente "jovens dispostos a morrer por um ideal" que destruíram as torres gêmeas e mataram aquela gente toda?

John Updike usou o mais banal de todos os clichês: "Foi como assistir a um filme". Umberto Eco eximiu-se: "Num incêndio, até o poeta é obrigado a chamar o bombeiro". Martin Amis acusou os americanos de exterminar 5% dos iraquianos e de sofrer de "um déficit de empatia pelo sofrimento de povos distantes". Amis é europeu. Muitos europeus, nesses dias, recordaram o sofrimento dos iraquianos. E se esqueceram de outros povos distantes, como os curdos do norte do Iraque, massacrados com armas químicas por Saddam Hussein antes da Guerra do Golfo.

A única escritora que se saiu bem foi Susan Sontag. Para ela, os americanos substituíram a política pelo psicodrama. "Sim, choremos todos juntos. Mas tentemos não ser estúpidos todos juntos." O presidente Bush repete continuamente que os Estados Unidos são fortes. Todo mundo sabe que eles são fortes. O problema, conclui Sontag, é que o país "tem o dever de não ser apenas isso".

Por sorte, nada disso diz respeito ao Brasil. Ninguém se interessou em ouvir nossos escritores e, que eu saiba, ninguém nos considera parte da civilização ocidental.

 
 
   
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