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Roberto
Pompeu de Toledo
Deixemos o pobre
século XXI em paz
Já
há confusão
bastante em torno
de quando ele teria começado.
Por que mais uma?
O século
XXI começou na terça-feira 11 de setembro de 2001. Não
foi isso que inventaram agora? Tal descoberta, se de descoberta se pode
chamar, tem sido repetida à exaustão. O século XXI
teria começado com oito meses e onze dias de atraso, no dia em
que dois aviões, no atentado mais espetacular de que se tem registro,
trombaram com as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York,
enquanto um terceiro mergulhava sobre o Pentágono, em Washington.
Antes, o começo do século XXI, sem tragédia, mas,
pelo contrário, com festivo alarde, tinha sido comemorado, contrariando
as melhores regras de fazer as contas, ao raiar do ano 2000. Se o leitor
bem se lembra, houve réveillons de arromba ao redor do mundo, livros
comemorativos e eventos diversos, como se o ano de 2000 fosse o primeiro
do século XXI, e não o último do século XX.
Comemorou-se o começo do século com um ano de adianto.
Pobre século
XXI, eis um século que não se sabe quando começou,
se é que começou. O historiador inglês Eric Hobsbawm,
num livro de repercussão (Era dos Extremos), considerou
que o "breve" século XX, como o qualificou, começou em 1914,
com a I Guerra Mundial, e terminou em 1991, com o desfazimento da União
Soviética. A tese é sedutora e convincente. Igualmente,
pela espetaculosidade e ineditismo do evento, bem como pelas dimensões
da tragédia e o abalo que causou mundo afora, é sedutor
e convincente imaginar que o século XXI, isto é, uma nova
era, começa com os atentados contra os Estados Unidos. Mas, então,
como ficamos? Se o século XX terminou em 1991, segundo a bem urdida
tese de Hobsbawm, e o XXI começou neste mês de setembro,
que fazer dos dez anos que medeiam entre uma data e outra? São
os anos mortos, os anos inexistentes, o vazio de tempo? O período
em que o calendário, e com ele a história, se anulou?
Ninguém
está querendo diminuir a enormidade do acontecimento do World Trade
Center. Por todos os ângulos que se o considere, e por mais alguns
que se acrescentem, o fato é acachapante. Daí a considerar
esse é o nosso ponto que agora, sim, se abriu o novo
século, e inaugurou-se uma nova era, vai uma distância. Ora,
direis, trata-se de simples golpes de retórica. Não são
apenas os terroristas que arrebentam altas torres com aviões seqüestrados
que gostam de espetaculosidade. Todos gostam, nesta nossa era do cinema,
da televisão, do videogame e do videoclipe. E, assim como há
a espetaculosidade da imagem, há também a das palavras.
Os publicitários sabem bem disso, e por isso inventam slogans.
Dizer que o século XXI começou agora, ou que se inaugurou
uma nova era, equivale a um slogan publicitário. Não tem
outra função senão enfatizar a importância
do evento.
Esse é
um lado da questão. Outro ocorre na situação em que,
ao recitar o que não deveria passar de simples slogan, a pessoa
que o faz acredita mesmo que se iniciou uma nova era. O que ressalta então
é a arrogância de considerar que se pode escrever a história
no momento mesmo em que ela acontece. É um engano. A história
é propriedade dos pósteros. São eles que decidem,
de acordo com seu ponto de vista, seu gosto e suas conveniências,
quais os eventos que marcaram época. A obscura trajetória
de Jesus, num canto obscuro do mundo, passou despercebida dos líderes,
escritores, pensadores e outros notáveis contemporâneos.
Foi apenas alguns séculos depois que se deu importância a
tal evento, e tanta que, ele sim, mudou o calendário, a ponto de
dividi-lo em antes e depois. Vamos com calma. A posteridade vai dizer
se os acontecimentos dos Estados Unidos inauguram uma nova era, e marcam
o novo século, ou se na verdade representam o desdobramento de
situações há muito grudadas no mundo como craca,
talvez desde o tempo das Cruzadas, quando se combatia o infiel com a mesma
cegueira e a mesma sede de sangue.
A
melhor hora dos Estados Unidos não foi a profusão de bandeiras
e o compulsivo coro dos God Bless America que assolaram o país.
Na verdade, a avalanche de hinos e bandeiras, por mais justificada, em
certas horas, tem o sabor das unanimidades assustadoras. Também
não foi o movimento de solidariedade que fez com que o prefeito
Rudolph Giuliani apelasse para que cessassem os donativos e deixassem
de se apresentar os voluntários, tantos já se tinham de
uns e de outros. Afinal, movimentos semelhantes já se registraram
no mundo, em ocasiões como terremotos e enchentes. A melhor hora
dos Estados Unidos foram duas, a primeira quando um sacerdote muçulmano
foi convidado a participar, junto com representantes de outras religiões,
da cerimônia realizada na catedral de Washington, presentes o atual
e os ex-presidentes, entre outras personalidades do mundo oficial, e a
segunda e melhor ainda a visita do presidente Bush à
mesquita de Washington, na última segunda-feira. A faceta aberta
da nação americana, tolerante, pluralista, atenta ao outro
e respeitadora da diversidade, fez-se então presente.
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