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Um mergulho no islamismo
Sugestões
para quem quer conhecer
melhor as crenças e os costumes do
mundo muçulmano

Ilustração
de um manuscrito do século XIII, que mostra uma típica biblioteca
medieval em Bagdá |
LIVROS
O
Oriente Médio, de Bernard Lewis (tradução
de Ruy Jungmann; Jorge Zahar Editor; 389 páginas; 49,50 reais)
Síntese que cobre 2.000 anos, um livro desse quilate só
poderia ter sido escrito por um acadêmico como o inglês Bernard
Lewis, um dos mais respeitados estudiosos da história do Oriente
Médio. De acordo com Lewis, quatro processos sucessivos moldaram
a região: a helenização, a romanização,
a cristianização e, finalmente, a islamização.
À medida que percorre cada um desses períodos, Lewis acumula
evidências para uma tese forte: a de que, de todas as civilizações
medievais, a islâmica era a que apresentava a maior promessa de
avançar em direção à modernidade. A promessa,
entretanto, não se realizou e explorar os motivos disso
é o grande objetivo do livro. Na parte mais substancial de sua
obra, Lewis retrata as sociedades muçulmanas do Oriente Médio
em todos os seus aspectos. Destaca as diferentes contribuições
de árabes, persas e turcos. E, em seus capítulos finais,
que avançam até meados da década de 1990, aborda
com grande lucidez os dilemas modernos do relacionamento entre o Ocidente
e o mundo muçulmano.
Uma
História dos Povos Árabes, de Albert Hourani (tradução
de Marcos Santarrita; Companhia das Letras; 523 páginas; 39,50
reais) Professor da Universidade de Oxford, o inglês Albert
Hourani concluiu esse livro um ano antes de morrer, em 1992. A obra tece
um painel revelador de treze séculos de história dos povos
islâmicos de língua árabe, de Maomé até
o presente. Ocupa um lugar de honra na biblioteca dos orientalistas, mas
é uma leitura igualmente prazerosa para os leigos. Hourani escreve
história à moda clássica. Narra e interpreta os principais
eventos e traça perfis dos personagens célebres. Manipula
um impressionante volume de informações, dos manuscritos
antigos às estatísticas modernas. Apesar da ênfase
nas questões políticas e econômicas, contudo, Hourani
reserva espaço para incursões freqüentes em campos
como o da poesia, da arquitetura, da filosofia e da música. Alentado,
rico em detalhes, o livro pede para ser lido devagar e proporciona uma
verdadeira imersão no universo árabe muçulmano.
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Ulf Andersen

V.S.
Naipaul: visão ácida das sociedades islâmicas |
Entre os Fiéis (tradução de Cid Knipel Moreira;
Companhia das Letras; 544 páginas; 39,50 reais) e Além
da Fé (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia
das Letras; 549 páginas; 39,50 reais), de V.S. Naipaul Filho
de indianos, nascido no Caribe e educado na Inglaterra, o escritor V.S.
Naipaul volta seu olhar, nesses dois livros, para a cultura muçulmana.
Ambos são relatos de suas viagens a países que professam
a religião islâmica, narrados com agudo senso crítico
e a técnica impecável de sempre. Entre os Fiéis,
baseado na primeira jornada do autor, no fim dos anos 70, traz uma visão
um tanto pessimista. A conclusão a que ele chega no livro é
que tais sociedades comungariam um traço comum: a obsessão
por um ideal de pureza religiosa que reverte em ódio e ressentimento
contra o Ocidente. Em Além da Fé, escrito já
nos anos 90, Naipaul aprofunda sua análise e defende a tese de
que o islamismo seria, em sua essência, uma religião imperialista.
Em decorrência disso, de acordo com ele, as sociedades convertidas
à crença seriam sempre obrigadas a apagar traços
de seu passado "infiel", num processo doloroso e desorientador. Todas
essas idéias são, evidentemente, polêmicas
mas Naipaul as defende com inegável brilhantismo.
Islam
in the World, de Malise Ruthven (Penguin; 472 páginas;
42,76 reais) O irlandês Malise Ruthven fez bom uso de seu
treinamento duplo, como jornalista e historiador universitário
das religiões, nessa obra de apresentação do Islã.
Seu texto mistura impressões colhidas em viagens por países
do Oriente com discussões bastante densas das crenças, práticas
e instituições muçulmanas. O capítulo chamado
"A visão de mundo do Corão" é exemplar da
maneira ampla e inteligente como o autor aborda seus temas: a discussão
cobre dos aspectos éticos e religiosos do livro sagrado dos islâmicos
às questões de estilo literário e de linguagem. Lançado
originalmente em 1984, o livro recebeu uma segunda edição
ampliada em 2000. Num longo pós-escrito, Ruthven trata de temas
como a fatwa (sentença de morte) decretada contra o escritor
inglês Salman Rushdie pelas autoridades religiosas do Irã
e o surgimento do Talibã, a milícia fundamentalista que
hoje governa o Afeganistão. O autor é simpático aos
muçulmanos, mas sem abandonar o espírito crítico
(por exemplo, quando fala da resistência dos líderes religiosos
a autorizar reformas). Transformado em clássico instantâneo,
Islam in the World é considerado o melhor volume de introdução
ao islamismo disponível no mercado.
Jerry Bauer
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| Karen
Armstrong: estudo dos laços entre política e religião |
Islam,
de Karen Armstrong (Modern Library; 222 páginas; 70 reais)
A ex-freira inglesa Karen Armstrong é uma das principais autoridades
em história das religiões na atualidade. Esse seu livro
oferece um belo aparato informativo: mapas, bibliografia, cronologia,
glossário de termos árabes e uma lista das figuras muçulmanas
de maior destaque ao longo dos séculos. Uma constatação
atravessa a narrativa: enquanto na maior parte das religiões o
mundano e o espiritual formam reinos separados, no islamismo eles caminham
juntos. "Na maioria das fés", escreve Armstrong, "o clamor da história
é visto como incompatível com a verdadeira vida religiosa.
Mas a escritura sagrada dos muçulmanos lhes deu uma missão
histórica. Sua salvação não está na
remissão dos pecados, mas na criação de uma sociedade
justa. Isso significa que os assuntos de Estado formam a própria
essência da religião islâmica." A autora estuda as
conseqüências dessa união entre política e fé,
abordando temas como o fundamentalismo, as relações do Islã
com a modernidade e a possibilidade de aplicar o conceito de democracia
a um Estado muçulmano.
TELEVISÃO
Caçando
Bin Laden (domingo, dia 23, às 22h30; terça, às
23h20; e quarta, às 4h, no GNT) Produzido pela rede americana
PBS, o documentário foi lançado dois dias depois dos ataques
ao Pentágono e ao World Trade Center. É uma oportunidade
para entender melhor como pensa e age o suspeito número 1 dos atentados
aos Estados Unidos. "Mesmo com capacidades limitadas, nossa fé
pode derrotar a maior potência militar dos tempos atuais", diz Osama,
num vídeo que circulou no mundo árabe meses antes da tragédia
do dia 11. Caçando Bin Laden mostra como o herdeiro de um
milionário da construção civil na Arábia Saudita
montou sua temível rede terrorista, a Al Qaeda. Também apresenta
informações de bastidor sobre os métodos da CIA para
combatê-lo entre elas, detalhes inéditos de um plano
para capturá-lo no Afeganistão, em 1998. O criminoso que
emerge das imagens de arquivo e dos depoimentos de agentes secretos, autoridades
e dissidentes islâmicos confirma: Bin Laden é mesmo um sujeito
obstinado e extremamente calculista.
VÍDEO
Divulgação

O
Espelho: uso de parábolas para fugir da censura no Irã |
O Espelho (Ayneh, Irã, 1997. Cult) Sempre
submetido a uma censura rigorosa, o cinema iraniano costuma recorrer a
parábolas para telegrafar suas mensagens. Não é difícil,
entretanto, decifrar o que o diretor Jafar Panahi (do aterrorizante O
Círculo, que mostra a perseguição às mulheres
no Islã) quer dizer com O Espelho. A protagonista é
uma menina pequena que, esquecida pela mãe na escola, decide voltar
para casa sozinha. Ela vai pedindo ajuda a estranhos, mas ninguém
lhe dá atenção. É uma maneira de comentar
quanto o país, um dos regimes islâmicos mais rigorosos do
mundo, está desatento às novas gerações. Mas
uma reviravolta metalingüística no meio do filme revela que
os jovens iranianos têm opiniões mais fortes do que se acredita
e já começaram a escolher um caminho mais independente para
suas vidas. Sem que o espectador espere, a menina enfatiza ser apenas
uma atriz, que interpreta o papel de uma garotinha perdida. Ela interrompe
a filmagem e diz que não mais fará a personagem, porque
não quer ser vista pelos amiguinhos como uma tonta. Reclama inclusive
do gesso falso que puseram em seu braço: "Não sou uma desastrada
e sei me cuidar", declara. O discreto processo de abertura por que passa
o Irã mostra que Panahi acertou em cheio no seu diagnóstico.
Christophe L.

Meu
Filho, o Fanático: gerações
em conflito |
Meu Filho, o Fanático (My Son the Fanatic, Inglaterra,
1997. Paris) O choque cultural entre Islã e Ocidente é
o tema dessa produção do cineasta Udayan Prasad, sobre uma
família de paquistaneses estabelecidos na Inglaterra. O dado curioso
é que, aqui, a nova geração é que se mostra
mais radical na adesão aos princípios muçulmanos.
Sua história é simples: o motorista de táxi Parvez
(interpretado pelo excelente ator indiano Om Puri) recebe a notícia
de que seu filho rompeu o noivado com uma moça inglesa de família
próspera. Ao buscar uma explicação para o fato, ele
se dá conta de que o rapaz está febrilmente envolvido com
um movimento extremista. Não só passou a repudiar todos
os valores que aprendeu em casa, por julgar que contrariam os fundamentos
de sua fé, como está disposto a participar de ações
violentas em nome dela. No centro do conflito estão ainda a amizade
cada vez mais estreita do pai com uma prostituta e a insistência
do filho em instalar um mulá, um líder religioso islâmico,
sob o teto paterno. Muito bem construído, o filme consegue atacar
duas questões complexas ao mesmo tempo. Por um lado, mostra quão
irracional é o fanatismo. Por outro, revela como indivíduos
cronicamente vitimados pelo preconceito o caso de Parvez e sua
família podem enxergar nele uma saída.
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