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O filme é
uma bomba
O
ataque a Pearl Harbor fez a América
chorar
de tristeza. Pearl Harbor, a fita,
faz chorar de tão ruim
Isabela Boscov
Fotos divulgação
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| Na
foto maior, aviões japoneses virtuais bombardeiam Pearl Harbor. Abaixo,
Affleck, Kate e Hartnett, que formam o triângulo amoroso do enredo |
Ainda
de ressaca depois de uma noite de briga e bebedeira, o marinheiro Finn
Askildsen acordou, olhou por uma escotilha, viu o couraçado USS
Arizona ir pelos ares e correu para seu posto. Um avião japonês
passou tão perto de sua cabeça que Askildsen enxergou um
dente de ouro no sorriso do piloto inimigo, conforme contou há
poucas semanas, aos 82 anos, à revista Newsweek. Seu relato
do bombardeio de Pearl Harbor é emocionante bem mais do
que o filme feito sobre esse momento decisivo da II Guerra, Pearl
Harbor (Estados Unidos, 2001), que estréia nesta sexta-feira
no país. Tudo em Pearl Harbor é grandioso, do orçamento
ao tédio que ele provoca. Esse defeito estrutural é surpreendente,
quando se levam em conta a dramaticidade do evento que deixou 2.323
mortos em menos de duas horas e as suas conseqüências.
Foi por causa desse ataque-surpresa dos japoneses contra os americanos,
em 7 de dezembro de 1941, que os Estados Unidos se lançaram na
guerra.
Pearl Harbor,
no Havaí, sediava a frota americana do Pacífico e era uma
base naval tranqüila. Oferecia clima ameno e pouca confusão.
A guerra ainda se concentrava na Europa e os americanos subestimavam a
política expansionista e a capacidade militar dos japoneses. Esses,
por sua vez, juravam ter intenções pacíficas. Por
todos esses motivos, o comando local de Pearl Harbor relaxou o estado
de alerta, o que contribuiu para que o ataque fosse arrasador. Era domingo
e a soldadesca estava sonolenta. Havia indícios de problemas, mas
eles foram ignorados. Às 6h30 da manhã, um destróier
americano localizou um submarino suspeito e o torpedeou mas nenhum
alarme foi acionado. Meia hora depois, o radar captou sinais de uma aproximação
aérea. Achou-se que eram bombardeiros americanos em treinamento
e o aviso não foi passado adiante. Os mais de 350 aviões
japoneses golpearam Pearl Harbor em completa surpresa, e com força
total, às 7h55 da manhã. Dezenas de navios foram afundados.
O Arizona levantou da água quando uma bomba atingiu seu
depósito de munição e foi a pique tragando 1.177
dos seus marinheiros. Quase 190 das aeronaves americanas foram destruídas.
Das restantes, pouquíssimas deixaram o chão. Ou seja: os
americanos sofreram essa agressão praticamente sem reagir. Pela
covardia do ataque a uma frota ancorada, o presidente Franklin Roosevelt,
num célebre discurso ao Congresso, disse que o 7 de dezembro era
"um dia que viveria na infâmia".
Havia quase
um ano que os japoneses planejavam o ataque. Na última década,
suas relações com os Estados Unidos vinham se deteriorando.
Liquidar o poderio americano no Pacífico era crucial para seu plano
de conquista do Sudeste Asiático. Finalmente, em julho de 1941,
o Japão invadiu a Indochina e os Estados Unidos embargaram seus
suprimentos de petróleo, ocasionando uma crise. Em 26 de novembro,
a armada japonesa partiu rumo a Pearl Harbor. Eram seis porta-aviões
e vários navios e submarinos. Seguiram uma rota bem mais ao norte
dos trajetos corriqueiros e se aproveitaram ainda da baixa visibilidade
proporcionada pelo tempo ruim.
A seqüência
do ataque é o ponto forte de Pearl Harbor. Mas até
ela merece reparos. Muitos dos aviões e navios e até a água
foram criados em computador. O excesso de efeitos digitais rouba realismo
às cenas. Pior: a invasão vem ensanduichada por um romance
de fazer disparar a glicemia. Ben Affleck e o novato Josh Hartnett vivem
amigos de infância e ases da aviação que, adivinhe,
se apaixonam pela mesma mulher, a enfermeira Evelyn (Kate Beckinsale).
Tudo é fotografado naquele estilo de comercial de cartão
de crédito, típico do diretor Michael Bay e do produtor
Jerry Bruckheimer parceiros também em A Rocha e Armageddon.
A idéia da dupla, evidentemente, era imitar a combinação
de épico, romance e tragédia que transformou Titanic
numa máquina de dinheiro. Erraram a mão. Não que
Pearl Harbor não vá fazer boa bilheteria. A alta
concentração de bandeiras tremulantes deve emocionar o público
americano, enquanto as platéias que vivem sob outros pavilhões
talvez se distraiam com as cenas chinfrins de ação. Para
o estúdio, é vital que o filme agrade. Pearl Harbor
custou 140 milhões de dólares, mas tanto se investiu na
sua comercialização e divulgação que ele terá
de render 400 milhões até que comece a dar lucro.
Pearl
Harbor é razoavelmente fiel aos fatos. Para que o filme não
terminasse na nota depressiva da invasão, os roteiristas incluíram
no roteiro outro episódio importante. Em abril de 1942, o coronel
James Doolittle comandou a retaliação americana a Pearl
Harbor: um bombardeio aéreo a Tóquio. Não atingiu
nenhum centro vital. Mas valeu pelo efeito moral, já que o Japão
se julgava inexpugnável. Mais proveitoso do que ver o filme, no
entanto, é assistir ao documentário Pearl Harbor:
Legado do Ataque, que o canal por assinatura National Geographic
exibe neste domingo, às 21 horas. Com a participação
de historiadores e do explorador Robert Ballard (veja
entrevista), além de muitas imagens da época,
ele dá uma visão bem mais abrangente dos acontecimentos
de 7 de dezembro de 1941. Sem falar que os depoimentos dos sobreviventes
são infinitamente mais comoventes que a atuação do
canastríssimo Ben Affleck.
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