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A doença do imprevisto
A esclerose múltipla, uma patologia degenerativa que afeta principalmente pessoas com idade entre 20 e 40 anos, muitas vezes é confundida com stress; diagnóstico precoce é fundamental para manter a qualidade de vida do paciente
por Luciana Christante
[continuação]

FOGO AMIGO
Para entender por que a mielina dessas pessoas se degenera é preciso deixar os limites do sistema nervoso central e adentrar num terreno tão ou mais desafiador: o sistema imunológico. A esclerose múltipla é uma doença de origem auto-imune, assim como a artrite reumatóide, o lúpus, a psoríase, entre outras. Por uma falha genética, o bombardeio imunológico dirigido a um agente externo (um vírus ou uma bactéria) acaba inadvertidamente atacando alguma parte do corpo – uma espécie de “fogo amigo”. Na artrite reumatóide, o alvo equivocado são as articulações; na psoríase, a pele; na esclerose múltipla, a mielina (apenas a do sistema nervoso central, nervos periféricos não são afetados). Os mecanismos celulares que resultam nesse ataque são extremamente complexos, razão pela qual a grande maioria das doenças auto-imunes é difícil de tratar e impossível de curar.

Os pesquisadores já conhecem algumas variações genéticas relacionadas à esclerose múltipla. Diversos genes estão envolvidos, quase todos localizados numa região do cromossomo 6 conhecida como complexo maior de histocompatibilidade. Ali são codificadas proteínas da membrana celular que o sistema imunológico utiliza para reconhecer o que é próprio e o que é estranho ao organismo. De forma geral, essas variações genéticas são mais comuns na população caucasiana e mais raras em pessoas com ascendência asiática, indígena ou africana. Mas apesar deste forte componente genético, a doença não é hereditária, pois fatores ambientais também são decisivos para seu aparecimento.

A prevalência da esclerose múltipla no Brasil é relativamente baixa e varia de região para região. Estudos epidemiológicos indicam que no nordeste existem cerca de três portadores a cada 00 mil habitantes, já no sudeste esse úmero aumenta seis vezes (estima-se cerca de 35 mil portadores no aís). As revalências mais altas do mundo são encontradas no Canadá e nas nações escandinavas: em torno de 80 pacientes cada 100 mil habitantes. Além do fato e a população desses países ser quase toda caucasiana (enquanto no Brasil impera a miscigenação), essa disparidade geográfica também é fortemente influenciada pela luz solar.

A exposição à luz ultravioleta protege as pessoas que têm alguma predisposição genética, porque estimula a síntese de vitamina D3, fundamental na modulação do sistema imunológico nos primeiros anos de vida, particular mente dos linfócitos do tipo TH2. Esta subpopulação de células da linhagem branca do sangue tem função antiinflamatória e, uma vez estimulada, pode compensar a ação pró-inflamatória dos linfócitos TH1, que se encontram hiperativos na esclerose múltipla. São eles que, uma vez deflagrada a doença, atravessam a barreira hemato-encefálica e coordenam o ataque à bainha de mielina. Algumas evidências sugerem ainda um pico de prevalência da doença entre pessoas nascidas no hemisfério norte no mês de maio, o que significa que a gestação transcorreu durante o inverno, quando as noites são mais longas e os dias menos ensolarados.
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Luciana Christante é farmacêutica e jornalista científica.