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A doença do imprevisto
A esclerose múltipla, uma patologia degenerativa que afeta principalmente pessoas com idade entre 20 e 40 anos, muitas vezes é confundida com stress; diagnóstico precoce é fundamental para manter a qualidade de vida do paciente
por Luciana Christante
[continuação]

Segundo o neurologista Dagoberto Calegaro, presidente do Comitê Brasileiro de Tratamento e Pesquisa em Esclerose Múltipla (BCTRI MS, na sigla em inglês), a alimentação rica em vitamina D3 – como a gordura animal, particularmente de peixes – exerce proteção semelhante. “Aquela antiga prática de dar óleo de fígado de bacalhau às crianças tinha lá seu fundamento”, diz. A ingestão desse nutriente explica ainda por que há menos casos da doença no norte da Noruega (região pesqueira, menos exposta aos raios ultravioleta) do que no sul.

Os países do hemisfério norte também têm mais casos de esclerose múltipla – e de várias outras doenças auto-imunes – por uma razão socioeconômica. Ironicamente, a prevalência destes distúrbios diminui quanto piores forem as condições de higiene. Segundo a hipótese, quanto mais infecções uma pessoa contrai nos primeiros anos de vida, mais protegida fica contra doenças auto-imunes na idade adulta – raciocínio que também se aplica às alergias. No caso da esclerose múltipla, evidências mostram que a infestação por parasitas na infância diminui o risco de desenvolver o distúrbio. Segundo Calegaro, estudos sugerem também uma associação entre parasitismo intestinal e menor ocorrência de surtos da doença, já que as parasitoses, assim como a vitamina D3, estimulam os linfócitos TH2.

Nessa gangorra em que de um lado está a predisposição genética e, de outro, os fatores ambientais, o gatilho que deflagra a patologia é uma infecção sobre a qual ainda se sabe muito pouco. Suspeita-se da ação do vírus Epstein-Barr, associado a grande número de doenças, incluindo alguns tipos de câncer. Esse microorganismo é amplamente difundido na natureza e até 80% da população adulta apresenta anticorpos contra ele, o que quer dizer que já foram infectados, na maioria das vezes de forma assintomática.

Uma vez diagnosticada a esclerose múltipla, o desafio dos neurologistas é prevenir novos surtos. Nos últimos 15 anos isso tem sido feito com medicamentos imunomoduladores que visam atenuar o processo inflamatório subjacente e impedem a ocorrência dos sintomas em até 40%. Existem quatro remédios disponíveis no mercado, todos muito caros – o tratamento pode custar até R$ 40 mil por ano. A maioria dos pacientes os recebe gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), embora problemas de distribuição não sejam raros em muitos locais. Segundo Maria Cristina Giácomo, os quatro imunomoduladores são bastante semelhantes em termos de eficácia, mas a resposta do paciente, os efeitos colaterais e a adaptação ao esquema de injeções (que pode variar de semanal a três vezes por semana) são os fatores que vão definir qual o melhor remédio para cada um – o que, obviamente, implica um determinado período de tentativa e erro. Quando os surtos são inevitáveis, são necessárias drogas antiinflamatórias (corticóides) ou imunossupressoras (como as usadas em transplantados).
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Luciana Christante é farmacêutica e jornalista científica.