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edição 167 - Dezembro 2006
A literatura e suas famílias
por Moacyr Scliar
Os arranjos familiares, especialmente os infelizes, estão no centro de grandes romances dos séculos XIX e XX, como Irmãos Karamazov e Vinhas da Ira.

Relações familiares são tema constante na literatura. Mais que isso, famílias freqüentemente representam um microcosmo que reflete uma época. Grandes épicos nasceram assim, sobretudo no século XIX e início do século XX, quando o romance chegou a seu apogeu: as pessoas liam as obras de ficcionistas famosos para aprender sobre o mundo.

Romancistas não eram apenas literatos; eles voltaram-se para sociologia, antropologia e psicologia quando essas ciências estavam apenas engatinhando. Seus textos eram caudalosos; romances em três ou quatro volumes eram muito comuns. E as famílias que retratavam nem sempre representavam o modelo feliz que a gente encontra na publicidade da TV.

Na verdade isto servia aos propósitos da literatura. Como disse Leon Tolstoi em Ana Karenina, todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Da infelicidade brotava pois a melhor, a mais original ficção.
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Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.