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edição 202 - Novembro 2009
A molécula da sobrevivência
Aos 100 anos, ganhadora do nobel de medicina pela descoberta do fator de crescimento neural (ngf) mantém fundação que incentiva o trabalho de mulheres cientistas na África
 
martin schweig/biblioteca nacional de medicina, bethesda
A primeira vez que vi de perto a cientista italiana Rita Levi-Montalcini, ganhadora do prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia, em 1986 – e hoje com um século de idade, completado em 22 de abril desse ano – ela tinha 81 anos. Delicada e elegante, na ocasião recebia uma placa em sua homenagem, que atualmente adorna o anfiteatro do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A admiração transparecia no semblante dos cientistas ali reunidos. Afinal, essa mulher trilhou um duro caminho, pesquisando em locais escondidos, como laboratórios caseiros improvisados, fugindo da perseguição nazista aos judeus em sua terra natal nos fatídicos anos 30 e 40.

Nesse período, conheceu na Itália uma pesquisadora alemã também perseguida pelo nazismo, Hertha Meyer, que se tornou referência no Brasil ao introduzir a cultura de tecidos e desenvolvendo projetos no Instituto de Biofísica da então Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. A amizade das duas resultou na primeira imagem de um gânglio do sistema nervoso periférico cultivado em placa de vidro usando para isto um meio de cultura de um tumor, o sarcoma – feita no laboratório carioca em 1952. Emblemática do trabalho de Rita, a imagem assemelhava-se a um sol brilhando. Mostrava o gânglio irradiando de seu centro os axônios, prolongamentos de neurônios que levam a informação elétrica para outras células neurais. Revelava que as células tumorais produziam “algo misterioso”, fazendo com que neurônios expandissem seus axônios, partindo do gânglio.

Mais que isso, a cientista mostrou que os neurônios do gânglio da raiz dorsal (responsável por transformar e enviar informações sensoriais para o sistema nervoso central) dependiam desse recurso para se manter vivos. Caso o derivado de sarcoma fosse substituído por meio de cultivo comum, resultava na morte de todos os neurônios do gânglio. A característica responsável por esse efeito foi chamada de fator de crescimento neural, nerve growth factor (NGF na sigla, em inglês). Foi a primeira molécula com efeito na sobrevivência e crescimento de neurônios – isolada in vitro e, mais tarde, clonada.

No início do século passado, embriologistas utilizavam em seus experimentos salamandras ou rãs, capazes de regenerar membros inteiros. A retirada ou implantação de um membro em embriões desses animais levava à diminuição ou aumento na população de neurônios sensoriais que inervava aquele membro, experimento no qual se notabilizou o embriologista alemão Viktor Hamburger (1900-2001), radicado nos Estados Unidos. Naquela época, o cerne do problema na embriologia se concentrava nas descobertas de que os neurônios de gânglios sensoriais ou motores da medula espinhal podiam ser modificados caso seu alvo de conexão mudasse.
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