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A neurocirurgia para aliviar a tristeza sem objeto

Embora a maioria das pessoas com depressão se beneficie de psicoterapia associada a medicações ou até apenas da psicoterapia, existe um pequeno percentual de pacientes que não responde a nenhuma intervenção convencional

setembro de 2017
Gláucia Leal
SHUTTERSTOCK

Conheci Clara no saguão de um hotel onde estive hospedada na China. Ela chorava desolada, sentada numa poltrona, quando uma conhecida pediu que eu me aproximasse da mulher. “Você é psicóloga, fala com ela”, insistiu. Eu me apresentei, perguntei se poderia ajudar. “Não tem o que fazer, eu só tenho vontade de morrer.” Indaguei se poderia ficar sentada ao seu lado e ela fez um gesto mínimo, de consentimento, desses que a gente percebe mais facilmente graças a anos a fio de escuta na clínica. Após um período em silêncio, lado a lado, Clara, uma italiana de 49 anos, me contou em um espanhol fluente (língua de seus pais), entrecortado por soluços e pausas, em que parecia arrebanhar forças para continuar a saga vivida nos últimos  25 anos. Desde jovem enfrentava uma depressão persistente, diagnosticada inúmeras vezes por diversos profissionais da área da saúde mental.  Contou que os remédios não faziam efeito por mais que insistisse em manter a medicação prescrita pelos neurologistas e psiquiatras. Tentara psicoterapia, terapias alternativas, exercício físico e passara por duas internações.  A meditação a acalmava e aquela viagem pela Ásia com um grupo de amigos era mais uma tentativa de lidar com seus medos, inseguranças e profundo desânimo. Ainda assim, em momentos como aquele que precedera nosso encontro, a angústia a assaltava de repente. Clara me falou do companheiro de 13 anos, tão paciente, mas que andava tenso por não saber mais como ajudá-la, e do quanto ela não se sentia em condições de compartilhar a responsabilidade pelo comércio que mantinham juntos. Depreciava-se e sentia-se culpada por não conseguir desfrutar do que sabia – pelo menos racionalmente – haver de bom em sua vida. Ainda nos encontramos algumas vezes e em certos momentos Clara sorria, mais tranquila, equilibrada; em outros, parecia que uma sombra a rondava. Quando nos despedimos, ela agradeceu a companhia e me confidenciou: “Faria qualquer coisa para encontrar o tratamento certo, que me salvasse dessa dor.” Embora tenha ouvido tantas pessoas em situação semelhante no consultório, o sofrimento de Clara me impressionou pela duração – quase três décadas é tempo demais para viver com uma sensação profunda de tristeza, desinteresse pelas tarefas cotidianas, sensação de culpa e inutilidade, entrecortada por curtos períodos de calmaria, em que algum tratamento se mostrava inicialmente eficiente, para logo ser surpreendida pela persistência dos sintomas. 

Embora a maioria das pessoas com depressão se beneficie de psicoterapia associada a medicações ou até apenas da psicoterapia, existe um pequeno percentual de pacientes que não responde a nenhuma intervenção convencional. Clara está entre os milhões de seres humanos em todo o mundo que não respondem a intervenções para aliviar o desconforto psíquico. É para esses pacientes que os cientistas Helen Mayberg e Andres Lozano, autores do texto de capa desta edição, desenvolveram uma neurocirurgia para tratar a depressão refratária por meio do implante de eletrodos de estimulação cerebral profunda. A técnica, que ainda deve ser bastante estudada nos próximos anos, já tem sido utilizada em vários hospitais. Certamente não é primeira opção terapêutica para a depressão, considerando o quanto é invasiva – mas pode ajudar pessoas como Clara a recobrar a autonomia sobre sua própria vida. 

Gláucia Leal, editora-chefe. 


Este artigo foi publicado originalmente na edição de setmebro de Mente e Cérebro disponível: ImpressaAndroidIOS e WEB

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