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edição 158 - Março 2006
A porta de saída
Ciência e religião aproximam-se nos relatos de experiências de quase-morte: visões luminosas, desconexão mente-corpo e retrospecto da própria vida
por Sidarta Ribeiro
Se para morrer basta estar vivo, a certeza de coisa tão incerta pode ser insuportável. Talvez por isso a crença na vida após a morte seja pilar de tantas religiões importantes. No cristianismo e no islã, a morte é seguida de uma nova vida, eterna e roteirizada conforme a somatória dos acertos e erros do defunto. Sofre-se no inferno a retribuição pelas maldades praticadas, assim como a recompensa da generosidade é o céu. Já na umbanda, no espiritismo e no hinduísmo, acredita-se num ciclo de reencarnações em que cada nova existência é afetada pelos atos cometidos na vida precedente.

E o que pensa a ciência sobre a vida após a morte? A bem da verdade, nada. É decomposição bioquímica, simplesmente. A vida é uma só e quando termina é para sempre. As diferentes concepções religiosas? Noções arcanas e supersticiosas, criadas para pacificar a fera humana e dominar o medo do fim. O além é apenas um grande escuro total, e ponto final.

Uma síntese entre posições tão distintas talvez tenha raiz no fenômeno da quase-morte, relativamente comum em pacientes ressuscitados [Van Lomell et al. (2001), Lancet 358:2039]. A experiência subjetiva de quem quase foi mas voltou para contar a história varia conforme os valores e expectativas dominantes de cada cultura [Kellehear (1993), J. Nerv.
Ment. Dis. 181:148]. Os relatos incluem euforia, desconexão mente-corpo, retrospecto panôramico da própria vida, encontro com pessoas queridas já falecidas, um túnel com saída luminosa e a passagem para um mundo fantástico [Greyson & Stevenson (1980), Amer. J. Psych., 137:1193].
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Sidarta Ribeiro é Ph.D. em neurobiologia pela Universidade Rockefeller e pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN). Fez pós-doutorado na Universidade Duke (2000-2005) investigando as bases moleculares e celulares do sono e dos sonhos e o papel de ambos no aprendizado.