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Artigos |
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| edição 180 - Janeiro 2008 |
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| A sociedade 24 horas |
| Enquanto a maioria dorme, outros permanecem acordados para manter a produção e os serviços operando. Além de prejudicar a saúde física e mental de quem trabalha à noite, a inversão de horários expõe todos a um risco maior de acidentes |
| por Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg |
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© LESTER LEFKOWITZ/CORBIS – LATINSTOCK |
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“A claridade do dia me incomoda, o barulho me impede de ter um sono tranqüilo e o tempo de descanso é muito curto.” A frase é de uma mulher de 45 anos que passa muitas noites em claro, não por insônia nem por diversão, mas porque é auxiliar de enfermagem de um hospital. Seu depoimento ilustra as dificuldades de quem trabalha à noite, em turnos regulares ou não. A maioria da população não tem idéia do que é isso, e não se lembra de que, todas as noites, um grande número de pessoas trabalha para manter funcionando o atendimento de saúde, o tratamento de água e esgoto, a produção de energia, as telecomunicações, a segurança pública, o recolhimento do lixo, o transporte de cargas, a extração de petróleo, a produção de alimentos, as lojas de conveniência, as portarias dos edifícios – a lista é enorme.
Poderíamos prescindir da produção e das atividades ininterruptas disponíveis 24 horas por dia? Apesar de ser uma tendência relativamente recente, surgida nos últimos dez anos, dificilmente abriríamos mão dessas conveniências. Importante ressaltar, porém, que a despeito dos lucros, o custo da sociedade 24 horas é alto − e não apenas o custo econômico. O trabalho noturno afeta a saúde física e mental dos indivíduos e suas conseqüências podem ser sentidas pela sociedade toda. Alguns exemplos: o acidente nuclear de Chernobyl e a explosão da Challenger, ambos em 1986, e um dos piores vazamentos de petróleo da história, no Alasca em 1989; todos desastres relacionados à privação de sono.
O ser humano dorme à noite não por convenção social, mas porque seu organismo expressa ritmos que são resultado de um longo processo de adaptação de nossa espécie ao ciclo ambiental claro-escuro do planeta Terra. A inversão dos horários de atividade e de repouso que o trabalho noturno impõe nunca é bem-sucedida do ponto de vista fisiológico e está relacionada a uma ampla gama de problemas de saúde: transtornos digestivos, cardiovasculares, reprodutivos, além dos mais óbvios, que são os distúrbios de sono. |
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| Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg Claudia Roberta de Castro Moreno e Frida Marina Fischer são biólogas e professoras da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Lúcia Rotenberg, também bióloga, é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. As três se dedicam ao estudo das conseqüências físicas, mentais e sociais do trabalho noturno e em turnos e organizaram o livro Trabalho em turnos e noturno na sociedade 24 horas (Atheneu, 2003). |
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