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edição 180 - Janeiro 2008
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A sociedade 24 horas
Enquanto a maioria dorme, outros permanecem acordados para manter a produção e os serviços operando. Além de prejudicar a saúde física e mental de quem trabalha à noite, a inversão de horários expõe todos a um risco maior de acidentes
por Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg
© DREAMSTIME
MULHERES SOFREM MAIS com trabalho noturno: tolerância à inversão de turnos depende de características pessoais
[continuação]

RITMOS DESAJUSTADOS
A síndrome metabólica (caracterizada por obesidade abdominal, resistência à insulina e um conjunto de fatores de risco cardiovascular) é mais comum nas pessoas que, por causa do trabalho, trocam o dia pela noite. Uma revisão recente feita pelo pesquisador Anders Knutsson, da Universidade de Umea, Suécia, sugere que o risco de câncer de mama é maior em mulheres que trabalham no turno da noite.

No entanto, como não poderia deixar de ser, as queixas mais comuns dessas pessoas são os distúrbios do sono. Afinal, dormir de dia − enquanto o mundo está acordado e fazendo barulho − não é a mesma coisa. Diversos estudos mostram que além de a duração do sono dos trabalhadores noturnos ser menor, sua qualidade é pior. De forma geral, eles sofrem de privação crônica de sono e as conseqüências são déficit cognitivo e motor, alterações de humor que podem levar a depressão, fadiga crônica, baixos níveis de alerta e aumento do risco de acidentes. Agora pense nas possíveis conseqüências da combinação de todos esses fatores em um motorista de caminhão que dirige na mesma estrada que você ou em um médico que pode atendê-lo em um pronto-socorro.

Além de ter a saúde afetada, quem trabalha à noite está mais exposto a problemas de ordem psicossocial, já que seu cotidiano é muito diferente do de sua família e da comunidade em que está inserido. O desencontro de horários tende a restringir as oportunidades de interação social. As dificuldades se agravam no caso dos turnos irregulares, como são os de motoristas de caminhão que fazem viagens interestaduais. Como dependem da oferta de carga e das demandas de entrega, eles costumam trabalhar sem escalas predeterminadas e com jornadas extenuantes. Nos longos trajetos, passam muito tempo longe da família e dos amigos. Efeitos negativos nas relações sociofamiliares também são muito comuns em pilotos, comissários de bordo e controladores de vôos.

Segundo dois dos maiores especialistas no assunto, o americano Timothy Monk, da Universidade de Pittsburgh, e o britânico Simon Folkard, da Universidade de Swansea, Reino Unido, o trabalho noturno interfere em três aspectos da vida familiar: no cuidado doméstico − que afeta principalmente as mulheres, pois a sociedade espera mais delas esse tipo de responsabilidade; na interação social − que por razões culturais tende a acontecer à noite e nos fins de semana; e nas relações sexuais − porque durante o dia dificilmente o cônjuge está disponível, além de as crianças estarem acordadas. A mulher sofre mais com o trabalho noturno, já que a dupla jornada dificulta a reorganização de sua rotina diurna, especialmente se ela tem filhos. As atividades domésticas e o cuidado com as crianças quase sempre têm prioridade em relação às necessidades de sono.
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Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg Claudia Roberta de Castro Moreno e Frida Marina Fischer são biólogas e professoras da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Lúcia Rotenberg, também bióloga, é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. As três se dedicam ao estudo das conseqüências físicas, mentais e sociais do trabalho noturno e em turnos e organizaram o livro Trabalho em turnos e noturno na sociedade 24 horas (Atheneu, 2003).