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edição 180 - Janeiro 2008
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A sociedade 24 horas
Enquanto a maioria dorme, outros permanecem acordados para manter a produção e os serviços operando. Além de prejudicar a saúde física e mental de quem trabalha à noite, a inversão de horários expõe todos a um risco maior de acidentes
por Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg
© STOCK.XCHNG
NOITE EM SÃO PAULO: inversão de horários tem custo para a saúde individual e para a sociedade
[continuação]

É possível adaptar-se ao trabalho noturno? Embora algumas pessoas digam que sim, na verdade não se trata exatamente de uma adaptação, mas de diferentes percepções das conseqüências desse “estilo de vida”, o que resulta numa tolerância extremamente variável entre os indivíduos. Estudos mostram que a tolerância é influenciada por fatores intrínsecos (idade, sexo, estado de saúde, traços de personalidade, características relacionadas aos ritmos biológicos, como matutinidade e vespertinidade, entre outras) e extrínsecos (condições de moradia, satisfação com o trabalho, características do sistema de turnos, conciliação da vida pessoal com horários de folga etc.).

Dado o número de variáveis que interferem na tolerância ao trabalho noturno, não há como prever quais pessoas serão mais ou menos tolerantes e que estratégias serão mais eficientes para combater os prejuízos à saúde e à vida social. O que se nota, entretanto, é que geralmente os problemas tendem a se agravar com o envelhecimento devido a uma desregulação crônica dos ritmos biológicos, o que, além de piorar ainda mais a qualidade do sono, propicia o desenvolvimento de doenças. É por isso que a avaliação médica periódica é especialmente importante nessa população, de modo a detectar precocemente os sintomas de intolerância, como problemas digestivos e reprodutivos, consumo elevado de medicamentos (especialmente estimulantes), depressão, distúrbios de sono e acidentes.

MAIS FOLGAS
Infelizmente não há solução para os problemas causados pelo trabalho noturno e em turnos, apenas recomendações que podem reduzir seus efeitos nocivos na saúde física e psíquica. Entretanto, cada tipo de turno apresenta vantagens e desvantagens, de forma que cada situação específica merece uma análise detalhada; isto é, não há receitas prontas. Aumentar o número de folgas, regulamentar a aposentadoria precoce ou a transferência para turnos diurnos, por exemplo, são algumas formas de amenizar os problemas. Pesquisas mostram que o número de noites consecutivas trabalhadas deve ser o menor possível. A cada seqüência de jornadas noturnas, são necessários ao menos dois dias de folga, já que as primeiras 24 horas após a última noite de trabalho geralmente são usadas para o descanso em vez do lazer. O ideal é que as folgas sejam aos finais de semana e não inferiores a 11 horas. Uma tendência crescente nas empresas é a adoção de esquemas mais flexíveis, com jornadas diárias de duração variável, horários personalizados, alternância entre meio-período e período integral e transferência temporária para o turno diurno. Além dos benefícios para o trabalhador, tais medidas também são vantajosas para as empresas, que acabam registrando número menor de acidentes e de ausências por motivo de saúde; logo, a produtividade aumenta.
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Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg Claudia Roberta de Castro Moreno e Frida Marina Fischer são biólogas e professoras da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Lúcia Rotenberg, também bióloga, é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. As três se dedicam ao estudo das conseqüências físicas, mentais e sociais do trabalho noturno e em turnos e organizaram o livro Trabalho em turnos e noturno na sociedade 24 horas (Atheneu, 2003).