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edição 180 - Janeiro 2008
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A sociedade 24 horas
Enquanto a maioria dorme, outros permanecem acordados para manter a produção e os serviços operando. Além de prejudicar a saúde física e mental de quem trabalha à noite, a inversão de horários expõe todos a um risco maior de acidentes
por Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg
© SHAUN LOWE/ISTOCKPHOTO
PESQUISA COM 10 mil motoristas de caminhão: riscos para a segurança
[continuação]

MELATONINA E FOTOTERAPIA
Dois tipos de intervenção vêm sendo investigados para promover o ajuste dos ritmos biológicos ao trabalho noturno na tentativa de minimizar suas conseqüências para a saúde pública. Um deles é a administração oral de melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal, localizada entre os dois hemisférios cerebrais. A melatonina está diretamente ligada à regulação do ciclo vigília-sono, e a luz que incide na retina inibe sua secreção. Diversas pesquisas indicam que, se administrado em determinados horários, esse hormônio pode melhorar a qualidade do sono diurno e diminuir a sonolência durante a vigília, facilitando a adaptação das pessoas ao trabalho noturno.

Outra possibilidade em estudo é fototerapia, isto é, a exposição a fontes de luz de alta intensidade, a chamada luz intensa ou bright light. De forma bem resumida, funciona assim: a exposição à luz forte em certos horários modifica a resposta do organismo ao ciclo claro-escuro, encurtando ou prolongando o dia ou a noite “internos”. Os cientistas estão tentando descobrir quais intensidades de luz, comprimentos de onda, duração e horários são mais adequados para produzir efeitos positivos na qualidade do sono dos trabalhadores. Algumas pesquisas indicam que a exposição à luz intensa durante o horário de trabalho aumenta os níveis de alerta durante a madrugada. É possível que a fototerapia seja adotada por grandes empresas num futuro não muito distante.

A atividade física parece ser também uma boa estratégia para melhorar a tolerância ao trabalho noturno, como indicam as pesquisas realizadas por Mikko Härma, do Instituto de Saúde Ocupacional de Helsinque, Finlândia. Em um dos estudos, 150 enfermeiras participaram de um programa de condicionamento físico moderado, com duração de quatro meses, que incluiu corrida, natação, ginástica e caminhada, de duas a seis vezes por semana. Quando comparadas ao grupo controle, elas se sentiram menos cansadas e sonolentas, sem contar os benefícios musculares e cardiorrespiratórios.

Resultado semelhante foi obtido por uma de nós (Claudia Roberta de Castro Moreno) num estudo com mais de 10 mil motoristas de caminhão. O exercício físico, regular ou ocasional, foi um fator de proteção contra a apnéia obstrutiva do sono, um dos distúrbios do sono mais comuns nessa população.

A remuneração extra é o principal atrativo do trabalho noturno, mas vale lembrar que ela reflete o reconhecimento dos efeitos nocivos do trabalho nesse horário. Nem uma coisa nem outra ajudam as pessoas a dormir melhor e a lidar com os desafios psicossociais a que estão expostas, nem diminuem os riscos de acidentes que muitas vezes ameaçam toda a sociedade. Por isso há um consenso entre os pesquisadores da área de que as ações relacionadas ao trabalho em turno não podem se restringir a uma simples questão monetária. A privação de sono decorrente da sociedade 24 horas tem um preço ainda mais alto do ponto de vista social e da saúde pública.
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Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg Claudia Roberta de Castro Moreno e Frida Marina Fischer são biólogas e professoras da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Lúcia Rotenberg, também bióloga, é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. As três se dedicam ao estudo das conseqüências físicas, mentais e sociais do trabalho noturno e em turnos e organizaram o livro Trabalho em turnos e noturno na sociedade 24 horas (Atheneu, 2003).