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Artigos |
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| edição 180 - Janeiro 2008 |
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| A sociedade 24 horas |
| Enquanto a maioria dorme, outros permanecem acordados para manter a produção e os serviços operando. Além de prejudicar a saúde física e mental de quem trabalha à noite, a inversão de horários expõe todos a um risco maior de acidentes |
| por Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg |
| TRAGÉDIA NUM PISCAR DE OLHOS |
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© CHRIS WILKINS/AFP / RIA NOVOSTI/TOPFOTO – KEYSTONE |
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Pouco antes da 1 hora da madrugada de 25 de março de 1989, o petroleiro Exxon Valdez, da empresa americana Exxon, bateu num recife da costa do Alasca e derramou no oceano mais de 200 milhões de litros de petróleo. As investigações de um dos mais trágicos acidentes ecológicos de todos os tempos revelaram que a tripulação estava submetida a jornadas diárias de trabalho de 12 a 14 horas e turnos inadequados. As queixas de fadiga e sonolência eram comuns. No dia do acidente, o terceiro ofi cial, que estava no comando do navio, cochilou em serviço. O valor astronômico da multa paga na época pela empresa jamais compensará os prejuízos ambientais ainda observados na região 17 anos depois, como mostra estudo publicado em 2006 na revista da Sociedade Americana de Química.
No desastre nuclear de Chernobyl, Ucrânia, ocorrido em abril de 1986, os mesmos fatores estavam em jogo: longas jornadas de trabalho em turnos, privação de sono, sonolência excessiva; mas foram agravados pela pressão do governo para completar uma série de testes dentro de determinados prazos. Para “ganhar tempo”, os procedimentos foram programados para a madrugada e, curiosamente, ninguém questionou o desligamento de vários sistemas de segurança. O superaquecimento do reator foi constatado por volta da 1h30. Na tentativa de religar os sistemas de segurança, os sonolentos operadores cometeram um erro fatal: desligaram o resfriamento de emergência. A explosão espalhou lixo radioativo por mais de 3 mil km2. Cinco anos depois do acidente, a expectativa de vida dos ucranianos despencou de 74,5 anos para 63,3 anos.
Três meses antes de Chernobyl, o ônibus espacial Challenger explodiu menos de dois minutos depois de deixar o solo, matando toda a tripulação. A causa do acidente foi amplamente noticiada: um defeito numa peça do tanque de combustível − problema que, aliás, havia sido detectado e aparentemente reparado antes do lançamento. Menos divulgado, porém, foi o fato de não só a equipe de manutenção ter virado a noite para solucionar o problema, como os diretores que autorizaram a partida, a despeito das advertências dos engenheiros da Nasa, terem dormido muito pouco na noite anterior ao desastre. |
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| Claudia Roberta de Castro Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg Claudia Roberta de Castro Moreno e Frida Marina Fischer são biólogas e professoras da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Lúcia Rotenberg, também bióloga, é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. As três se dedicam ao estudo das conseqüências físicas, mentais e sociais do trabalho noturno e em turnos e organizaram o livro Trabalho em turnos e noturno na sociedade 24 horas (Atheneu, 2003). |
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