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Em busca da causa das doenças mentais

Em entrevista para a Mente&Cérebro, a pesquisadora Sabine Bahn, diretora do Centro de Pesquisas Neuropsiquiátricas em Cambridge, conta detalhes sobre sua linha de estudo que investiga as causas de doenças graves como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar

julho de 2010
Steve Ayan
©JURGEN ZIEWE/SHUTTERSTOCK
Mesmo depois de muitos anos de pesquisas para descobrir a real causa de alguns distúrbios mentais, os cientistas ainda não têm certeza da origem de graves doenças como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar. Em entrevista para a Mente&Cérebro, a pesquisadora Sabine Bahn, diretora do Centro de Pesquisas Neuropsiquiátricas em Cambridge, conta detalhes sobre sua linha de estudo que investiga as causas da patologia. Suas pesquisas se baseiam em análises de proteínas, entre outros métodos biomoleculares. Por meio deles ela espera descobrir alterações no cérebro de pessoas com doenças mentais graves.

À primeira vista, o ambiente de trabalho da neuropsiquiatra parece ser exatamente como se imagina um laboratório de biólogos moleculares: uma confusão de cabos e tubos espalhados por todos os lados; aparelhos com nomes impronunciáveis ligados e computadores de última geração zunindo constantemente. Somente em um segundo momento é possível enxergar um ponto de azul-celeste e outro cor-de-rosa brilhando entre os armários. “Quando nos mudamos para cá há cinco anos, mandamos colorir as paredes”, revela Sabine Bahn, diretora do Centro de Pesquisas Neuropsiquiátricas em Cambridge. Sabine nasceu em Freiburg, na Alemanha, mas durante o doutorado passou a trabalhar na “universidade da elite britânica”, como ela mesma diz. Hoje, aos 42 anos a cientista está entre os pesquisadores que trabalham para descobrir novas doenças psiquiátricas. Por meio da análise de proteínas e de outros métodos biomoleculares, Sabine procura biomarcas no cérebro que forneçam informações sobre o surgimento e o desenvolvimento dos transtornos psíquicos.

A dificuldade: nenhuma outra parte do corpo é tão complicada quanto o cérebro. A pesquisa de Sabine, portanto, se assemelha à busca de uma agulha no palheiro – sendo o palheiro, neste caso, composto por milhares de proteínas e metabólitos, mensageiros e cascatas de sinais que se influenciam mutuamente. Veja na entrevista exclusiva à Mente&Cérebro por que ela acredita que suas descobertas podem ser o futuro da neuropsiquiatria.
Mente&CérebroA senhora procura moléculas cerebrais que indiquem distúrbios psiquiátricos. Por que acha que há necessidade de recuperar informações neste caso?
Sabine Bahn – No fundo, nós não sabemos em que consiste a origem de graves transtornos como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar. Nesse terreno, a medicina ainda está tateando. A maioria das descobertas sobre isso nos últimos 20, 30 anos remontam à efetividade de determinados medicamentos que muitas vezes foi descoberta por acaso. Várias substâncias desenvolvidas originalmente para tratar outras doenças modificam também a vivência dos pacientes: elas eliminam a ansiedade, por exemplo, reduzindo as alucinações. Até hoje, na maioria dos casos ainda não se sabe por que isso ocorre. Estou tentando esclarecer as bases moleculares desses distúrbios para que eles possam ser mais bem tratados.

M&C - Trata-se também de melhores diagnósticos?
S.B. - Sim, esse é o outro lado da moeda: os métodos atuais de diagnóstico são insuficientes em muitos quesitos: não se faz, para tanto, muito mais que observar as pessoas, conversar com elas e entregar-lhes questionários. Assim, não ficamos sabendo o que ocorre no cérebro de cada uma delas.

M&C - Na verdade, vários fatores contribuem para o surgimento de transtornos psíquicos. Por que a senhora voltou seus estudos para a biologia molecular?
S.B. - Existe um forte componente genético. No caso de gêmeos univitelinos, geneticamente idênticos, a probabilidade de um deles adoecer quando o outro é esquizofrênico ou bipolar, é de até 50%. O inverso também é verdadeiro, nem todos os que têm a predisposição genética adoecem de fato. A herança genética e o ambiente trabalham juntos nesse caso, e a isso se acresce o fato de que por trás da maioria dos transtornos se escondem provavelmente defeitos em diferentes genes.
M&C - Tudo isso soa como se a química cerebral, o ambiente e o comportamento estivessem entrelaçados demais para que pudéssemos separá-los. É isso mesmo?
S.B. - Bem, ninguém nunca afirmou que isso seria fácil. Mas hoje dispomos de métodos melhores para desvendar os caminhos dos sinais que podem determinar uma doença: da mutação e da leitura da informação genética, passando pelas proteínas resultantes desses processos até a atividade enzimática ou metabólica “patológica” que elas podem causar. Por isso acompanhamos no laboratório vários caminhos ao mesmo tempo. Começamos analisando o tecido cerebral de várias centenas de pacientes falecidos. Nesse caso, não se tratava de um gene ou proteína determinados, mas de perfis globais. Nos exames, registramos as diferenças entre os cérebros de pessoas doentes e saudáveis do grupo-controle. Assim, descobrimos que as mitocôndrias, as usinas produtoras de energia das células neurais, estavam claramente alteradas nos primeiros. Além disso, tanto nos esquizofrênicos quanto em doentes bipolares, a mielinização dos neurônios estava alterada. A mielina forma o isolamento dos axônios que transmitem os sinais nervosos. Essa foi a primeira prova de semelhanças entre os dois transtornos em nível celular.

M&C - Isso se refere à origem dos distúrbios ou apenas às suas consequências comuns?
S.B. - É difícil saber. Por isso é tão urgente esclarecer os mecanismos com exatidão. Se conseguirmos isso, poderemos um dia prevenir doenças possíveis em vez de simplesmente reagirmos terapeuticamente. Essa ideia me fascina.

M&C - E como a senhora age na prática?S.B. - Uma parte de nosso trabalho consiste em procurar relações estatísticas em quantidades gigantescas de dados, correlações entre sintomas de doenças e marcadores moleculares. Nós processamos aproximadamente 20 terabytes de dados por ano. As bases para tanto são amostras de pacientes de diversas idades, principalmente de sangue e líquido cerebrospinal, mas também tecido nervoso de mortos. Junto com Markus Leweke, no Hospital Universitário de Colônia, descobrimos que no líquido cerebrospinal de pacientes esquizofrênicos há baixa quantidade de glicose, lactato e outras substâncias que fazem parte do metabolismo.
M&C - Como isso supostamente ocorre?
S.B.
- O cérebro gasta de 20% a 30% da energia do corpo, apesar de representar cerca de 2% do nosso peso total. O metabolismo energético está sujeito a várias influências genéticas, e existem várias reservas escondidas que são acionadas só se a provisão de energia é interrompida. Nossa hipótese é de que o estresse oxidativo, que desencadeia falta de energia no cérebro, causa prejuízos que se transformam em sintomas psiquiatricamente relevantes.

M&C - Os procedimentos por imagem também podem ajudar a tornar visíveis os processos cerebrais patológicos?
S.B. - A sobreposição entre a atividade cerebral normal e patológica ainda é grande. Precisamos nos contentar com um baixo número de pessoas durante as séries de testes dentro dos tomógrafos. Em vista da vastidão dos sintomas, é difícil encontrar um denominador comum nos padrões de atividades de diversos pacientes.

M&C - Como os transtornos poderão ser mais bem classificados no futuro?
S.B. - Os sintomas psiquiátricos são pouco específicos para um ou outro transtorno. Com a ajuda de biomarcas talvez seja possível abrir o sistema diagnóstico que atualmente consiste em gavetas com etiquetas bastante difusas: esquizofrenia afetiva, transtorno psicótico e assim por diante.

M&C - Algumas pessoas acreditam que pesquisas como as suas falam a favor do determinismo biológico.
S.B. - Isso é bobagem. Como eu já disse: o ambiente, os genes e o comportamento se entrelaçam constantemente e de forma estreita. A indicação da base neurológica de transtornos psíquicos pode evitar preconceitos – pois não se trata de “devaneios cerebrais”. No entanto, não podemos compreendê-la como a única origem a que se podem atribuir os transtornos.