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edição 183 - Abril 2008
As lembranças de cada um
por Nelson Cowan
© Hirlesteanu Constantin-Ciprian/iStockphoto
A capacidade de armazenar recordações e “filtrá-las” é uma característica específica de cada indivíduo – uma espécie de “impressão digital”. Não por acaso, a memória de trabalho (ou de curto prazo, que nos permite guardar temporariamente um número limitado de informações, como números de telefones que usamos com certa freqüência, por exemplo) varia consideravelmente de uma pessoa para outra.

De acordo com o estudo sobre esse tipo de memória desenvolvido pelos pesquisadores americanos Fiona McNab e Torkel Klingberg, o processo de seleção das lembranças que devem ser guardadas ou dispensadas pode ser comparado aos dos filtros de spam do computador. O funcionamento dessas “peneiras mentais” situadas nos gânglios basais pode comprometer ou facilitar a lembrança de números, nomes de pessoas, compromissos etc. Filtros ineficientes causam, por exemplo, atividades desnecessárias e excessivas nas regiões cerebrais que “arquivam” as informações da memória de trabalho – as áreas parietais posteriores, situadas ao longo do topo do cérebro em direção ao dorso.

Poderíamos dizer que essas regiões desempenham o papel do disco rígido do computador, mas quando se trata de memória de trabalho, é mais adequado afirmar que sua função não é tanto guardar dados permanentemente, mas sim armazena-los temporariamente da memória à qual temos acesso de forma aleatória. É aceitável fazer um paralelo com a memória RAM (random access memory), já que as informações são mantidas enquanto estão em uso ou poderão ser usadas em breve.

Embora não existam evidências válidas sobre a importância da eficiência de filtragem de itens irrelevantes da memória de trabalho é necessário ter cuidado para não negligenciar a possibilidade de que as diferenças na capacidade de RAM também afetam a memória de trabalho. Se o tamanho da RAM realmente for importante, então a correlação entre seu tamanho e a eficiência de filtragem pode ser imperfeita. Por analogia, as velocidades máximas de sprint e as resistências dos indivíduos podem estar imperfeitamente correlacionadas, mesmo que as duas qualidades dependam de certos fatores comuns, como o estado geral de saúde.
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Nelson Cowan é diretor do Laboratório de Memória de Trabalho da Universidade de Missouri, Colúmbia.