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Azul e outros matizes

Filme ganhador da Palma de Ouro vai além da polêmica cena de sexo entre mulheres, com duração de sete minutos; trata de amadurecimento e perda

janeiro de 2014
Maria Maura Fadel
Divulgação

Azul é a cor mais quente é um filme feito de perto.  Perto demais, às vezes – o que pode ser incômodo para alguns. Paixão, pele, rostos, sexo, separação e dor são vistos em primeiro plano. Bocas mastigam entreabertas, corpos se encontram, lágrimas escorrem. Na obra do meticuloso diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, o espectador acompanha os últimos anos de adolescência de Adèle, vivida por Adèle Exarchopoulos, uma garota de 15 anos que se apaixona por Emma (interpretada por Léa Seydoux), a moça com jeito de menino e cabelos azuis. Além do enamoramento, preconceitos (tanto internos quanto externos) e desencontros entre as duas marcam a história que atravessa aproximadamente uma década. 

A maior particularidade do filme, realizado com base na história em quadrinhos Le bleu est une couleur chaude,de Julie Maroh (publicado no Brasil pela Martins Fontes), está no fato de que a trama se passa entre duas mulheres, o que acarreta desdobramentos inerentes à situação (e que provavelmente não ocorreriam se fosse uma relação heterossexual). Ainda assim, independentemente do sexo biológico ou do gênero das protagonistas e até das discussões na mídia sobre se tratar ou não de “um filme gay”, o que sobressai é o encontro, a história de amor, o processo de luto que marca o fim do relacionamento. Tomando por base esse olhar, talvez o ponto forte do filme, ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio de 2013, vá bem além dos sete minutos de sexo entre as duas moças – cena que, aliás, provocou grande polêmica. 

A história trata principalmente do processo de amadurecimento e desabrochar da sexualidade, apresentado de forma quase sempre intimista. Uma paciente comentou que a sequência apresentada na tela lhe causou sensações mescladas de ligeiro mal-estar, excitação e curiosidade, certo anseio de ver mais e ao mesmo tempo a impressão que já vira além da conta. Não por acaso, se pensarmos em Adèle – a menina que aos poucos descobre o universo da sexualidade, e ao mesmo tudo o que quer profissionalmente é dar aulas para crianças – não será difícil encontrar na personagem todas essas características. 

O limite entre o azul e o louro que volta às mechas de Emma na segunda metade do filme é tênue. O primeiro é marcado pelo diferencial, o tom é capaz de fascinar e seduzir, atrai atenções, mas também lembra que é preciso coragem para viver as próprias escolhas. O segundo, convencional, pode ser uma alusão à paixão que se acomoda na rotina. E, no dia a dia, embora dividindo a mesma cama, cada uma das pesonagens segue seu próprio caminho. Adèle tem planos concretos, pouco elaborados: leciona, não planeja estudar, diz estar satisfeita com a vida que leva ao lado da companheira. Já Emma, vinda de uma família com melhores condições financeiras e culturais, parece transitar com desenvoltura em um meio do qual se apropriou. Tem sua casa, seus amigos, assume a vida dividida com outra mulher (qualquer que seja ela) diante das pessoas com quem convive. Estudante de belas-artes, quer fazer uma exposição individual, ser reconhecida por seu trabalho e se empenha para isso. 

Numa recepção para os amigos de Emma, Adèle cozinha, prepara o macarrão à bolonhesa que o pai sempre cozinhava – simples e saboroso, como a existência que pretendia ter. Emma, porém, anseia por um tom de sofisticação. Mais experiente, começa a deixar a namorada de lado e chega a flertar abertamente com uma amiga (com quem mais tarde passará a viver) na frente de uma Adèle obviamente pouco à vontade diante de pessoas que não conhece, que falam sobre assuntos estranhos a ela.

Embora seja a musa de Emma, retratada em seus quadros, há espaços que ela não poderá jamais ocupar – possivelmente, porque, em primeiro lugar, não cogita fazê--lo. Talvez por solidão, insegurança ou medo da rejeição envolve-se, ainda que superficialmente, com um professor da escola onde leciona. Sentindo-se traída, Emma é inflexível. Teria sido uma estratégia para abandonar a companheira e mergulhar em outro relacionamento sem o ônus de ter de tomar a iniciativa de propor a separação? É possível.

Longe de Emma, Adèle amadurece. Sofre, chora. Difícil esquecer o primeiro amor, principalmente quando se carrega a culpa (talvez infundada) da separação. Passados alguns anos, tenta reatar o namoro, mas o tempo das duas já se foi. Ela ainda aparece retratada das telas de Emma, mas a namorada atual também tem lugar ali. Na última cena, a cor azul já não está nos cabelos de Emma, e sim no vestido de Adèle, que se afasta, caminhando sozinha pelas ruas vazias.