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Cansaço que faz adoecer

É quase impossível evitar que as pressões do cotidiano causem problemas de saúde, muitas vezes graves; a boa notícia é que podemos diminuir esses efeitos negativos criando “brechas de prazer” na rotina, em vez de esperar por alguns dias de férias uma ou duas vezes por ano

dezembro de 2010
© cj burton/corbis/latinstock
Fim do ano. É nesse período que muita gente constata o inevitável: as energias estão se esgotando. O que parecia apenas sinal de cansaço, principalmente para aqueles que passaram vários meses sem folgas mais longas, não raro se transforma em lapsos de memória e irritação. Nos casos graves de exaustão aparecem sintomas como enxaqueca, dor nas costas e no estômago (e às vezes até úlcera), queda acentuada de cabelos e síndrome do intestino irritável. Por trás do desconforto físico está aquela conhecida palavrinha: estresse. Muitos torcem o nariz quando algum médico, psicólogo ou outro profissional da saúde cogita esse diagnóstico, mas há um fato que não se pode negar: associado a muitos problemas que atacam os órgãos ou regiões específicas do corpo está o esgotamento.


Não é segredo que a natureza dotou nossos antepassados pré-históricos com uma ferramenta para ajudá-los a enfrentar ameaças: um sistema rápido de ativação capaz de aguçar a atenção, acelerar as batidas do coração, dilatar os vasos sanguíneos e preparar os músculos para lutar ou fugir de um predador que invadia a caverna. Porém, nós, os humanos modernos, estamos constantemente sujeitos ao estresse decorrente do estilo de vida contemporâneo: excesso de trabalho, barulho, pressão social, doenças físicas e desafios intelectuais. Como resultado, muitos órgãos de nosso corpo são atingidos por uma descarga implacável de sinais de alarme que podem danificá-los e nos fazer adoecer.


Apesar das mudanças no estilo de vida, nosso sistema cerebral ainda excita rapidamente o coração, os pulmões e outros órgãos, preparando-nos para enfrentar o perigo ou fugir dele. Afinal, hoje não são as feras que nos incomodam, mas o trânsito caótico, a sobrecarga de tarefas, os chefes intransigentes, os colegas medíocres dos quais dependemos, o risco de sermos assaltados e tantas outras ameaças. E quando enfrentamos estressores da vida moderna, o sistema pode bombar¬dear o corpo com sinais de alarme, capazes de comprometer nossa saúde.


Quando a visão, a audição ou os pensamentos indicam estresse, o hipotálamo inicia uma reação em cadeia, que envolve a amígdala e as glândulas pituitárias e adrenais, conduzida por impulsos nervosos e uma cascata de hormônios, entre eles o CRH, o ACHT e os glucocorticoides. Se os cientistas conseguirem determinar exatamente quais células receptoras no cérebro e nas glândulas propagam os sinais de esgotamento, poderão criar drogas específicas para interferir nesse processo, poupando os órgãos do esforço que o estresse provoca.
Professor Wylie Vale, Laboratory Head and Helen Mcloraine Chair in Molecular Neurobiology e Clayton Foundation Laboratories for Peptide Biology, cortesia do Salk Institute for Biological Studies

Humor, sono, fome e hormônios

O que exatamente acontece no cérebro e no corpo quando estamos sobrecarregados? Quais órgãos são ativados? Quando os alarmes começam a causar problemas críticos? Nas últimas décadas, os pesquisadores identificaram diversas áreas que contribuem, de forma considerável, para determinar a forma como o corpo reage ao estresse e influem no modo como respondemos aos estressores externos. Essas regiões processam informação sensorial e emocional e se comunicam com uma vasta rede de nervos, órgãos, vasos sanguíneos e músculos, realocando as reservas de energia do corpo, de modo que possamos avaliar e reagir às situações.


Quando o estresse se desencadeia, o hipotálamo, uma pequena área localizada em uma região profunda do cérebro, entra em ação. Ele contém vários núcleos (ou conglomerados) de neurônios, responsáveis por tarefas diversas, como regular o sono, o apetite e o equilíbrio entre diversos hormônios. O conglomerado mais importante de neurônios é o núcleo paraventricular, que produz importante liberador de corticotropina (CRH), estimulante que desencadeia a reação do estresse.


O CRH foi descoberto em 1981 por Wylie Vale e seus colegas do Instituto Salk de Estudos Biológicos, em San Diego, e desde então tem sido objeto de pesquisa. Esse hormônio controla a reação ao estresse de duas formas. Na primeira, ele alcança os órgãos por meio do chamado braço longo – o caminho do sinal hormonal do hipotálamo para a glândula pituitária, no cérebro, e para as glândulas adrenais, nos rins. Esse braço é também conhecido como eixo hipotálamo-pituitária-adrenal. Ao atingir a pituitária o CRH faz com que a glândula libere o hormônio adrenocorticotrópico (ACHT) na circulação sanguínea. O ACTH, por sua vez, ativa as glândulas adrenais para liberar hormônios glucocorticoides no sangue. Níveis de glucocorticoides normalmente seguem um ritmo diário: alto no começo da manhã, baixo no fim do dia. Uma de suas principais tarefas é aumentar a glicose no sangue para fornecer energia aos músculos e nervos. Eles também controlam o metabolismo da glicose e o ciclo de sono-vigília. Como regulam funções tão importantes, os níveis desses hormônios têm de ser controlados com precisão e, sendo assim, estão sujeitos a um mecanismo de feedback no hipotálamo que pode rapidamente reverter o sistema para valores mais baixos.


O CRH também utiliza outro caminho, o “braço curto”. Uma pequena região no tronco encefálico chamada locus ceruleus funciona como um tipo de circuito elétrico neural, ligando as áreas cerebrais produtoras de CRH ao sistema nervoso autônomo, que controla os processos fisiológicos contínuos independentemente de nossa vontade, como respiração, pressão sanguínea, digestão e assim por diante.
© galina barskaya/fotolia
O sistema de resposta do organismo produz feedback positivo para fortalecer a própria ação do estresse quando necessário, mas, se situações de tensão ocorrem constantemente (não raro várias vezes por dia), há um acúmulo que pode tornar-se perigosamente intenso. Apropriada ou não, a reação depende, em grande parte, das células que encobrem a glândula pituitária. O CRH envia sinais para essas células por meio de moléculas receptoras tipo 1 na membrana celular. Há alguns anos, os pesquisadores do Instituto Salk e do Instituto Max Planck de Psiquiatria em Munique criaram camundongos nos quais receptores tipo 1 estavam ausentes. Mesmo quando expostos várias vezes a situações estressantes, os níveis sanguíneos de certos hormônios do estresse desses animais nunca se elevaram acima do normal. Eles sentiam-se obviamente menos estressados. É possível que drogas capazes de suprimir os efeitos do CRH nesses receptores possam, também, reduzir os níveis de estresse em pessoas perturbadas.


PARA GANHAR FÔLEGO

Conhecimentos mais recentes acerca do funcionamento do cérebro oferecem fortes indícios de como a tensão pode nos fazer adoecer e como neutralizar seus efeitos. Seja para um roedor, seja para uma pessoa, qualquer ativação do sistema de estresse é um evento extraordinário – e no momento em que a emergência termina, o sistema deve ser rapidamente desligado, de modo que os órgãos afetados possam se recuperar. Contudo, quando circunstâncias externas estimulam o sistema de estresse repetidamente, ele nunca deixa de reagir, e os órgãos nunca conseguem relaxar. Tal tensão crônica torna muitos tecidos vulneráveis a danos.


Mas nem toda reação é igual. Certo nível básico, chamado estresse positivo, é até desejável, porque nos mantém física e mentalmente prontos para agir bem. Porém, quando estamos em risco? Não há resposta consensual a essa pergunta. Não sabemos quanto barulho no ambiente de trabalho ou quantos relacionamentos rompidos nosso sistema de estresse pode suportar. Entretanto, um conjunto de pesquisas em desenvolvimento mostra que o estresse crônico compromete nossos órgãos e corpo. Embora já não enfrentemos o animal faminto na caverna, podemos ter de nos defrontar com dilemas igualmente terríveis, envolvendo diversos estressores mais insidiosos que estão sempre nos agredindo.


Então, o que fazer para diminuir a carga que pode nos prejudicar de forma tão grave? Cada vez mais psicólogos e médicos alertam para uma providência aparentemente simples, mas que pode fazer grande diferença para o bem-estar físico e mental: criar “brechas de prazer” na rotina, em vez de apenas aguardar, ansiosamente, pelas férias anuais. Ao praticar com frequência atividades prazerosas, de preferência que envolvam movimento ou relaxamento do corpo – como caminhadas, esporte, dança, meditação ou massagem –, criamos válvulas de escape para a tensão, ajudando o sistema cerebral a “descansar”. E assim ganhamos fôlego para aguardar as merecidas férias.