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Ciência para aprender violão

A repetição faz os padrões se instalarem no cérebro, até chegar àquele ponto mágico em que os movimentos se tornam automáticos

junho de 2013
Suzana Herculano-Houzel
Gonçalo Viana
Aproveitei a deixa das aulas semanais de violão e guitarra dos meus filhos e resolvi reservar uma hora por semana para fazer aula também. Era um velho sonho meu: tocar violão clássico – que eu finalmente tenho a oportunidade de abraçar aos 40 anos de idade. 

Estou achando ótimo e usando a meu favor todos os meus conhecimentos sobre a neurociência do aprendizado. Primeiro, para não desanimar antes de sequer começar, achando que eu já sou burra velha demais para a empreitada. Muito pelo contrário: tenho uma vantagem enorme sobre meus filhos, donos de cérebros novinhos. Primeiro, porque, com a minha bagagem de 15 anos de estudo formal de teoria musical, piano e flauta, ler partituras, ainda mais com uma pauta só, é trivial. 

Segundo, porque os anos de prática no piano me deram uma boa coordenação motora e, mais importante ainda, ensinaram meu cérebro a fazer coisas diferentes com as duas mãos sem grandes problemas. 

Ainda assim, o repertório de movimentos aprendidos com o piano não incluía puxar cordas, dedilhá-las com o polegar, nem fazer hammer-ons e pull-offs com os dedos da mão esquerda. Como chegar lá? 

Começamos, meu professor e eu, avaliando o que eu já sabia fazer ao violão (acordes de bossa-nova, aprendidos sozinha de brincadeira) – e o que eu não sabia, mas gostaria de aprender. A partir daí, recebo toda semana exercícios novos, progressivamente mais difíceis. Uns são simples de ler e exigem apenas prática, prática, prática, até o cérebro aprender o que fazer com os dedos; outros exigem quebrar a cabeça para descobrir onde no braço do violão dará para tocar todas aquelas notas ao mesmo tempo. Mas o desafio é parte da graça, e me mantém motivada. O professor, num arroubo de otimismo ainda maior que o meu, me propôs na terceira aula aprender a tocar Astúrias,  de Albéniz – simples e lindíssima, mas cheia de notas repetidas a toda velocidade, muito além das minhas capacidades.

Mas, atrevida que sou, resolvi tentar – e estou não só me divertindo como gratamente pasma com o que já consigo fazer. Com isso, minha motivação está nas alturas. Se sobram 15 minutos antes de ir para o trabalho, tiro meu violão do estojo já de manhã, e passo o dia antecipando poder tocar um pouquinho mais de Astúrias no fim do dia. 

Ainda assim, método é fundamental para alcançar os resultados que mantêm a motivação. Semana passada resolvi arriscar o Estudo no 1 de Villa-Lobos, todo de arpejos, com essencialmente o mesmo dedilhado passeando por todas as cordas do começo ao fim. A partitura é assustadora à primeira vista – até se descobrir que há, na verdade, um padrão tão simples que a leitura se torna fácil. 

Mas tocar a toda velocidade é que são elas: os dedos hesitam, esbarram, tropeçam, se atropelam nos arpejos. Eu sabia que o truque seria começar devagar, para aprender o dedilhado, e acelerar aos poucos, mas a dica do professor foi fundamental: usar um metrônomo. 

O metrônomo impõe um ritmo externo e perfeitamente igual, que o cérebro aprende a seguir. Repetição, repetição, repetição fazem os padrões se instalarem no cérebro, até chegar àquele ponto mágico em que o padrão se torna automático – e limpo, ainda que lento. Depois disso, é só passar o metrônomo para a marca seguinte – e depois a seguinte, e depois a seguinte. De quebra, o metrônomo ainda dá uma medida direta do seu sucesso. Só hoje já limpei meu dedilhado a 66 batidas do metrônomo por minuto, e consegui chegar, aos poucos, a 96. A meta é 150... mas eu chego lá!

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