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edição 169 - Fevereiro 2007
Diários de prostituta
por Sérgio Telles
© Tina Lorien/Istockphoto
Bruna Surfistinha é o nome de guerra de uma jovem prostituta que em 2005 começou a registrar seu cotidiano em um blog na internet. Com inesperada receptividade dos internautas, o site chegou a receber 15 mil visitas diárias, fato que chamou a atenção da grande imprensa. No mesmo ano ela publicou O doce veneno do escorpião - O diário de uma garota de programa (Panda Books), que rapidamente tornou-se best-seller, com mais de 200 mil exemplares vendidos, e mereceu artigo no The New York Times. Os direitos autorais foram comprados por editoras de mais de dez países e um roteiro cinematográfico está sendo preparado. Em 2006, a autora lançou seu segundo livro: O que aprendi com Bruna Surfistinha - Lições de uma vida nada fácil (Panda Books), agora assinado por Raquel Pacheco, seu nome verdadeiro. Na trilha do sucesso, foram lançados em 2006 A agenda de Virgínia (Planeta), assinado pela ex-prostituta espanhola Alejandra Duque, e O diário de Marise (Matrix Editora), de Vanessa Oliveira, uma ex-garota de programa de Camboriú.

No caso de Surfistinha, os dois livros mostram o percurso de uma menina de classe média que entra na prostituição e é resgatada por um "verdadeiro amor": um ex-cliente que por ela se apaixona e abandona mulher e filhos - fato amplamente explorado por revistas e programas populares na televisão. A esposa abandonada, a comissária de bordo Samantha Moraes, aproveitou a publicidade e escreveu sua versão da história: Depois do escorpião: uma história de amor, sexo e traição (Editora Seoman, 2006). A repercussão do fenômeno Bruna Surfistinha suscita idéias sobre a pornografia e a prostituição, sobre a escrita como expressão e simbolização organizadoras do psiquismo, bem como sobre as autobiografias como gênero literário.

EROTISMO E CULTURA
Embora a pornografia tenha longa tradição histórica, não é fácil defini-la. Pode-se dizer que é a representação de comportamentos eróticos cujo objetivo é provocar excitação sexual, com ou sem preocupação estética formal. Sua expressão mais antiga está ligada a canções lascivas entoadas nas orgias dionisíacas gregas. Representações gráficas, como as encontradas em Pompéia, mostram sua presença no Império Romano. O texto clássico do poeta Ovídio (47 a.C.-17 d.C.) intitulado Ars amatoria (A arte de amar) é um bom exemplo de pornografia escrita na Antigüidade.

Na Idade Média, ela se difundiu basicamente de forma oral, por meio de canções que satirizavam a luxúria de homens e mulheres, supostamente castos, da Igreja. Uma exceção é o Decameron, coleção de novelas escrita por Giovanni Boccaccio (1313-1375) entre 1348 e 1353, que ilustra a expressão erótica na literatura da época. A invenção da imprensa deu novo alento à pornografia escrita, apesar das sanções legais. O mesmo ocorreu depois da invenção da fotografia e do cinema, e, mais recentemente, da internet.
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Sérgio Telles psicanalista, é autor de Fragmentos clínicos de psicanálise (Casa do Psicólogo/EdUFSCar, 2004), O psicanalista vai ao cinema (Casa do Psicólogo/EdUFSCar, 2005) e Visita às casas de Freud e outras viagens (Casa do Psicólogo, 2006).