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edição 169 - Fevereiro 2007
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Diários de prostituta
por Sérgio Telles
[continuação]

A pornografia tem sido objeto de perseguições morais e religiosas por se acreditar que ela tende a corromper ou depravar, além de induzir à prática de crimes sexuais. Por isso a distribuição e a posse de material considerado pornográfico são vistos como crime em muitos países. Essas idéias, no entanto, têm sido combatidas com argumentos legais e científicos. A ampla difusão da pornografia pela internet fez caducarem muitos dos controles sociais até então eficientes, mostrando o caráter fantasioso dessas idéias. Com base no que elas afirmam, a rede mundial de computadores deveria ter feito os crimes sexuais crescerem de forma extraordinária - o que não ocorreu.

PORNOGRAFIA LIGHT
Os livros de Bruna Surfistinha terminam por se afastar daquilo que é mais específico das produções pornográficas - a provocação, franca e direta, do desejo sexual, cujo poder eventualmente transgressivo a muitos assusta. Eles contam uma história romântica, cheia de conselhos e apimentada por uma pornografia light. Ao mostrar uma prostituta que trilha o caminho de erros e é redimida pelo amor, ela reafirma uma visão convencional e moralista da prostituição, acomodada aos estereótipos do imaginário coletivo, sendo possivelmente essa uma das razões de seu grande sucesso comercial. Por outro lado, a prostituta resgatada pelo ex-cliente é uma das modalidades de escolha de objeto por parte dos homens, como Freud descreveu em Contribuições à psicologia do amor, de 1910. Determinados homens se apaixonam por prostitutas porque as equiparam às suas mães; a prostituta é uma "mulher de outros homens", assim como a mãe é a "mulher de outro homem", o pai.

Se "Bruna Surfistinha" é o personagem criado por Raquel Pacheco, "Raquel Pacheco" por sua vez não deixa de ser também outra ficção, dessa vez involuntária, como ocorre na maioria das autobiografias. A imagem de si mesmo construída pelo autor atende mais ao desejo de mostrar uma bela figura para a posteridade do que o de ser fiel aos fatos. Mas o que ocorre nesse tipo de narrativa reflete uma verdade mais profunda, a decorrente da divisão interna de nosso psiquismo em função do inconsciente reprimido, o que nos impossibilita uma auto-percepção adequada.

De certa forma, os livros de Bruna Surfistinha quebram um estereótipo sobre a prostituição. Sendo uma moça de classe média, sua realidade não está tão distante da de seus leitores, o que não ocorre com os relatos de prostituição feitos por aquelas que ali chegaram por pressão direta da miséria socioeconômica. Segundo a autora, foi a miséria psicológica que a levou para a prostituição, isto é, o trauma decorrente da descoberta de sua adoção. Levando em conta tal explicação, sua prostituição decorreria de graves problemas identitários, já sinalizados por sintomas anteriores como obesidade, cleptomania, idéias de suicídio e uso de drogas. Isso estabeleceria a conotação sintomática de sua conduta rumo à prostituição, o que contradiz sua tentativa de apresentá-la como um trabalho comum.
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Sérgio Telles psicanalista, é autor de Fragmentos clínicos de psicanálise (Casa do Psicólogo/EdUFSCar, 2004), O psicanalista vai ao cinema (Casa do Psicólogo/EdUFSCar, 2005) e Visita às casas de Freud e outras viagens (Casa do Psicólogo, 2006).