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edição 169 - Fevereiro 2007
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Diários de prostituta
por Sérgio Telles
[continuação]

Talvez não seja excessivo relacionar a proeza de Bruna Surfistinha com as construções teóricas de Lacan sobre o escritor irlandês James Joyce (1882-1941), em que afirma que, para o autor de Ulisses, a escrita ocupou o lugar vacante da função paterna, evitando a eclosão de uma psicose. Da mesma forma, é possível que Bruna Surfistinha tenha usado a capacidade de escrever para organizar e simbolizar o caos psíquico, e assim escapar da loucura.

Vale sublinhar ainda a hipocrisia em relação à prostituição, algo que as autoras desse gênero de livro costumam mencionar. A atitude da sociedade em relação ao assunto é muito ambígua. Todas as vezes que a prostituição é penalizada e as prostitutas perseguidas, dificilmente ocorre o mesmo a seus clientes. Algo semelhante acontece no combate à corrupção e ao tráfico de drogas. Demoniza-se o traficante ou o corrupto, ignorando-se que eles atendem à demanda de mercados milionários. A prostituição, a corrupção e o tráfico de drogas são inegavelmente encarados pela sociedade de forma dissociada e hipócrita.
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Sérgio Telles psicanalista, é autor de Fragmentos clínicos de psicanálise (Casa do Psicólogo/EdUFSCar, 2004), O psicanalista vai ao cinema (Casa do Psicólogo/EdUFSCar, 2005) e Visita às casas de Freud e outras viagens (Casa do Psicólogo, 2006).