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Hestórias da psicanálise

Filme percorre caminhos da “ciência freudiana” no Brasil e, como diz o título, apresenta tanto a noção de “estória”, de ficção e lenda, quanto o conceito de “história”, com fatos e datas 

setembro de 2016
Christian Ingo Lenz Dunker
DIVULGAÇÃO

Em setembro estreia nos cinemas o documentário Hestórias da psicanálise, de Francisco Cappoulade. Não se trata apenas de um inventário de autores e datas sobre esse experimento curioso que é a chegada e disseminação da psicanálise no Brasil. Apesar de composto por depoimentos de psicanalistas, historiadores e intelectuais, o filme não é só um trabalho sobre psicanálise, mas uma forma psicanalítica de tratar a linguagem fílmica. Uma investigação em psicanálise. A começar pelo neologismo produzido em seu título, que combina a noção de estória, ou seja, ficção, lenda ou conto, com o conceito de história, envolvendo fatos, datas e acontecimentos. 

Ao contrário de outras culturas nas quais a psicanálise é um evento endógeno, como a Áustria de Freud, a França de Lacan ou a Inglaterra de Klein, ou de países nos quais ela é um acontecimento exógeno, como a África do Sul ou os Estados Unidos, no Brasil a psicanálise ajudou a formar o pensamento sobre a própria brasilidade. Antes mesmo de existirem verdadeiros praticantes da ciência freudiana, o discurso da psicanálise participou da constituição de nossa sociologia, da formação de nossas vanguardas estéticas modernistas e da construção de nosso parque psiquiátrico. 

Mas o ângulo adotado por Cappoulade é mais sensível que a combinação entre o testemunhal e o factual. Ele consegue retratar essa experiência do ponto de vista do hibridismo de linguagem envolvido nela. São imagens de uma travessia na qual a multiplicidade de depoentes encontra sua unidade por meio da música. É assim que o discurso tipicamente intelectual, urbano e eurocêntrico no qual as ideias psicanalíticas chegam ao Brasil encontra o seu lugar, ao acorde sintético e mínimo de uma viola caipira. Um único som que, ao se infiltrar como um coro trágico por trás das imagens, transforma tudo. Exatamente como a intervenção de um psicanalista, esse acorde característico ressignifica todo o nosso europeísmo provinciano por meio do que Antonio Candido encontrou no traço constitutivo de nossa música: a síncope. São pontos altos do filme a trilha sonora de Marcelo Silva, o depoimento de Sérgio Paulo Rouanet e sua temporalidade lenta, introspectiva e distendida, apesar das inúmeras vozes, como convém ao objeto do qual se trata. 

A viola e o violoncelo, o sotaque alemão e o humor carioca, a alegria e a languidez, o mar e a terra formam imagens recorrentes de um litoral móvel, que é seu verdadeiro tema. É um filme que tira a psicanálise de dentro de si mesma, matizando seu provincialismo crônico e sua mania de adaptar-se, traindo a sua vocação de ser uma ideia e uma prática fora de lugar. Um trabalho que marca e simboliza uma profunda transformação que está em curso acerca do lugar social dessa clínica, não mais um privilégio de ricos e elites intelectuais, mas um patrimônio cultural de nossa experiência de Brasil. É só assim, renunciando aos nossos particulares e reconhecendo a singularidade, que poderemos restituir, no universal da linguagem, o universal que nos constitui. 

Este artigo foi publicado originalmente na edição de setembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2cjymOS 

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