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Homens desconstruídos

O olhar crítico impulsiona o debate feminista sobre as microfísicas de poder no cotidiano. Mas pode haver equívocos nesse processo

fevereiro de 2017
Christian Ingo Lenz Dunker
SHUTTERSTOCK

Uma das novidades mais interessantes trazidas pelo novo discurso feminista é o emprego da ideia de desconstrução. Quem ainda não tomou consciência da condição de opressão e de desigualdade à qual as mulheres estão submetidas não está sendo apenas preconceituoso, obtuso ou machista, mas é alguém que não se desconstruiu. Contraste saliente com apostas no processo de construção, na tomada de consciência e na produção de laços que persigam um fim emancipatório. Esse movimento poderia ser saudado como um momento necessário de certa dialética histórica, mas, às vezes, a dialética parece ter sido aposentada em algum ponto deste caminho.

Nesse novo contexto, o sentido mais curioso da noção de desconstrução ocorre quando ela aparece como um desqualificativo proverbial de seu opositor. Por exemplo: “Você precisa se desconstruir”. Em tradução acadêmica livre isso poderia significar: “Você ainda não se desligou de seu essencialismo patriarcal, que desconhece sua própria construção social, você acredita que o dispositivo sexo (biológico) e gênero (discursivo) é um binário complementar e partilha da ideologia cisnormativa hegemônica que impõe a norma heterossexual, genital e falocêntrica”. O que temos aqui é um programa crítico absolutamente relevante e uma forma de filosofia que conseguiu alcançar o uso popular da expressão, impulsionando o debate feminista ao cotidiano das pessoas e suas microfísicas de poder. 

Não se trata de uma ideologia de gênero, como alguns argumentam, mas seu exato contrário, uma prática de reflexão para além da expansão de nossos próprios valores, categorias e identidades. Contudo, muitos homens ainda não desconstruídos queixam-se de que a conversa rapidamente evolui para um monólogo no qual pressupostos se tornam indiscutíveis e a simpatia inicial pela atitude feminista vira ressentimento, transformando o potencial afetivo e ético do tema em mera inversão de preconceitos. Tudo que é dito se reduz ao fato de que se é, em essência, um homem falando, literalmente um argumento ad hominem. 

Nada poderia ser menos desconstrutivista do que tal atitude. Jacques Derrida (1930-2004), criador do método da desconstrução, poderia dizer que sua invenção foi “apropriada” em um sentido oposto ao pretendido. Desconstrução não é desqualificação moral nem deslegitimação discursiva, muito menos “escracho” violento ou culpabilização cristã, mas um método para ler textos desviando-se da crença na unidade e identidade de seu sentido. 

Derrida estudou matemática observando que sistemas fechados não podem ser consistentes (teorema de Gödel) e ampliando esta intuição para o sentido de uma obra, de um autor e de um discurso. Daí o termo “diferrância”, proposto como mistura entre diferenciar e diferir (adiar) ser um convite a criar situações em que o sentido se torna “indecidível”. Portanto, quem se coloca na posição de “desconstruíde” (para indecidir se o caso aqui é “a” ou “o”) e acusa seu interlocutor de “não desconstruído” está traindo o princípio elementar da desconstrução, que é suspender as oposições binárias e colocar sob suspeita a voz que define quem é quem. 

Este artigo foi publicado originalmente na edição de feveiro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2lU6Pqx 

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